O território de Anida se abriu diante deles como uma promessa.
A luz da tarde deslizava entre as folhas largas das árvores, espalhando manchas douradas pelo chão. O ar era mais úmido, carregado de aromas de relva fresca, flores e água distante. Para Kami, aquilo parecia um sonho materializado.
— Anida? — ela murmurou, inclinando a cabeça enquanto observava tudo ao redor. — Nossa viagem valeu mesmo a pena... é mais bonito do que eu imaginei.
Walimu caminhava ao lado dela, os olhos atentos, absorvendo cada detalhe.
— Vocês sabem se os reis estão aceitando novos membros? — perguntou. — Nascemos nas fronteiras de Dugani... nossa família é nômade. Estávamos procurando um lugar para ficar.
Akili e Kisai trocaram um olhar breve, silencioso.
— Sinceramente? — responderam juntas. — Não sabemos.
— Podemos perguntar ao príncipe — comentou Wami, com um sorriso travesso. — Ele ficou bastante cativado com a Akili, não ficou? — provocou, erguendo as sobrancelhas. Akili revirou os olhos.
Os trigêmeos ergueram as orelhas ao mesmo tempo.
— Só precisamos encontrá-lo — completou Wazi. — Vocês buscam sua família e nós vamos atrás do príncipe. Encontramos vocês aqui em meia hora.
Antes que alguém respondesse, rugidos ecoaram.
Não eram próximos... mas eram fortes o suficiente para fazer o chão vibrar sob suas patas.
Kami foi a primeira a diminuir o passo, as orelhas erguidas, a respiração curta.
— Parece com o rugido do papai...
— E com o da Wonaji — acrescentou Mwezi, já sentindo o estômago se fechar.
— Tem mais alguém ali — murmurou Jioni.
Safi franziu o focinho.
— Isso não é bom.
Sem dizer mais nada, os filhotes mudaram de direção e correram pela trilha estreita entre os arbustos. À medida que se aproximavam, os sons ficavam mais claros: rosnados, passos pesados, o estalar nervoso da vegetação sendo pisoteada.
Quando alcançaram a clareira menor à beira do caminho principal, se enfiaram entre as moitas, observando em silêncio.
Wonaji e Kinga estavam no centro da passagem, os corpos posicionados como barreira viva. À frente delas, quatro leões adultos ocupavam a trilha com a segurança de quem não pretendia sair.
— Não me façam repetir — rosnou Wonaji. — Caiam fora.
O que parecia liderá-los avançou um passo. Seu corpo escuro era sólido, a juba espessa moldando-lhe a cabeça como uma coroa torta, e havia nos olhos dele uma satisfação silenciosa em desafiar aquele território.
— Não sairemos até termos uma audiência com os reis.
Kinga avançou meio passo, o pelo eriçado, o tom da voz baixo e perigoso.
— Vossas majestades chegam a qualquer instante. Um único rugido de alerta basta para chamar metade do reino.
Os três companheiros dele se ajustaram em formação.
À direita, um leão de juba clara, quase dourada, observava tudo com cautela, o vento mexendo em sua juba como se quisesse afastá-lo dali. Logo atrás, dois irmãos de jubas marrons, ambos atentos, calculistas, um mantendo o corpo alinhado como um soldado, o outro observando em silêncio cada detalhe da cena.
Os filhotes se entreolharam, o medo se espalhando lento.
Foi então que os rugidos de Thadi ecoaram mais próximos.
O rei surgiu entre a vegetação, Habi logo atrás, Kamilla e Askari fechando o flanco. O espaço se estreitou. O ar ficou pesado.
— Agora não é hora de bancar o rei, Jafari — disse um dos irmãos de juba marrom, firme. — Não é nosso território.
O líder rosnou, mas foi contido por uma pata pousando em seu ombro.
— Não cause mais problemas — continuou o irmão. — Há filhotes aqui.
Habi ergueu as orelhas.
— Filhotes?
Antes que alguém respondesse, Kami, Walimu e Hasa romperam o esconderijo e correram para junto do leão escuro, enfiando-se entre suas patas.
— Papai!
O leão estremeceu.
— O que estão fazendo aqui?! — ele rosnou, mas sua postura suavizou.
— Não queríamos que você se machucasse, papai — disse Kami. — E... elas disseram que talvez os reis nos concedessem um lar.
Habi observou as sete filhotes que agora surgiam do esconderijo.
Akili se adiantou, curvou a cabeça.
— Peço desculpas, majestade. Não sabíamos que a família deles estava tão perto.
Habi sorriu.
— Não é culpa sua, pequena.
O ar ao redor deles se aliviou da tensão.
— Serão bem-vindos — declarou ela —, contanto que ajudem nas patrulhas.
Jahari se apresentou. Jawari sorriu nervoso. Jabari inclinou a cabeça. Jafari manteve o olhar firme.
Habi então organizou o reino como um tabuleiro em movimento.
— Kinga, Kamilla, levem os filhotes para a caverna — disse ela, mantendo a postura firme, vendo as duas leoas assentindo antes de guiarem os filhotes para longe. — Wonaji, mostre as fronteiras. Askari, acompanhe-os. Nyusi trará o relatório da patrulha mais tarde.
Wonaji partiu na frente sem dizer uma palavra.
O corpo dela avançava rígido pela trilha de terra clara, a cauda tensa, as orelhas inclinadas para trás num ângulo que só quem a conhecia bem reconheceria como sinal de conflito interno. A luz do fim de manhã atravessava as copas, mas nada parecia aquecer o caminho que se formava entre ela e os quatro leões que a seguiam.
Askari veio por último. Não por ordem — por instinto.
Jawari foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Ela é sempre assim? — Perguntou, observando as costas de Wonaji, a juba clara ondulando ao vento. — Intimidadora, digo.
Askari demorou a responder.
— Você se acostuma... eu acho. — Um sorriso breve e sem graça surgiu em seu rosto. — Levei alguns anos.
Jawari ergueu as sobrancelhas.
— Alguns anos? — Riu, surpreso. — Então vocês se conhecem há bastante tempo.
Askari abriu a boca... e fechou de novo.
— Eu... acho que sim — o tom saiu inseguro. Como se aquela certeza não morasse inteira nele. — Tive um período de amnésia — completou, mais baixo. — Algumas coisas do meu passado... ainda não voltaram.
Jawari apenas murmurou um “oh” compreensivo, mas o olhar dele já havia retornado para Wonaji. A leoa caminhava como se estivesse em outro mundo. O focinho levemente erguido, o olhar distante.
Jahari, que observava tudo em silêncio, percebeu.
Ele trocou um olhar com Jabari.
Jabari deu de ombros.
Jawari suspirou e apressou o passo, aproximando-se de Wonaji.
— Não sou exatamente bom em ficar fora da vida alheia — começou, num tom quase amistoso —, mas acho que você e o gigante gentil ali atrás têm... história.
Wonaji parou e virou-se devagar.
— O quê?
— Você ouviu.
Ela piscou, claramente arrancada de seus pensamentos.
— Isso está no passado.
Jawari inclinou a cabeça, um sorriso enviesado surgindo.
— Engraçado... porque a tensão entre vocês dois está no ar.
O maxilar de Wonaji se contraiu.
— Não existe tensão.
— Você é uma péssima mentirosa.
Ela mostrou os dentes.
— Escute, erva-daninha — rosnou, avançando um passo —, meu humor não está bom hoje. Então cale a boca antes que eu arranque todos os seus dentes e faça você engolir cada um.
Jawari congelou e então piscou. — Fui ameaçado de morte por curiosidade.
— O que você fez? — Jabari pergunta, se aproximando.
— Meu dom natural — resmungou Jawari. — E ela me chamou de erva-daninha.
Askari observava tudo com um sorriso nervoso.
— Ela... tem essas explosões.
— Isso se chama tensão acumulada — murmurou Jawari.
— Jawari — advertiu Jabari.
— Só estou dizendo — ele ergueu as patas dianteiras em falsa rendição. — Mais cedo ou mais tarde isso vai explodir.
Jafari passou por eles, sério.
— Ignore-o. Geralmente só tem ideias idiotas.
— Minhas ideias não são idiotas! — protestou Jawari.
Mas já era tarde. Wonaji seguia à frente.
[...]
O interior da caverna era mais fresco do que a savana lá fora.
A luz do dia entrava em feixes largos pelas fendas na rocha, iluminando o chão de pedra, os ninhos improvisados de palha e as marcas antigas pintadas nas paredes — símbolos do reino, histórias que ninguém mais parava para ler, mas que ainda observavam todos em silêncio.
Os filhotes ocupavam o espaço como um pequeno universo em movimento.
Risos, perseguições curtas, pequenas discussões que morriam antes de virar briga.
Akili e Adanna corriam perto da entrada, desviando de Kumi e Utay, Mwezi, Safi, Wami e Wazi se revezavam num jogo estranho que ninguém mais parecia entender, Elimu permanecia mais próximo de Kinga, sentado, observando — os olhos atentos, a respiração curta.
Kamilla caminhava de um lado para o outro, mantendo o grupo sob vigilância — a contragosto dela, diga-se de passagem.
Foi então que Habi surgiu na entrada da caverna.
As duas leoas ergueram a cabeça ao mesmo tempo.
— Majestade — disseram em uníssono.
Habi respondeu com um aceno leve, o semblante carregado por algo que não era exatamente cansaço.
— Desculpem a demora — disse ela. — Thadi e eu conversamos. Chegamos à conclusão de que não é seguro deixar todos esses filhotes sem responsáveis fixos por tanto tempo.
Kinga franziu a testa.
— Concordo.
Kamilla inclinou a cabeça.
— O que pensaram?
Habi respirou fundo antes de responder.
— Algumas das adolescentes que já encerraram o treinamento de caça poderiam cuidar deles durante o dia. Ou talvez... duas de suas aprendizes, Kinga.
Kinga ficou em silêncio por um momento, calculando.
— Cuidar de sete filhotes não é tarefa leve — disse, por fim. — Talvez dividir o grupo. Kweli pode cuidar de três. Chemchemi pode assumir as outras quatro.
— Kweli ficará animada — murmurou Habi, pensativa. — Vou falar com Wonaji quando ela voltar.
— Voltar? — Kamilla arqueou a sobrancelha. — Onde ela foi?
Habi soltou uma risada baixa.
— Thadi pediu que ela mostrasse o reino aos novos leões... com Askari.
Kamilla e Kinga trocaram um olhar imediato.
— Pelos Antigos — murmurou Kamilla. — Acha que foi uma boa ideia?
— Se nós sentimos a tensão entre eles, os forasteiros também sentirão — completou Kinga.
— Só posso torcer para que Wonaji não os mate — Habi suspirou.
Kamilla riu, apesar da preocupação.
— E Nyusi?
— Logo trará o relatório.
— Aquele pardal ainda não se aposentou? — A leoa marrom resmungou, seu focinho se torcendo em descrença.
— Todos nós fizemos essa pergunta.
As três riram brevemente — e o riso ecoou na caverna como uma coisa frágil demais para o peso do que estava se formando ao redor do reino.
Enquanto isso...
Kisai observava tudo em silêncio.
Sentada à sombra, afastada da agitação, a filhote de pelagem escura assistia às amigas brincarem e aos adultos decidirem seus destinos como peças sobre um tabuleiro.
O pensamento martelava sua mente:
Por que um rei aceitaria sete filhotes órfãs?
E antes que alguém pudesse notar sua ausência, Kisai se levantou e deixou a caverna.
[...]
O sol já estava mais alto quando Kisai alcançou a área de treinamento.
A relva ali era curta, pisoteada por incontáveis exercícios, e o chão de terra avermelhada carregava marcas de garras e pegadas sobrepostas. O vento trazia o cheiro de suor, poeira e concentração.
Kisai se esgueirou até a sombra de uma pedra grande e se agachou, os olhos atentos.
No centro da clareira, cinco adolescentes treinavam.
A leoa que as orientava não era Wonaji.
Era mais velha, de porte largo e postura calma, com a pelagem num tom de areia dourada, quase pálido, marcada por cicatrizes finas nas pernas e no ombro esquerdo. Tinha uma franja curta e espessa que emoldurava seu rosto com fios mais escuros, e seus olhos — um verde profundo, atento — não perdiam nada do que acontecia ao redor.
Kisai já a tinha visto no reino algumas vezes antes e, se estivesse correta, Nerasha era o nome dela.
Kweli saltava sobre uma pedra elevada, aterrissando de forma precisa. Ela se parecia com Habi: pelo dourado, com o tufo de sua cauda era alaranjado. Seus olhos verdes eram o único diferencial.
— Mais alto, Kweli — disse Nerasha. — Sua presa não vai te esperar metade do tempo que você espera o chão.
Kweli respirou fundo e tentou novamente, dessa vez com mais impulso.
Mais adiante, Vuli estava escondida na relva alta, o corpo baixo demais, hesitante. Sua pelagem era marrom escura, quase preta, com um dos caninos inferiores para fora da boca e rachado ao meio. Quando deu um passo, Kisai notou que ela mancava.
— Vuli — chamou Nerasha —, sua desvantagem é o que vai fazer a presa te subestimar. Guarde energia. Espere o erro dela.
Vuli assentiu, ajustando a postura.
Nzuri e Majira treinavam juntas, avançando em sincronia sobre uma pedra que simulava um gnu ferido.
— Vocês duas trabalham bem em conjunto — disse Nerasha —, mas cuidado. Confiança demais vira ruído. Na caçada real, um segundo de hesitação mata.
As duas confirmaram em silêncio.
Mais afastada, quase imóvel, Kito observava um pequeno grupo de zebras à distância, caminhando em círculos largos, estudando cada movimento.
Nerasha a analisou por um momento e então assentiu, satisfeita.
— Kito... está fazendo um ótimo trabalho. Continue assim.
Kisai observava tudo como quem grava mapas dentro da cabeça.
O posicionamento.
O ritmo.
A forma como cada leoa usava o próprio corpo.
Ela mal percebeu quando a relva atrás de si se moveu.
Apenas o cheiro diferente fez sua orelha girar.
Um tufo de pelos amarronzado se aproximava em passos cautelosos.
Kisai bufou de propósito.
A coisa parou.
Sorrindo para si mesma, a filhote deslizou para a relva alta e começou a contornar o “predador”.
— U-ué... pra onde ela foi? — murmurou Hasa, erguendo a cabeça e olhando em volta, claramente confuso.
Kisai se aproximou em silêncio absoluto, depois disparou e saltou, derrubando Hasa na grama.
— SOCORRO! — ele gritou. — ELA VAI ME DEVORAR!
O grito fez Nerasha e as cinco adolescentes virarem ao mesmo tempo.
Kisai rolou para o lado, impassível.
— Eu não como porcaria.
Hasa fez uma careta ofendida.
Nerasha aproximou-se, observando os dois.
— Kisai, não é? — Disse ela, a voz baixa, avaliadora. — Você deveria estar na caverna.
— Estava entediada — declarou a filhote.
Hasa coçou a nuca, envergonhado.
— E-eu a vi sair...
— Claro que viu — resmungou Kisai, balançando a cabeça.
Nerasha cruzou o olhar com Kweli, que segurava o riso.
— Fim do treino — a mais velha declarou. — As caçadoras saem em breve.
Nerasha voltou-se para Kisai.
— Você observa como uma leoa adulta.
Kisai deu de ombros. — Gosto de aprender rotas de fuga.
Um sorriso breve surgiu no rosto marcado de Nerasha.
— Continue assim — disse, se virando para sair.
As adolescentes começaram a se dispersar, mas Kisai permaneceu no lugar, observando-as arrumar as próprias coisas: alongando as patas, sacudindo a poeira do pelo, trocando comentários baixos e cansados.
Kweli foi a última a se aproximar dela, ainda respirando fundo do esforço.
— Você não corre mal pra alguém do tamanho de um filhote — comentou, com um sorriso leve.
— Não corri — Kisai respondeu. — Observei.
Kweli riu.
— Isso também é uma forma de treino.
Hasa, ainda se recompondo da “emboscada”, sentou-se ao lado de Kisai.
— Por que vocês treinam tanto assim? — perguntou ele. — Parece mais sério que as aulas normais.
Nzuri, que passava por perto, ouviu a pergunta e parou.
— Porque não é treino comum — explicou. — É preparação para a nossa primeira caçada.
Majira aproximou-se também, com a cauda balançando devagar.
— Daqui a três dias, partimos — completou. — Sem os filhotes. Sem as aprendizes. Só nós e algumas caçadoras experientes para observar.
Vuli se juntou a elas, o olhar distante.
— É o rito de passagem dos Reinos — disse. — A forma como provamos que estamos prontas para a vida adulta.
— Temos que trazer dois búfalos — explicou Kweli. — É tradição. Um é oferecido à Grande Mkuu, como agradecimento e pedido de proteção... e o outro é para o reino.
Os olhos de Kisai se iluminaram.
— A oferenda é para Mkuu?
Kweli confirmou.
— Sempre. Porque tudo o que somos vem dela. Se falharmos, temos que esperar três luas e tentar de novo.
Kito, que observava à distância, acrescentou em voz baixa:
— Antigamente, quem falhava era marcada e expulsa por um ano.
Kisai engoliu em seco.
— E se alguém se machuca? — Perguntou num tom incerto.
— A caçada é interrompida — respondeu Majira. — Se alguém morre... o reino entra em luto. Um dos gnus é deixado para Mkuu, e o outro vai para a família da leoa.
O silêncio caiu por alguns segundos.
Kisai sentiu algo diferente se firmar dentro do peito — não medo, mas respeito.
— Suas tradições são... intensas — murmurou ela.
Kweli sorriu.
— São o que mantém tudo unido.
Pouco depois, as adolescentes se despediram e seguiram seus caminhos, deixando Kisai e Hasa sozinhos na clareira.
Kisai olhou para o céu por um instante, pensativa, e então virou-se.
— Vamos voltar pra caverna.
[...]
A caverna estava mais silenciosa quando Kisai entrou acompanhada de Hasa. Muitos filhotes brincavam ao fundo, mas seu foco encontrou Kinga quase de imediato, sentada perto de Elimu, examinando-lhe a pata com cuidado.
Kisai aproximou-se devagar.
— Com licença, tia Kinga.
Kinga ergueu o olhar, surpresa — e então sorriu.
— Claro, pequena. O que foi?
Kisai hesitou por meio segundo.
— Você poderia me explicar sobre a Grande Mkuu? E sobre os costumes do reino?
Kinga piscou, genuinamente surpresa. Dificilmente os filhotes queriam saber sobre as lendas antigas.
Elimu conteve uma risada.
— Você a quebrou.
— Como assim “quebrei”? — Kisai perguntou, confusa.
— Ela raramente fica sem resposta — Elimu explicou, tossindo logo depois.
Kinga soltou uma risada baixa.
— Eu fico feliz que queira aprender, Kisai. É uma história longa... mas importante. Vamos para a caverna das curandeiras. Lá é mais tranquilo — disse a mais velha com um pequeno sorriso curioso. — Quem te contou sobre tudo isso?
Kisai sentiu o coração acelerar de expectativa.
— Kweli comentou algo hoje mais cedo — respondeu. — Posso... chamar as outras?
— Claro, querida — Kinga assentiu.
E Kisai correu para buscar as outras seis.
[...]
A caverna das curandeiras estava fresca e silenciosa, perfumada por ervas secas e resinas queimadas lentamente em pequenos círculos de pedra. Pinturas antigas cobriam as paredes, leões, estrelas, luas e símbolos que as filhotes ainda não sabiam nomear.
Kinga guiou o grupo até uma área mais afastada e sentou-se. As sete filhotes formaram um semicírculo diante dela, como se estivessem prestes a ouvir um segredo que o mundo vinha guardando há gerações.
Elimu deitou ao lado da mãe, já prevendo que a história seria longa.
— Tudo o que vocês veem em Anida — começou Kinga —, nasceu de um reino muito mais antigo, que já não existe da forma como foi criado. Antes dos Reinos, antes das fronteiras, antes até mesmo das primeiras chuvas... havia apenas um casal de reis.
Ela ergueu a pata e apontou para uma pintura na parede: um leão de pelagem marrom-alaranjada e uma leoa de tom vinho, deitados sob um céu escuro e repleto de estrelas.
— Eles aguardavam a chegada do primeiro filhote. Quando a filhote nasceu, a rainha quase morreu. Os Espíritos dos Antigos Reis a salvaram... mas a pequena não resistiu.
As filhotes se aproximaram mais, os olhos fixos na imagem seguinte: o pequeno corpo da filhote cercado por leões em luto.
— Os Antigos Reis, com pena, concederam uma segunda existência àquela filhote. Mas não na Terra. Ela ascenderia aos Céus... e ali se tornaria algo maior.
Kinga deslizou a pata até outra pintura.
Uma leoa de pelagem negra, juba branca e marcas vermelhas no rosto rugia contra uma tempestade.
— Essa é a Grande Mkuu. Divindade da Vida, da Proteção, do Clima, da Criação e da Sabedoria. Quando chegou aos Céus, já tinha o corpo de uma adulta e a juba de um macho como símbolo de força e guarda. Por isso é a mais poderosa entre as divindades.
— Foi ela quem criou tudo? — murmurou Mwezi.
— Não tudo — respondeu Kinga. — Mas quase.
Ela apontou para uma nova pintura: um leão escuro, duas leoas e um guepardo, todos cercados de símbolos diferentes.
— Primeiro, surgiu Bezalel, Divindade da Morte e dos Espíritos. Ele foi um leão mortal que se apaixonou por Mkuu quando ela visitou a Terra. O reino dele o matou por esse amor... e ela o trouxe para os Céus, transformando-o em divindade.
Kisai sentiu um aperto estranho no peito.
— Depois vieram Khalida, Divindade do Tempo e do Destino. Mwana, Divindade dos Sonhos e da Coragem. E Nidani, sua irmã, Divindade dos Pesadelos e do Medo.
— E por que criá-los? — perguntou Wazi.
— Porque nenhuma força, nem mesmo uma deusa, deve carregar o mundo sozinha.
O silêncio da caverna se tornou pesado, mas não desconfortável — era reverente.
— Cada reino, cada tradição, cada rito — Kinga continuou —, é um reflexo dessa criação. Quando Kweli te falou da oferenda a Mkuu, Kisai, não era apenas costume. É lembrança. É gratidão. É promessa.
Akili engoliu em seco.
— E se alguém quebrar essas promessas?
Kinga encarou as filhotes por um momento mais longo do que o necessário.
— Então o mundo cobra seu preço.
Por alguns instantes, nenhuma das filhotes falou.
O silêncio da caverna não era vazio: ele pulsava com a presença das pinturas, com o cheiro das ervas, com o peso de tudo o que havia sido dito.
Foi Wazi quem quebrou o silêncio.
— E... as outras divindades ainda olham por nós?
Kinga inclinou a cabeça, escolhendo as palavras.
— Sempre. Mas de formas diferentes. Bezalel guia os espíritos após a morte. Khalida tece os caminhos do que pode e do que não pode acontecer. Mwana protege os sonhos, a coragem e as promessas feitas no coração. Nidani... — a curandeira suspirou — Nidani sussurra os medos, os avisos, aquilo que tentamos ignorar.
— E Mkuu? — perguntou Kisai, a voz baixa, mas firme.
— Mkuu observa tudo. Quando o céu muda, quando a chuva cai no momento exato, quando uma caçada dá certo ou uma jornada encontra abrigo… é ela lembrando aos Reinos que ainda estão sob sua guarda.
Elimu se mexeu ao lado da mãe.
— E os reis? — Murmurou. — Eles falam com elas?
— Não diretamente — respondeu Kinga. — Os reis falam com os Reinos. As divindades... falam com o mundo.
Kisai abaixou os olhos para as próprias patas.
Durante toda a sua vida, o mundo fora apenas uma jaula, depois uma estrada, depois o medo constante de desaparecer. Agora descobria que fazia parte de algo muito maior — algo que existia antes dela e continuaria depois.
— Então o rito de passagem das caçadoras... — começou Jioni.
— É uma forma de se apresentar ao mundo — completou Kinga. — E de dizer às divindades: estamos prontas para carregar nosso papel.
A caverna parecia respirar com elas.
Do lado de fora, o som distante do reino seguia vivo: o vento entre as pedras, os chamados das aves, o riso distante de filhotes.
Mas aqui dentro, naquele instante, sete filhotes começavam a entender que Anida não era apenas um lugar seguro — era um ponto de equilíbrio em algo muito maior e muito mais frágil do que qualquer uma delas imaginava.
Kisai ergueu a cabeça.
— E se alguém… não estiver pronto para carregar esse papel?
Kinga sorriu, mas havia tristeza em seus olhos.
— Então a história dessa pessoa ainda não terminou de se escrever.
Um silêncio longo se seguiu.
Não era um fim. Era uma promessa.
[...]
O cheiro da carne chegou antes do som.
Veio em ondas quentes, atravessando a caverna das curandeiras e fazendo os estômagos das filhotes reclamarem quase ao mesmo tempo. Safi ergueu o focinho, as orelhas tremendo; Wami engoliu em seco; Akili soltou um “hhmm” baixo que fez Kisai sorrir de canto.
— As caçadoras voltaram — murmurou Elimu.
Kinga confirmou com a cabeça.
— Hora de comer. E de sair do mundo dos deuses e voltar ao dos vivos.
As filhotes se levantaram, ainda um pouco silenciosas demais para quem, minutos antes, estava aprendendo sobre divindades, morte e destino. Ao deixarem a caverna, a luz da tarde bateu em seus olhos e o reino de Anida se abriu novamente diante delas.
O centro da clareira estava em movimento.
Leoas se reuniam em torno das presas abatidas, dividindo carne, chamando filhotes, organizando a partilha. As caçadoras mais jovens andavam com o peito estufado, exibindo pequenos cortes e marcas de poeira como medalhas invisíveis. Entre elas, algumas das adolescentes que Kisai vira treinando mais cedo trocavam risadas cansadas.
As sete filhotes se aproximaram, mantendo certa distância — ainda não sabiam bem onde se encaixavam naquele ritmo de reino.
Então Wonaji surgiu do meio do grupo.
O corpo ainda marcado de poeira da caçada, os músculos tensos, o olhar atento. Ao vê-las, parou. Por um instante, seus olhos dourados suavizaram.
Ela arrastou um grande pedaço de carne para fora da pilha e o deixou diante das pequenas.
— Podem atacar, meninas.
Houve um segundo de surpresa... e depois, alegria.
As sete se aproximaram, mordendo, puxando, rindo com a boca cheia. A fome que carregavam desde a manhã se dissolveu ali, sob o céu aberto de Anida.
Foi Kisai quem notou a mudança no ar.
Askari se aproximava, seguido por Euclásio... e atrás deles vinham os quatro irmãos forasteiros — Jabari, Jafari, Jahari e Jawari. Os quatro andavam cansados, mas atentos, observando tudo como quem tenta memorizar um território inteiro de uma vez.
Eles pararam diante de Thadi e Habi.
— Majestade — disse Askari. — Temos notícias sobre o forasteiro visto na fronteira.
As filhotes mastigavam devagar agora, atentas demais para crianças que deviam apenas comer.
— Fale — respondeu Thadi.
— As gazelas afirmam que ele foi visto próximo à divisa com Rivalon. Acreditamos que venha de Wishar. Talvez esteja procurando abrigo... talvez não.
— Ele pode chegar ainda esta noite — completou Euclásio.
Habi pensou por um momento.
— Então é melhor estarmos preparados. Se houver risco, vocês três montam uma emboscada. Sem provocação desnecessária. Só contenção.
Os leões confirmaram com a cabeça.
Kisai engoliu em seco.
Um forasteiro.
Rivalon.
Wishar.
Os nomes soavam pesados demais para quem, dias antes, só queria brincar de pique-alto.
Quando os adultos se afastaram, Kisai empurrou sua parte da carne para longe.
— Já volto — murmurou, sem esperar resposta.
E, silenciosa como a floresta que ainda carregava dentro de si, a filhote de pelagem negra se afastou, seguindo a curiosidade que sempre a guiava.
Kisai caminhou sem pressa, mas com atenção.
O sol já começava a inclinar, alongando as sombras das acácias e pintando o chão de tons dourados e laranja. O reino parecia calmo demais para alguém que acabara de ouvir falar em emboscadas e forasteiros.
Ela atravessou a área próxima ao lago, onde alguns leões descansavam depois da caça, e seguiu em direção às árvores mais densas que marcavam o início da floresta. Quanto mais se afastava da clareira central, mais os sons do reino ficavam para trás, substituídos por grilos, pássaros e o farfalhar constante da vegetação.
Kisai gostava daquele limite — o ponto em que Anida deixava de ser território e começava a ser mundo.
Foi ali que ela ouviu o rosnado.
Baixo. Distante. Errado.
Ela congelou.
As orelhas se moveram devagar, tentando localizar a origem. Outro rosnado respondeu, mais próximo desta vez, seguido de risadas estridentes.
Hienas.
Kisai tinha ouvido falar delas e visto algumas perto do acampamento dos cultistas. Sarnentas e com fome.
A filhote se abaixou instintivamente e se esgueirou entre os arbustos, aproximando-se com cuidado. O cheiro ácido das hienas chegou antes da visão delas.
Quando finalmente viu a cena, o coração de Kisai apertou.
Duas hienas adultas cercavam três filhotes de leão — nenhum deles muito maior do que ela. Um deles, com o início de uma juba curta e desgrenhada, tremia visivelmente, mas mantinha o corpo à frente das duas fêmeas, tentando protegê-las.
— Deixem a gente em paz! — ele gritou, a voz falhando.
As hienas gargalharam.
— Olha só, tentando ser bravo — disse a maior, avançando e empurrando o filhote com uma patada que o jogou contra o chão. — Eu adoro quando o jantar implora.
— Dhaifu! — A filhote de pelagem marrom clara correu até ele, tentando ajudá-lo a se levantar.
— Por que não enfrenta alguém do seu tamanho?! — rosnou a outra filhote, de pelo mais escuro, mostrando as garras.
As hienas riam... até que o mundo pareceu estremecer.
Um corpo marrom despencou do alto de uma árvore, aterrissando entre os filhotes e as hienas como um trovão vivo.
O leão tinha uma juba curta e densa que emoldurava o rosto, olhos firmes e postura de quem não estava ali para discutir.
— Que tal me enfrentarem — rosnou —, e deixarem esses filhotes em paz?
O silêncio caiu.
— Uma... fêmea? — zombou a hiena menor. — Uma fêmea com juba?
— Que piada — completou a outra.
A leoa apenas suspirou... e rugiu.
O rugido ecoou pela floresta como uma ordem antiga.
As hienas recuaram, as risadas morrendo no ar.
— Saiam do reino — disse a leoa, avançando um passo. — Agora.
As hienas engoliram em seco e fugiram.
Só então Kisai percebeu que estava prendendo a respiração.
A leoa virou-se para os filhotes.
— Vocês estão bem?
Eles assentiram, ainda em choque.
— De onde vieram?
O macho — Dhaifu — respirou fundo.
— De Mauaji.
Os olhos da leoa se arregalaram levemente.
— Mauaji? Vocês atravessaram tudo isso sozinhos?
— Não tinha mais comida lá — disse a filhote caramelo, a voz baixa. — A terra… secou. Os rebanhos sumiram.
— Cruzamos as pontes — completou Dhaifu. — Achamos que talvez encontrássemos ratos... alguma coisa...
A leoa fechou os olhos por um instante.
— Esperem aqui.
Minutos depois, voltou com restos de uma gazela. Os três comeram como se o mundo estivesse acabando.
— Foi a melhor refeição que tive em semanas — disse Dhaifu, a boca suja de sangue seco.
— Obrigado… tia…
— Endra — respondeu a leoa. — Agora voltem para casa. O caminho é longo demais para andarem assim.
Eles a abraçaram nas patas e correram floresta adentro.
A leoa observou os três filhotes se afastarem até sumirem entre as árvores. O sorriso em seu rosto foi desaparecendo aos poucos, substituído por um suspiro longo e cansado.
— Lá se vai meu jantar... — murmurou a contragosto, passando uma das patas pela barriga, que respondeu com um ronco discreto. — Eu realmente preciso parar de me meter em problemas que não são meus.
Ela ergueu a cabeça e olhou ao redor, farejando o ar.
— Aracnídeo? Cadê você?
Kisai, ainda escondida entre os arbustos, franziu a testa.
Aracnídeo?
Antes que pudesse refletir sobre o nome estranho, sentiu algo em suas costas.
Algo com muitas patas.
A filhote congelou por meio segundo — o tempo exato para sentir o objeto se mover.
Então, ela gritou.
— TIRA ISSO DE MIM! TIRA ISSO DE MIM!!
Kisai disparou em círculos descontrolados até quase colidir com a leoa marrom. Endra arregalou os olhos, confusa, até notar a criatura pendurada no pelo da filhote.
— Ei, ei, calma! — Endra se aproximou com cuidado e segurou Kisai pelo ombro, puxando-a para perto de si. — Ele não vai te machucar.
Com a outra pata, Endra guiou a criatura para fora do dorso da filhote. A coisa desceu tranquilamente, como se não tivesse acabado de provocar um quase ataque cardíaco.
Kisai recuou dois passos, o coração quase pulando pela boca.
— ISSO TINHA OITO PATAS.
Endra piscou.
— ...Sim?
— E olhos. Muitos olhos.
A mais velha soltou uma risada curta. — Esse é Aracnídeo.
Kisai encarou a criatura, agora parada entre folhas e galhos, e depois voltou o olhar para Endra, genuinamente alarmada.
— O que é isso?
Endra piscou de novo.
— Você... nunca viu uma aranha?
Kisai hesitou, depois balançou a cabeça.
— Nunca. — A resposta veio sem vergonha, apenas com estranheza.
Endra ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando a filhote à sua frente com mais atenção.
— Estranho — murmurou. — Isso é bem incomum.
Kisai encolheu os ombros.
— Nunca vi uma... dessas coisas. Nem aquele tipo de macaco grandão ali — acrescentou, apontando vagamente para o alto das árvores, onde um mandril observava tudo com curiosidade.
Endra seguiu o olhar da filhote e sorriu de canto.
— É um mandril. Eles gostam de observar visitantes.
— Ele também tem muitos olhos? — perguntou Kisai, ainda desconfiada.
— Não, só cara de julgamento.
Kisai soltou um som entre um bufar e uma risada nervosa.
— Bom saber.
Endra observou a filhote por mais um instante. Havia algo... fora do lugar ali. Não medo do perigo — Kisai tinha enfrentado hienas só observando — mas um tipo de desconhecimento que não combinava com alguém da savana.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o rugido de Thadi ecoou entre as árvores.
Endra virou-se no mesmo instante.
— Finalmente te encontrei, forasteiro! — Rosnou o rei dourado, surgindo entre os arbustos. — Quem é você e o que faz aqui?!
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OLÁ TERRÁQUEOS, SAUDAÇÕES )0)
Sua alienígena favorita está de volta. Turu bom com vocês? Espero que sim -w-
Woo, terminei essa bagaça )0)
Gostaram dessa reescrita? *wink wink; nudge nudge*
Tentei não mudar muitas coisas, mas é inevitável quando se está reescrevendo tudo. Ah, bem...
Por hoje é só. Espero que tenham gostado. Um beijo da Nathy, fiquem com Kami e bye -3-