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domingo, 28 de junho de 2026

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 9 – A Era das Coroas Vazias]

Os filhotes, atônitos com a revelação repentina de Amadi, trocam olhares confusos e curiosos. 

Udadisi tinha uma queda por alguém?

As bochechas de Udadisi se enrubescem e o filhote desvia o olhar. 

— Não é... uma quedinha — retrucou entredentes. 

— Ah, por favor — Amadi revira os olhos. — Até os adultos comentam sobre sua afeição repentina pela...

— Madi, já chega! — Kiny se pronuncia finalmente, a pata do filhote menor batendo com força no chão. 

O choque é evidente na face dos outros. 

Kiny nunca batia de frente com Amadi, isso era território novo para ele. 

— Que coisa mais chata! — O menor continuou, se pondo na frente da irmã mais velha. — Está ficando igualzinha a mamãe, sinceramente!

As orelhas de Amadi se achatam e um breve olhar de arrependimento aparece nas feições dela, rapidamente substituído por uma expressão brava. 

— Para a caverna, Kiny — mandou, num rosnado gutural. 

— Não! — O protesto de Kiny ecoa, ganhando a atenção dos poucos leões que descansavam na entrada da caverna. 

— Eu mandei entrar! — Amadi grita, empurrando Kiny com o corpo dela. 

Kiny solta um miado de desconforto e Wazi se põe entre os dois. A filhote tremia ligeiramente, mas tinha uma expressão determinada no rosto. 

— Peça desculpas, Amadi — a filhote diz, encarando Amadi com braveza. 

As pupilas de Amadi se estreitam e ela rosna. — Ou o quê? Hein?!

— Aguentamos quando você é uma valentona conosco porque você nos vê como sem orgulho — Wami se intromete, se pondo à esquerda da irmã e na frente de Kiny de forma protetora —, mas está sendo uma valentona com seu próprio irmão. Isso acaba agora.

Amadi solta um rosnado baixo. A pelagem de seu pescoço se eriça e suas garras ficam a mostra.

Udadisi se move, ficando à direita de Wazi com uma expressão determinada. Os outros filhotes se põe na frente de Kiny também, formando uma barreira improvisada. 

— Amadi, eu não queria fazer isso de novo — Hakuwa se pronuncia, dando um passo a frente —, mas como príncipe de Anida e futuro rei, estou ordenando que você peça desculpas a seu irmão, Kisai, Akili, Mwezi, Jioni, Safi, Wami e Wazi por seu comportamento hostil nas últimas semanas. Agora!

As expressões nos rostos dos filhotes na frente de Amadi variam de raiva a determinação.

Quando Amadi não faz menção de se pronunciar, Hakuwa se aproxima mais, ficando cara a cara com a filhote teimosa. 

— Agora, Amadi! — Repete em tom bravo, não deixando espaço para relutância.

Amadi solta um rosnado curto. 

— Está bem, está bem! — Ela esbraveja, olhando por cima do ombro de Hakuwa com o cenho franzido. — Me desculpem. 

O pedido sai entre dentes e forçado.

— Amadi... — Hakuwa rosna em forma de aviso. Era o primeiro sinal de agressividade que o filhote mostrara, geralmente Hakuwa era bem tolerante. 

Amadi se encolhe levemente e solta um bufo frustrado.

— Me... desculpem — ela resmunga, desviando o olhar e relaxando a postura defensiva.

A postura de Hakuwa também relaxa e ele abre um pequeno sorriso satisfeito. 

Um silêncio breve se instala.

Então, os lábios de Amadi se contraem em um sorriso perverso.

— E me desculpem por vocês serem meras aberrações, incapazes de entenderem que nunca serão bem-vindas aqui! — Os olhos da filhote brilham com raiva e ela se afasta com passos firmes, esbarrando propositalmente nos filhotes que se puseram em seu caminho, deixando os outros pequenos completamente atônitos.


[...]


O anoitecer em Rivalon sempre trazia consigo várias estrelas e constelações.

Os leões estavam reunidos ao redor de pequenas piras, apreciando o calor das chamas enquanto contavam histórias e conversavam.

Num canto mais afastado, Scar observava os casais e amigos com o focinho torcido.

— Tua Guarda não os acompanhou nesta jornada? — Waganga se aproxima do mais novo, sentando-se ao lado dele enquanto assistia os outros.

— Estávamos lidando com um invasor quando recebemos o pássaro mensageiro — ele explica, erguendo os olhos para a anciã. — Os deixei encarregados de cuidar da segurança do reino enquanto Mufasa e eu vínhamos para cá.

Um silêncio, salvo pelo burburinho dos outros leões, se instala entre os dois.

— Percorreu uma longa distância até aqui, velhota — ele comenta, suspirando. — Sua neta deve ser bem importante, hein?

Os olhos bicolores de Waganga vagam para Kinga, que conversava com algumas fêmeas. Scar segue o olhar dela e ele abre um sorriso de canto.

— Os machos a acham bonita — Scar nota, gesticulando para um grupo de leões que conversavam entre si enquanto olhavam na direção de Kinga e das outras leoas. — Mas creio que... ela não se sinta da mesma forma por eles, não é?

Waganga franze o cenho.

É claro que ela sabia o que o príncipe das Terras do Reino insinuava.

Kinga não gostava de machos.

Este fato era conhecimento de poucos, mas bastava somente uma observação mais precisa para se notar.

Waganga solta um rosnado baixo que parece divertir Scar.

— Curioso... — ele murmurou. — Talvez ela apenas esteja procurando alguém que ainda não encontrou.

Com um último sorriso de soslaio para Waganga, Scar desaparece na relva alta, seguindo em direção às planícies de Rivalon.

A anciã o observa partir com os olhos estreitos, balançando a cabeça antes de se aproximar de Nadia, que cuidava dos filhotes.

— Conte de novo, vovó! — Uma filhote de olhos azuis e pelo bege claro se pronuncia, se esfregando na lateral do corpo de Nadia. — Conte como a Guarda foi formada!

— Ora, essa, Ayana — Nadia solta uma risada calorosa, se deitando próxima dos filhotes. — Vocês estão tão enérgicos esta noite. Bem, vejamos...

— Tudo começou por causa dos Walioangamiza. — Waganga se intromete, deitando em um amontoado rochoso mais alto. — Os orgulhos viviam em constante conflito com eles. Um bando de egocêntricos, se queres minha opinião.

Os filhotes, surpresos com a intromissão, trocam olhares.

Eles já tinham visto Waganga em cerimônias antes, mas ouviram que a anciã não participava mais de reuniões do Conselho devido à idade avançada.

— Muitas vidas se perderam naquela época — Waganga suspira, gesticulando para as chamas de uma pira próxima.

Os filhotes assistem, de olhos arregalados, enquanto as chamas tomam forma. Era como se estivessem sendo levados ao passado.

Waganga, por sua vez, joga um pouco de grama seca no fogo, fazendo as chamas aumentarem em proporção.

A anciã observa o fogo crescer por um instante antes de continuar, a voz mais baixa, mais pesada.

— Naqueles dias, a savana ainda não conhecia reis. Apenas líderes temporários, orgulhos que surgiam e desapareciam, territórios conquistados e perdidos ao sabor da força — pausou, torcendo o focinho com repulsa. — E então... eles vieram.

— Eles? — perguntou Kamii, a filhote menor e uma das netas de Nadia, com seus olhos azuis refletindo as chamas.

Nadia assentiu lentamente.

— Makulu, Saren, Kadan, Orin, Naru e Kintar. Os Walioangamiza.

O nome pareceu alterar o ar ao redor do círculo.

— Não pediam passagem  — disse Waganga. — Tomavam-na. Onde chegavam, orgulhos se desfaziam. Alguns fugiam. Outros corajosos lutavam e morriam.

— Eles eram maiores que os outros leões? — perguntou Woola, a filhote de olhos leitosos e neta mais nova de Nadia.

— Não, meu amor — respondeu Nadia, puxando a pequena para mais perto de forma acolhedora. — Mas eram mais determinados. Mais violentos.

Waganga inclinou a cabeça.

— No início, pareciam invencíveis. Mas até as montanhas cedem à passagem do tempo.

O fogo estalou, lançando fagulhas para o céu.

— O primeiro a tombar foi Kintar — continuou Waganga. — Ele e Kadan haviam se separado do grupo após uma disputa com Makulu. Um erro tão antigo quanto os próprios machos — a mais velha suspira enquanto revira os olhos, como se tal ato dos machos fosse idiota até para ela. — O bando dos Wapiganaji os encontrou. Kadan lutou ao lado de Kintar. Mataram um dos inimigos... mas eram muitos. Os Wapiganaji perseguiram Kadan. Depois voltaram para terminar o serviço com Kintar.

Os filhotes se entreolharam em silêncio.

— E Kadan? — perguntou o filhote de pelagem clara e um pequeno topete de juba preta. O pequeno Akin.

— Voltou mais tarde — disse Nadia. — Ferido no corpo e no espírito. Mas o que ele trouxe de volta foi pior que as feridas.

Waganga respirou fundo.

— Kadan desejava ser líder, queria as fêmeas e seguia a ordem antiga: matou filhotes, até os próprios sobrinhos. Makulu não tolerou. Quando descobriu que Kadan havia devorado seus filhotes e os de seus irmãos, o expulsou.

— Ele ficou sozinho? — indagou a filhote de pelagem dourada e olhos azuis acinzentados.

— Sozinho e isolado, Binah — respondeu Nadia.

— O segundo a desaparecer foi Orin — continuou Waganga. — Alguns dizem que os Wapiganaji o mataram, outros juram que ele abandonou a savana e nunca mais foi visto.

— E Naru? — perguntou o filhote marrom com plantas amarradas a sua pata dianteira esquerda.

— Morreu lutando contra os Wapiganaji — disse Nadia. — Sem recuar. Foi um ataque surpresa. 

O vento soprou mais frio.

— Kadan vagou como nômade por muitas luas — disse Waganga. — Até que encontrou leões mais cruéis do que ele próprio. Não houve piedade.

— Restaram dois — murmurou o filhote branco de olhos azuis.

Nadia assentiu. — Saren envelheceu primeiro. A fome o levou antes da morte. Makulu permaneceu ao seu lado até o último suspiro. Não eram irmãos de sangue, mas tinham um carinho enorme um pelo outro, apesar de tudo.

Os filhotes ficaram imóveis.

— E Makulu? — Woola ergue a cabeça para a avó.

— Foi o último — respondeu Nadia. — Quando partiu, a era dos Walioangamiza terminou, mas o mundo já estava quebrado.

Waganga olhou para as estrelas.

— A savana estava em ruínas. Orgulhos sem líderes, territórios sem fronteiras. Medo sem nome. Foi aí que os primeiros reinos surgiram.

— Para impedir que isso acontecesse de novo? — a cabeça de Ayana se inclina.

— Para sobreviver — Nadia corrige gentilmente. — E para criar algo que pudesse enfrentar monstros antes que eles nascessem.

— A Guarda — murmurou o de pelagem preta.

Nadia o encarou com um sorriso pequeno.

— A Guarda nasceu porque os reinos aprenderam, tarde demais, que nenhum trono resiste sozinho à escuridão.

O fogo crepitou.

— E ela protege todos os reinos? — Akin indaga.

Nadia observou o horizonte escuro de Rivalon.

— Cada Guarda protege seu reino do que ele mesmo é capaz de se tornar.

O silêncio caiu pesado sobre o círculo, como se até as estrelas estivessem escutando.

Waganga permaneceu em silêncio por um momento, como se pesasse o que ainda podia ser dito naquela noite.

As chamas já não subiam tanto; agora dançavam baixas, como se também escutassem.

— Depois da queda dos Walioangamiza — ela continuou —, o mundo necessitava de pilares. E foi então que surgiram os Três Grandes.

— Mohatu — murmurou uma filhote de pelagem cinzenta e olhos ocre.

— Limber — completou o de olhos azuis e pelagem branca.

— E Askari — concluiu Nadia.

Ela ergueu o queixo, os olhos refletindo o fogo.

— Eram irmãos, filhos de uma linhagem antiga. Quando os reinos começaram a tomar forma, cada um carregou um destino diferente: Mohatu ergueu as Terras do Reino, Askari jurou proteger o mundo e Limber foi oferecida como paz.

— Oferecida? — perguntou a menor.

— Foi prometida a Kiruki — disse Waganga, sem suavizar a voz. — O antigo imperador daquilo que hoje conhecemos como Terras Sem Lei. As guerras entre territórios estavam devorando a savana. Unir Limber a Kiruki era a tentativa dos líderes de conter o sangue. 

— Mas... — outra filhote começou, hesitante — Limber não queria, não é?

Nadia fechou os olhos por um instante.

— Limber amava outro.

— Makori — disse Waganga.

O nome caiu como uma pedra na água.

— Quando Kiruki descobriu a verdade — continuou a anciã —, não a matou. Quis algo pior. Atacou Limber diante de testemunhas e rasgou sua garganta. Ela sobreviveu, entretanto nunca mais falou.

Os filhotes se encolheram.

— Limber, antes de ser oferecida, era a líder da Guarda das Terras do Reino. E foi nessa época — disse Habi, se aproximando com um sorriso gentil e alarmando os filhotes com sua presença furtiva —, que Limber e Makori foram embora e ela abdicou de seu posto como líder da guarda. Juntos, fundaram Anida.

— E Kiruki deixou? — perguntou o menor.

Waganga soltou um som seco. — Já não lhe restava escolha. A savana inteira já se erguia contra ele. Para salvar sua imagem, concordou em unir os orgulhos por meio dos filhos.

— Mas... — o filhote de olhos azuis olhou para Nadia — Limber teve um filhote, não teve?

Nadia assentiu.

— A primeira cria de Limber nasceu sem vida.

O fogo estalou.

— Foi naquela noite — disse Habi —, que surgiu a Grande Mkuu. O espírito que Anida passou a venerar. A mãe, a guardiã. A que acolhe os que não respiraram o primeiro vento.

O silêncio se aprofundou.

— Depois — continuou Nadia —, Limber gerou Antora. E Kiruki teve um filho chamado Kamau.

— E então eles foram unidos... — murmurou Habi, olhando para as estrelas com um breve olhar distante.

— Unidos pelo sangue, pela dor e pelo destino — respondeu Waganga.

Nadia ergueu o olhar para as estrelas acima de Rivalon. — Enquanto isso, Mohatu erguia seu reino, Askari assumia a Guarda ao lado do irmão, e Limber carregava um mundo inteiro nos olhos.

Os filhotes ficaram quietos, como se a noite tivesse se tornado maior ao redor deles.

— Vovó — chamou Woola —, a Guarda nasceu para impedir monstros... mas os Três Grandes também nasceram de monstros, não nasceram?

Nadia não desviou o olhar do céu.

— Sim.

E naquela noite, nem o fogo ousou contradizê-la.


[...]


A fogueira crepitava baixo, como se também estivesse cansada de ouvir histórias antigas.

Os filhotes haviam se dispersado pouco a pouco, levados pelo sono ou pela vigilância dos mais velhos. O círculo agora era ocupado apenas por adultos — leões que não precisavam fingir atenção, mas que tampouco relaxavam por completo.

Habi permanecia sentada próxima a Nadia, o corpo alinhado, a postura serena demais para alguém que realmente estivesse em descanso. Os olhos vermelhos percorriam o espaço com discrição, registrando mais do que parecia.

Kamilla estava alguns passos atrás, deitada em uma pedra, observando sem se misturar. Uma pata repousava sobre a outra, mas a cauda dela se movia lentamente, denunciando inquietação.

Scar surgiu do escuro como quem nunca precisou ser convidado.

— Histórias antigas sempre deixam um gosto curioso — ele comentou, sentando-se do outro lado da fogueira. — Principalmente quando lembram a todos do que acontece quando ninguém vigia ninguém.

Nadia não respondeu de imediato. Apenas virou a cabeça na direção dele, mantendo o olhar firme.

— Ou quando se confunde vigilância com controle — rebateu, calma.

Scar sorriu de canto.

— Uma linha muito tênue — concordou ele, seus olhos esmeralda captando a luz da lua sutilmente. — E quase sempre atravessada por quem jura estar protegendo algo maior.

Habi inclinou levemente a cabeça.

— Fala como se isso fosse exclusivo de um reino.

— Não é — Scar respondeu prontamente. — Mas alguns insistem em fingir que são exceção.

O silêncio se estendeu por um instante, denso o suficiente para que até o estalar da lenha parecesse alto demais.

Mais afastado, Mufasa conversava em voz baixa com Sarabi. Os dois observavam o ambiente com atenção calculada — não como governantes em visita, mas como predadores em território neutro.

— Rivalon nunca esteve tão cheia — comentou Sarabi, quase casualmente. — Tantos reis, tantos interesses.

— Reinos instáveis atraem presença — Mufasa respondeu. — Ninguém quer ser pego de surpresa quando algo cai.

Askari estava sentado perto da borda do círculo, silencioso. O corpo grande parecia relaxado, mas os olhos turquesa vagavam sem se fixar em nada por muito tempo. Era observado — não por curiosidade, mas por cautela.

— Ele parece... diferente — murmurou uma das leoas de Butsara, baixa demais para ser ouvida por todos, enquanto olhava para Askari. 

— Ele está diferente, Núria — corrigiu Waganga, a voz surgindo sem aviso.

A anciã permanecia sentada sobre uma rocha mais elevada, quase imóvel. A luz da fogueira refletia nos caninos de seu colar, projetando sombras irregulares sobre o peito.

— A memória molda mais do que o corpo — continuou a mais velha. — Quando ela falha, o equilíbrio também se altera.

Scar ergueu uma sobrancelha.

— Interessante ouvir isso de alguém que defende tradições tão rígidas.

Waganga voltou lentamente o olhar para ele.

— Tradição não é rigidez — explicou calmamente. — É lembrança. E recordar costuma doer menos do que repetir os mesmos erros.

Kamilla apertou a mandíbula.

Ela tinha percebido os olhares. Para Askari, para Thadi, para Habi... para si.

Rivalon não deixava de notar nada.

— Vocês falam como se o mundo estivesse à beira de algo — comentou Kamilla, finalmente, a voz firme —, mas o Conselho se reuniu e decisões foram tomadas. O equilíbrio foi mantido.

Scar a encarou. — Por enquanto.

O tom não era acusatório. Era factual, um tom bem comum para o príncipe das Terras do Reino.

— Equilíbrios mantidos à força costumam ceder primeiro — acrescentou ele. — Especialmente quando alguém sai da mesa antes da hora.

Habi estreitou levemente os olhos.

— Wishar escolheu seu caminho.

— Ou foi empurrado — Scar corrigiu, dando de ombros. — A diferença costuma ser definida pelos vencedores.

Waganga soltou um som baixo, quase um suspiro.

— Palavras são sementes — murmurou, coçando a bochecha com a pata dianteira. — Algumas germinam antes do tempo.

O vento soprou mais forte, fazendo a chama vacilar e, por um instante, ninguém falou.

Kamilla percebeu então que não era apenas cansaço no ar.

Era desconfiança.

Cada leão ali observava os outros como se calculasse quanto tempo levaria até que alguém errasse o passo.

Habi se levantou lentamente.

— Já está tarde — disse, o tom gentil demais para ser apenas cortesia. — Amanhã será um dia longo para todos.

Alguns assentiram. Outros apenas observaram.

Scar se ergueu também, alongando-se com preguiça calculada.

— Claro — disse, soltando um bocejo teatral. — Reinos cansados tomam decisões interessantes pela manhã.

Habi não respondeu. Mas, enquanto se afastava, sentiu o peso de Rivalon se fechar ao redor de todos eles — como uma caverna que escuta, guarda e cobra.

Thadi a observou enquanto ela se afastava, os olhos dele se desviando para Mtawala e Hadassah, gesticulando, em um pedido silencioso e discreto, que eles a seguissem de volta para a caverna.

Mtawala assentiu, seguindo atrás de Habi com passos silenciosos enquanto Hadassah o acompanhava.

— Você sempre fica assim quando acha que algo vai dar errado — comentou Mtawala, surgindo ao lado de Habi como quem não queria interromper, mas nunca soube ficar calado por muito tempo, quando já estavam mais afastados do grupo.

Ele trazia aquele meio sorriso conhecido, o mesmo que usava desde filhote quando tentava disfarçar preocupação com leveza.

Hadassah vinha logo atrás, o corpo elegante, a postura tranquila demais para alguém atenta a tudo. Seus olhos passaram rapidamente pelo círculo que se desfazia, por Kamilla ao longe, por Waganga ainda imóvel sobre a rocha, por Thadi os observando partir.

— Não é “achar” — Habi respondeu, sem olhar para o irmão. — É reconhecer padrões.

— Claro — Mtawala bufou baixo, revirando os olhos, mas mantendo o sorriso. — Porque quando eu reconheço padrões, sou paranoico. Quando você reconhece, é sabedoria ancestral.

Um canto da boca de Habi se ergueu.

— Você sempre foi dramático.

— Herdado de família — ele rebateu, aproximando-se um pouco mais.

Habi finalmente virou o rosto para ele, o olhar brilhando com aquele tipo específico de afeto que só irmãos compartilham.

— Fui eu quem te criou, inseto — disse, num tom claramente provocativo. — Você nem chegou a conhecer a mamãe.

Mtawala piscou uma vez, ligeiramente surpreso, e depois riu, um riso curto e genuíno.

— Ah, ótimo. Agora além de rei, sou obra sua?

— Exatamente — Habi respondeu, seca, mas sorrindo. — E convenhamos: ainda assim governo mil vezes melhor do que muito macho que se acha enviado pelos céus.

Hadassah reprimiu uma risada ao fundo, desviando o olhar como quem já ouvira aquela história antes — e concordava.

— Vou fingir que isso não foi um ataque direto à masculinidade real — Mtawala disse, teatral. — Por amor próprio.

— Faça isso — Habi respondeu. — Eu fiz por anos.

Mtawala soltou um riso baixo, balançando a cabeça.

— Você realmente não perde uma chance de lembrar que governa melhor do que qualquer macho que já respirou.

— Porque é verdade — Habi retrucou, sem hesitar.

O silêncio que se seguiu entre os três não foi desconfortável. Pelo contrário, era familiar, cheio de histórias não ditas, de lutos compartilhados cedo demais e de responsabilidades assumidas antes da hora.

Foi então que Hadassah inclinou a cabeça, observando Habi com atenção silenciosa antes de falar.

— Você carrega Anida como se fosse uma extensão do próprio corpo — disse ela, a voz suave, mas firme. — Não como um trono, mas como um lar.

Habi desviou o olhar por um instante, surpresa pela precisão.

— Alguém precisava — respondeu. — E eu não confiava que o mundo fosse gentil o bastante com eles.

Mtawala acompanhou o olhar da esposa até a irmã.

— Ela sempre foi assim — comentou, sem sarcasmo desta vez. — Desde que éramos pequenos. Se algo ameaçava ceder, Habi se colocava na frente.

Hadassah sorriu de leve.

— Talvez seja por isso que os outros reinos escutam você — disse, voltando-se para Habi. — Mesmo quando discordam.

Habi respirou fundo, o peso do conselho ainda presente em seus ombros.

— Escutar não significa entender — murmurou. — E entender não significa agir a tempo.

Hadassah se aproximou um pouco mais.

— Ainda assim, hoje você foi clara — afirmou ela, com um sorriso reconfortante. — Wishar não caiu por fraqueza alheia. Caiu por escolha própria.

Mtawala ergueu o olhar para o céu estrelado.

— E escolhas sempre cobram seu preço — ele completou. — Só espero que o Conselho esteja preparado para pagar o dele.

Habi soltou um suspiro curto.

Por um momento, os três ficaram em silêncio, observando as luzes do reino ao longe, cada um consciente de que aquela reunião não tinha encerrado conflitos, apenas os havia deslocado no tempo.

— E vocês? — Habi perguntou. — Como estão lidando com... tudo?

Mtawala trocou um olhar rápido com Hadassah.

— Do jeito que dá — ele respondeu, dando de ombros. — Fingindo normalidade até não dar mais.

Hadassah pousou a pata dianteira de leve sobre a dele, um gesto pequeno, mas firme.

— Não estamos sozinhos — comentou ela com um brilho de certeza no olhar esverdeado. — Isso já é mais do que muitos reinos podem dizer agora.

Habi soltou um suspiro lento.

— É isso que me assusta.

Mtawala arqueou a sobrancelha.

— O quê? Ter gente ao redor?

— Ter tanto a perder — Habi corrigiu suavemente.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cúmplice.

— Seja lá o que venha — Mtawala disse por fim, tocando de leve o ombro da irmã com a pata dianteira —, você não vai enfrentar sozinha. Nem como rainha, nem como irmã.

Hadassah assentiu. — Nem como leoa.

Habi fechou os olhos por um instante.

— Obrigada — murmurou com sinceridade.


[...]


Depois da saída de Habi, Mtawala e Hadassah, enquanto alguns ficavam e conversavam mais, outros se recolhiam para a caverna. 

Scar tinha desaparecido na relva alta, resmungando algo sobre fazer uma patrulha noturna. Thadi tinha decidido seguir o exemplo da esposa e cunhados e se afastou.

Waganga ainda resmungava sobre profecias, Kamilla ainda revirava os olhos, Kinga juntava algumas ervas que eram visíveis apenas de noite. 

Mais afastados, fazendo uma caminhada pela planície, estavam Ariana e Wiba. 

Ariana caminhava alguns passos à frente, não por pressa. Mas porque ficar lado a lado exigia mais do que ela tinha naquela noite.

Wiba a seguia em silêncio, o peso do corpo dele evidente a cada passo. Rivalon estava quieta, mas não adormecida; o eco distante de vozes e fogueiras ainda subia da planície, misturando-se ao vento frio que descia das pedras.

— Eles falam como se tudo ainda pudesse ser consertado — Ariana disse, sem olhar para trás.

Wiba demorou a responder.

— Talvez precise parecer assim — murmurou ele, quase parando. — Para que ninguém desmorone agora.

Ela parou, virando apenas a cabeça para encará-lo.

— Você acredita nisso?

Wiba hesitou. Um tempo curto demais para ser conforto e longo demais para ser negação.

— Não sei — admitiu em voz baixa. — Mas acredito que, se pararmos de fingir que estamos de pé — ele engoliu em seco —, ninguém mais ficará.

Ariana fechou os olhos por um instante.

— Eu sinto falta deles — disse, simples. Crua. — De abraça-los durante a noite, de ouvi-los miar... Quero meus bebês de volta, meu abrigo.

Wiba se aproximou então, parando ao lado dela, sem tocá-la.

— Eu também, minha flor do deserto — Wiba lambeu a bochecha da esposa numa tentativa fraca de consolo. Ainda tinha esperança de encontrar os filhos vivos nesta vida.

O silêncio voltou a se instalar entre os dois, pesado, mas compartilhado.

Ariana retomou a caminhada e Wiba a acompanhou.

Nenhum dos dois sabia se o dia seguinte traria respostas. Mas sabiam, com uma clareza dolorosa, que o mundo não os esperaria.


[...]


Algumas horas já tinham se passado desde a explosão de Amadi. A filhote estava marchando pelo reino, esbravejando em voz baixa.

— Bando de idiotas — resmungou, usando a pata para bater em uma pedrinha.

A pedrinha ricocheteou contra uma rocha maior e caiu na grama seca.

Amadi parou de andar por um instante, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido demais para alguém que dizia não se importar.

— Aberrações... — murmurou de novo, mas a palavra agora soava menos afiada, mais vazia.

Ela ergueu o olhar.

À frente, a trilha de terra se abria para uma área mais silenciosa do reino, onde o vento soprava entre arbustos baixos e as vozes da caverna principal já não alcançavam. Era ali que os pensamentos vinham quando não queriam ser ignorados.

Amadi afundou as garras no solo.

Por que eles sempre tinham que se meter?

Por que Kiny tinha que falar?

Por que Hakuwa sempre tinha que parecer tão certo?

O rosto de Wazi atravessou sua mente, firme apesar do tremor. Depois o de Wami, protetor.

O de Udadisi, corado e confuso.

E o de Kiny, sempre no lugar errado, na hora errada.

— Idiotas... — repetiu, mas dessa vez não parecia que estava falando deles.

Um farfalhar atrás dela a fez se virar de supetão.

— O que você quer? — rosnou, antes mesmo de ver quem era.

Udadisi parou a poucos passos, as orelhas baixas, claramente hesitante.

— Eu... — ele coçou a pata na terra, sem encará-la direito. — Você saiu sem sem terminar de falar.

Amadi franziu o cenho.

— Eu terminei de falar tudo o que tinha pra dizer.

— Não — Udadisi respondeu baixo. — Você terminou de gritar.

O comentário a atingiu mais forte do que ela gostaria de admitir.

— Veio me julgar também? — Ela rebateu, virando o corpo de lado, defensiva. — Já tem uma fila formada para isso.

— Eu só... — ele suspirou enquanto balançava a cabeça, reunindo coragem. — Queria saber por que está com tanta raiva.

Amadi abriu a boca para responder de forma automática, venenosa — mas nenhuma palavra saiu.

Ela desviou o olhar.

O vento passou entre os dois, carregando o cheiro distante da caverna, da família, do problema que ela tinha acabado de deixar para trás.

— Vá embora, Udadisi — disse, mais cansada do que furiosa.

— Não — ele respondeu, surpreendendo até a si mesmo.

Amadi o encarou. 

— Eu só quero entender — ele engoliu em seco.

O silêncio se estendeu, pesado, quebrado apenas pelo som do vento nas folhas.

Amadi cerrou os dentes.

— Ninguém me escuta — ela acabou dizendo. — Porque todo mundo acha que eu sou só... isso. — Ela fez um gesto vago com a pata. — A leoa irritada. A que sempre exagera. A que nunca tem motivo.

Udadisi não disse nada, apenas se sentou.

Amadi percebeu, tarde demais, que tinha começado a falar de verdade.

— E porque às vezes — ela continuou, a voz mais baixa —, às vezes parece que eu sou a única tentando proteger essa família.

Udadisi ergueu os olhos para ela.

— De quê?

— De coisas que vocês ainda não entendem — ela fecha a cara, virando o rosto para o horizonte, onde o céu começava a se tingir de laranja. — E eu não sei como explicar sem machucar todo mundo.

O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas agora era diferente. Não hostil, carregado.

Udadisi respirou fundo.

— Não precisa explicar tudo agora... — ele disse. — Mas não precisa nos machucar para tentar nos proteger.

Amadi permaneceu imóvel.

O vento soprou mais forte, fazendo a filhote estremecer de leve.

Amadi manteve os olhos no horizonte por um tempo que pareceu maior do que realmente foi.

A brisa brincava com os pelos dela, e o silêncio entre os dois já não era de confronto, era de cansaço.

— Acha que gosto de ser assim? — Ela perguntou de repente, sem olhar para Udadisi.

Ele ergueu as orelhas, surpreso com a mudança de tom.

— Acho que você está machucada — respondeu com cuidado.

Amadi soltou um riso sem humor.

— Machucada? — ela repetiu. — Estou cansada.

Ela finalmente virou a cabeça para ele.

— Todo mundo acha que faço tudo isso porque quero ser a forte, a mandona, a briguenta... mas só estou tentando segurar tudo no lugar porque se eu não fizer isso, ninguém faz.

Udadisi franziu o cenho. — Hakuwa tenta...

— Hakuwa não vê — ela interrompeu. — Ele não mora na mesma toca que nós. Não acorda todo dia com Habi olhando para ele como se fosse um erro que respira. 

A palavra escapou antes que ela pudesse conter.

Erro.

Udadisi sentiu o estômago apertar.

— Amadi... — ele murmura, se aproximando com passos hesitantes.

— Ela odeia que eu seja igual a ele — continuou, agora mais rápido, como se o silêncio fosse perigoso. — O jeito que falo, o jeito que ando, até o jeito que durmo. Tudo nela muda quando me olha. E eu sei por quê — ela respirou fundo. — Porque me pareço com o papai.

Udadisi permaneceu imóvel.

— E eu... eu ainda espero que ele volte — a voz dela falhou por um instante e suas garras riscaram o chão levemente num gesto quase acoado.

O vento trouxe o cheiro distante das acácias.

— Todo mundo diz que ele não vai — ela murmurou. — Mas ninguém entende. Se ele voltar, tudo muda. Ela muda. A gente muda. Eu mudo.

Udadisi deu um passo mais perto.

— E se ele não voltar?

Amadi fechou os olhos.

— Então eu não sei por quanto tempo eu consigo continuar fingindo que está tudo bem.

O silêncio voltou a envolver os dois, mas agora era frágil, como vidro fino.

Udadisi se sentou ao lado dela.

— Você não precisa carregar isso sozinha.

Amadi não respondeu.

Mas pela primeira vez naquela noite, ela não se afastou.


[...]


A lua se erguia lentamente sobre a planície aberta quando a caravana de Wishar atravessava a grama ondulante  após sua expulsão formal do Conselho.

O vento frio deslizava pela terra, fazendo a grama da savana se curvar como um mar silencioso.

À frente caminhava Dhalimu.

Seus ombros largos sustentavam uma juba espessa que lhe descia pelo pescoço como uma armadura natural. O corpo trazia marcas antigas de batalhas — cicatrizes irregulares na lateral e no peito, lembranças visíveis de que sua autoridade sempre fora sustentada pela força.

Ao lado dele, movia-se Ananda. Sua expressão era dura, quase esculpida, os dentes levemente à mostra mesmo quando não falava, como se a fúria jamais se afastasse por completo de seu semblante.

Atrás deles, seis leões de escolta caminhavam em silêncio, a formação já menos rígida do que quando deixaram Rivalon — um reflexo da perda recente de prestígio e comando.

— Nos ofenderam publicamente — murmurou Dhalimu, a voz grave rompendo o silêncio da planície.

Ananda manteve o olhar à frente, os olhos dela se estreitando ligeiramente.

— Não nos ofenderam. Mostraram o quanto temem o que ainda podemos fazer — a resposta dela veio num tom de amargura.

Dhalimu soltou um som baixo, entre um rosnado e um suspiro.

— Cancelaram tratados. Fecharam fronteiras. Retiraram as Guardas. Isso não é medo. É punição.

Antes que ela respondesse, uma terceira voz surgiu da escuridão, calma demais para aquela noite.

— É consequência.

Ambos se viraram.

À margem da planície, parcialmente recostado contra uma formação rochosa, encontrava-se Scar.

Sua juba negra caía pesada ao redor do rosto, contrastando com a pelagem castanho-avermelhada do corpo. Um conjunto de cicatrizes profundas marcava-lhe o flanco e o pescoço, linhas irregulares que contavam histórias de dor e sobrevivência. Os olhos verdes, atentos e frios, observavam-nos com um interesse quase divertido.

— Príncipe das Terras do Reino — rosnou Dhalimu. — Não foi convidado.

Scar inclinou a cabeça, um sorriso torto surgindo lentamente.

— Depois do espetáculo que deram no Conselho, imaginei que convidados fossem exatamente o que vocês deixaram de ter — ele avançou alguns passos, o movimento lento e calculado, como quem se aproxima de uma presa que já não tem para onde correr. 

— Dois dias — continuou —, dois dias de viagem árdua e vocês transformaram Wishar em um pária político. Confesso, é um feito raro. Poucos reinos conseguem se isolar de todo o continente tão rápido. E, devo admitir, vocês não são os mais espertos quando se trata de sumir sem deixar rastros.

Ananda estreitou os olhos rosados.

— Wishar não precisa da aprovação dos outros para existir.

Scar soltou um riso baixo.

— Nenhum reino precisa... até precisar. E vocês vão precisar muito em breve.

Ele começou a contorná-los, analisando-os como peças defeituosas de um tabuleiro antigo. 

— Envenenaram a própria rainha — disse, sem alterar o tom —, exilaram a herdeira legítima, forçaram a saída do futuro líder da Guarda e agora caminham por terras neutras sem aliados nem reconhecimento.

Um silêncio pesado se instaura entre os leões.

— Diga-me, Ananda... por quanto tempo um trono roubado sobrevive quando ninguém mais o reconhece como trono? — Parou diante de Ananda, os olhos verdes fixos nos róseos dela.

O vento ficou mais forte, fazendo a juba de Dhalimu ondular e a pelagem de Ananda se arrepiar.

Ela sustentou o olhar de Scar, mas não respondeu.

Scar deu um passo atrás e inclinou a cabeça em um gesto que beirava a cortesia.

— Tenham uma boa noite, Majestades.

Virou-se então e se afastou pela planície enquanto a lua desenhava sua sombra longa sobre a terra.

Ananda permaneceu imóvel por longos instantes, Dhalimu respirava pesado.

Wishar tinha deixado oficialmente de ser um reino.

A planície já estava silenciosa quando a sombra de Scar desapareceu entre as colinas distantes. O vento ainda carregava o eco da voz dele, como se a própria noite se recusasse a esquecê-la.

Por um longo tempo, Ananda permaneceu parada. A lua refletia em seus olhos duros como brasas que se recusavam a apagar. 

O maxilar dela estava travado, seus dentes, cerrados.

— Deveria ter rasgado o pescoço dele — Dhalimu foi o primeiro a falar, rosnando entredentes.

Ananda soltou uma risada curta, seca, sem humor.

— E teria feito exatamente o que ele queria.

Dhalimu virou o rosto para ela. — Ele nos humilhou.

— Não — corrigiu ela, finalmente se movendo. — Ele tentou.

Ananda caminhou alguns passos, afastando-se da comitiva, até a borda da planície onde a grama era mais alta. O vento fez sua pelagem alaranjada ondular como fogo vivo.

— Ele acha que nos derrotou porque fechou portas — continuou. — Como se portas fossem o que mantém um reino de pé.

Dhalimu se aproximou, a juba pesada projetando sombra sobre ela.

— Eles nos tiraram tudo.

Ananda virou-se de súbito.

— Não. Eles nos tiraram o banquete — ela sustentou o olhar dele, os olhos rosados brilhando. — Então iremos virar a mesa inteira.

O vento soprou mais forte, levantando poeira e folhas secas.

— Não vamos atacá-los — disse ela. — Não ainda. Guerra é barulhenta. Une inimigos. Dá heróis aos outros reinos.

Dhalimu franziu o cenho.

— Então o que faremos?

Ananda se aproximou, baixa a voz, cada palavra medida como lâmina.

— Racharemos o Conselho por dentro.

Ela começou a andar em círculos lentos, como quem traça um mapa invisível na terra.

— Os reinos menores primeiro. Semeamos dúvida sobre a Guarda — continuou, seus lábios se contorcendo em um sorriso perverso. — Criamos conflitos locais. Financiamos desordem.

Ela parou diante dele.

— Quando a estabilidade cair... vão olhar para Wishar e lembrar que um dia precisaram de nós.

Dhalimu respirou fundo.

— E Scar?

O sorriso de Ananda se alargou. 

— Scar vai aprender o que acontece quando alguém transforma uma rainha em espetáculo — o silêncio se instalou pesado entre os dois.

Ao longe, a comitiva aguardava e Ananda voltou-se para o caminho.

— Prepare os mensageiros assim que chegarmos ao reino, Tandwe — ordenou a uma das leoas da comitiva. — Esta noite, Wishar começa a reconquistar o mundo.

Dhalimu observou enquanto ela se afastava, e pela primeira vez desde que chegaram em Rivalon, sorriu.

Aquela não era mais uma derrota para eles.

Era uma guerra que ainda não tinha nome.


sexta-feira, 20 de junho de 2025

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 8 – Artemísia Afra]

Os dias que se seguiram após a expulsão de Ananda e Dhalimu foram repletos de risos e conversas animadas, apesar da ligeira tensão perto de Endra e Hasi.

Os reis tinham tirado um tempo para socializar mais informalmente e se conhecerem melhor, em alguns casos.

Era claro para todos que Kiros e Obasi tinham uma certa inimizade, mas os dois mantinham conversas relativamente amistosas, principalmente quando suas esposas estavam por perto. 

Pelo que Habi havia descoberto, o filho de Kiros já era pai de duas adolescentes e uma filhote, que tinham ficado em casa junto com as outras leoas das Terras do Norte. 

Habi estranhou um príncipe que nem parecia ter amadurecido completamente ser pai, mas guardou as opiniões dela para si mesma.

Obasi, apesar de ser um rei conversador, deixava claro que era preguiçoso em suas ações. Eshe não parecia se importar muito com o comportamento do marido. A leoa sempre o encarava com carinho.

Os reis e rainhas se encontravam nas clareiras de Rivalon. As conversas eram animadas e inspiradoras e todos tiveram tempo para trocar histórias.

— Esperamos ver o Príncipe Malka em breve novamente, Eshe — Sarabi diz, sorrindo para a rainha das Terras do Sul. — Simba e os outros sentem falta dele.

— Visitaremos assim que possível, Sarabi — Eshe promete em resposta. — E quanto a você, Habi? Como estão as crianças?

— Ah, você sabe como Adanna e Hakuwa são — a rainha ri, gesticulando discretamente para as netas de Nadia, que brincavam com outros filhotes. — Sempre fazendo amizades onde quer que vão.


[...]


— Volte aqui, seu engomadinho! — Amadi grita, perseguindo Hakuwa pela relva alta da floresta. O rosto da filhote estava contorcido em uma expressão de raiva.

— Você mereceu dessa vez! — O filhote dourado grita em resposta, sem parar de correr.

Enquanto Hakuwa brincava com Akili e os outros, Amadi achou que seria divertido tentar assustar Akili saltando de um arbusto. O tiro saiu pela culatra quando Kisai a notou e chamou a atenção de Hakuwa, que se colocou na frente da filhote para impedi-la, fazendo Amadi dar de cara com o flanco dele e cair de costas no chão. 

Foi uma coisa simples, realmente. Amadi não tinha sofrido um arranhão sequer, mas se achou no direito de ficar com raiva da intervenção do príncipe e brigou com ele. 

Em resposta, Hakuwa esperou um momento oportuno e pisou com força na cauda de Amadi, que se pôs a persegui-lo pela floresta. 

Os outros filhotes tentaram acompanhar mas desistiram. Hakuwa era rápido, e a própria Amadi estava com dificuldade para acompanhá-lo.

Para Hakuwa, a perseguição não passava de uma mera brincadeira. Ele sabia que Amadi estava com raiva por estar com o ego e cauda feridos, mas não se importava.

Cada vez que Amadi parecia perto de alcança-lo, Hakuwa acelerava um pouco mais. A filhote de pelo claro estava se cansando e isso era óbvio. 

Com um sorriso vitorioso, Hakuwa usa a raíz curvada de uma árvore para fazer uma curva acentuada, usando as garras para derrapar no chão e continuar correndo.

Amadi tenta fazer o mesmo, mas tropeça em algo no caminho e perde o equilíbrio, caindo de cara no chão antes de rolar alguns metros. 

Hakuwa para de correr a tempo de ver a cena se desenrolar e, com um pequeno sorriso no rosto, se vira e corre na direção oposta, voltando para o clubinho da árvore. 

Quando Amadi para de rolar, solta um sibilo de dor e leva a pata à cabeca, notando o sangue escorrendo. Enquanto rolava, a filhote tinha atingido uma pedrinha que, por menor que fosse, era afiada e, com a velocidade da queda e impacto, abriu um pequeno rasgo em sua cabeça.

Amadi se levanta lentamente com a testa franzida de dor. A cabeça dela latejava onde a pedra a tinha cortado e ela solta um bufo de frustração. 

Ela marcha em direção à árvore de raíz curvada, procurando o que a fez tropeçar.

Ao notar o tufo de pelos de uma cauda saindo de uma moita, Amadi ergue a pata e dá uma bofetada na cauda, pensando ser Hakuwa que estava escondido.

A cauda é recolhida para dentro da moita imediatamente e um farfalhar breve revela um focinho canino e uma fileira de dentes pontudos.

A filhote recua, percebendo tarde demais que tinha acertado a cauda de uma hiena adulta.

— Ora, ora, o que temos aqui? — A hiena ri. 


[...]


Hakuwa volta para a entrada da floresta antes do que tinha esperado. O filhote estava ofegante, mas a corrida tinha valido a pena.

— Hakuwa, ficou maluco? — Adanna pergunta. A filhote tinha sido a primeira a notar o retorno do irmão e se aproximou com uma expressão brava. — Amadi poderia ter te machucado!

— Mas não machucou — o filhote retruca de forma desdenhosa. — Além disso, valeu a corrida. Eu faria tudo de novo. 

Adanna revira os olhos e encara o outro com o cenho franzido e uma sobrancelha arqueada. — Ué, onde está Amadi?

— Não é óbvio? — Wazi sorri debochada, se aproximando. — Ela ficou para trás. Não foi párea para a velocidade do Hakuwa.

— Ela tropeçou em alguma coisa floresta a dentro. Saiu rolando e caiu de cara no chão — Hakuwa explica, tentando – e falhando – segurar o riso.

— Como é? — Wami, que até então perseguia Sawa, indaga. A testa da menor estava franzida de preocupação. 

— É, ela saiu rolando e caiu de cara — Hakuwa solta uma risada. — Foi uma cena impagável, vocês tinham que ver!

— Hakuwa! — Akili repreende. — Deixou ela sozinha no meio da floresta?!

— Ué, foi ela que começou a me perseguir — o príncipe se defendeu, desviando o olhar.

— Porque você pisou na cauda dela — Kisai retruca, soltando um suspiro.

— E que culpa tenho eu? Não vou voltar para me desculpar — o dourado bufou em protesto. — Ela mereceu por tentar assustar Akili.

— Não para se desculpar, mas pelo menos para trazê-la de volta — Adanna explica. — Sei que ela é uma valentona, mas o senso de direção dela é no mínimo... questionável.

— Péssimo — Udadisi corrige, se aproximando. Já haviam alguns dias que o filhote estava se aproximando dos outros para brincar, trazendo Kiny junto consigo.

Adanna concorda com a cabeça ao ouvir Udadisi. — É o mínimo que você pode fazer depois de deixá-la para trás, Hakuwa.

Hakuwa inclina a cabeça para o céu e solta um suspiro irritado. — Está bem, está bem. Eu busco a encrenqueira. Mas só porquê Kira ficará preocupada se voltarmos sem ela. 


[...]


Amadi recuava em passos lentos. O corpo da filhote tremia e, apesar de esboçar uma expressão de corajosa, o medo era evidente em seus olhos.

O sorriso da hiena se alarga ao notar o tremor do corpo da menor. 

Amadi estava em desvantagem e sabia disso. A perseguição atrás de Hakuwa a deixou com pouca energia e qualquer movimento em falso a faria virar lanche de hiena.

— M-me desculpe — gaguejou, se praguejando mentalmente por parecer tão vulnerável na frente da predadora. — Eu não queria...

— Mas fez! — A hiena esbraveja, se aproximando da filhote. — Atingiu minha pobre cauda sem nenhum pudor, sua malditinha!

Amadi se encolhe com o tom ríspido da hiena. Os olhos da pequena fitam o chão e ela engole em seco. Podia sentir seu coração disparando a cada segundo que passava, como se fosse sair pela boca. 

— Vou usar seus ossinhos para palitar meus dentes! — A hiena late, avançando para cima de Amadi. 

A filhote, em resposta, se põe a correr em disparada pela floresta, passando por galhos baixos e arbustos numa tentativa falha de escapar.

Apesar de cansada, a adrenalina de Amadi falava mais alto, bombeando o sangue em suas veias com mais rapidez. 

A visão da pequena começava a escurecer conforme ela corria e, usando a adrenalina, Amadi sobe um pequeno amontoado de rochas, sentindo a hiena em seu encalço.

(Imagem e base de minha autoria, não use sem permissão)

Eventualmente, ao ganhar mais distância da hiena, algo a puxou para o tronco oco de uma árvore. A filhote não tem tempo de gritar pois uma pata cobre sua boca. 

— Shh, fique quieta — uma voz sussurra no ouvido de Amadi. 

Os olhos da filhote se alargam ao notar quem era e logo se estreitam de raiva. 

Era tudo culpa desse engomadinho!

Amadi começa a se debater para se soltar, soltando bufos e protestos abafados. 

Hakuwa revira os olhos, destampando a boca da filhote.

— Quer virar comida de hiena? — O príncipe pergunta, claramente irritado. — Se não fosse por mim, você teria caído de novo, dessa vez de cara nas rochas que escalou.

Amadi estremece. Com a adrenalina, a filhote tinha se esquecido momentaneamente do corte em sua cabeça e agora que o efeito estava passando, a dor que a consumia antes voltara dez vezes pior.

— Isso não teria acontecido se você não tivesse pisado em minha cauda — resmungou, franzindo a testa e levando a pata até seu corte. — É tudo culpa sua!

— É, é, que seja — Hakuwa revira os olhos. — Escute, se quisermos sair daqui vivos, vai ter que fazer o que eu mandar. Vou distrair a hiena e você foge.

— Não vou seguir ordens de um engomadinho qualquer — Amadi protesta. 

Hakuwa solta um rosnado baixo, levando a pata ao corte na cabeça da outra filhote e a pressionando contra o sangue. 

Amadi sibila de dor, se afastando do toque de Hakuwa como se brasas tocassem sua pele.

— O que pensa que está... — a frase se prende em sua garganta ao ver o filhote passar o sangue de sua ferida em seu corpo.

— A essa altura, a carniceira já decorou seu cheiro por causa do machucado — Hakuwa explica, focando na tarefa em suas patas. — Sou mais rápido que você, vou distraí-la para você ganhar tempo e fugir. Siga a claridade nas copas das árvores, vai encontrar a entrada da floresta e fugir com os outros.

Amadi abre a boca para protestar, mas Hakuwa a corta.

— Não acredito que estou fazendo isso — resmungou —, mas como príncipe e futuro rei, estou ordenando que você cale a boca e me deixe te ajudar.

Os olhos de Amadi se alargam e o rosto dela se contorce em uma carranca de raiva antes de ela relutantemente concordar com a cabeça.

— Está bem — murmurou num tom baixo.

— Ótimo — Hakuwa abre um sorrisinho, espiando pela fresta do tronco em busca da hiena. — A barra está limpa. Espere ela sair atrás de mim pra você correr. 

Hakuwa hesita antes de sair lentamente do tronco. 

O pequeno foi esperto ao esfregar o sangue de Amadi pelo corpo, manchando alguns pontos em sua pelagem para se esfregar contra folhas, galhos e raízes. 

Não demora muito para Amadi ver a hiena correr de volta para a área, farejando enquanto procurava Hakuwa, que tinha se escondido em arbustos densos e espinhosos. 

— É medo ou coragem que te motiva, malditinha? — A hiena branda, sua risada maldosa ecoando pela floresta. 

Aproveitando a distração da carniceira, Amadi sai lentamente do tronco. A hiena não a percebe, se aproximando cada vez mais do esconderijo de Hakuwa.

O focinho dela adentra o arbusto lentamente, seus dentes afiados a postos para estraçalhar quem ela pensava ser a filhote. 

Ao invés de morder a carne macia de Hakuwa, no entanto, a hiena acaba mordendo um dos galhos espinhosos que Hakuwa moveu e soltando um ganido de dor. 

É a brecha que Hakuwa precisava para disparar do arbusto, correndo na direção oposta da hiena, que começa a persegui-lo. O filhote usava a folhagem como cobertura, ocultando sua pelagem dourada da vista da carniceira.

Amadi observa por alguns segundos antes de começar a correr de volta para a entrada da floresta, quase trombando com Kisai no processo. 

— Amadi? — A filhote escura pergunta, com sua sobrancelha arqueando. — O que aconteceu? Onde está...

— Vamos, seus imbecis! — A filhote manda, empurrando Kisai com a cabeça, quase sibilando de dor devido ao corte. — Hakuwa está distraindo a hiena, temos que voltar para o reino agora!

Kisai tenta protestar, mas acaba se deixando ser empurrada por Amadi por poucos segundos antes de se afastar da filhote para guiar os outros para a entrada da floresta. 

Os outros filhotes encaram Amadi confusos antes de obedecerem, seguindo-a para fora da floresta. 

Quando todos passam o pequeno riacho que divide a floresta do reino, Hakuwa sai da floresta. 

— Vamos, vamos — o filhote apressou os outros, que notaram a pelagem dele molhada de água e resquícios de sangue. — Eu consegui atrair ela para longe, mas é melhor corrermos.

Os filhotes ouvem, não querendo ficar para trás e encarar a fúria da hiena. A entrada da floresta tinha ficado estranhamente quieta de repente, mas os filhotes continuaram a correr de volta ao reino sem olhar para trás.


[...]


Os filhotes chegam a escadaria da caverna cansados e ofegantes, mas rindo e brincando entre si. Era claro que a única que tinha ficado incomodada com a situação foi Amadi.

— Isso é tudo culpa sua, engomadinho! — A filhote clara repreendeu, se virando para encarar Hakuwa com raiva. — O que estava pensando ao pisar em minha cauda, hein?!

Hakuwa revira os olhos e torce o focinho. — Você reclama de tudo, Amadi.

— Reclamo quando estou certa — Amadi se defende, batendo a pata dianteira no chão. — Ficou maluco? Não só você me colocou em perigo, como também colocou aos outros!

— Você se colocou em perigo sozinha, Amadi — Hakuwa torce o focinho novamente. — Você que irritou aquela carniceira! Eu poderia ter te deixado sozinha lá atrás!

— Pela primeira vez, concordo com ele, Ama — Udadisi se intromete, franzindo o cenho. 

— Está do lado... — antes que Amadi possa terminar a frase, Udadisi a corta.

— Não comece com isso, Amadi! Pôs em perigo todos nós ao atrair uma hiena! — O filhote exclama.

Amadi se encolhe com o tom ríspido de Udadisi. O filhote nunca tinha falado assim com ela.

— Não foi minha culpa! — A filhote esbraveja, mostrando os dentes para o irmão. — Se o engomadinho não tivesse...

— Você não tinha que tentar assustar Akili, muito menos perseguir ele, Amadi! — Udadisi a interrompe novamente. — Eu disse que não tinha motivos pra isso, mas você nunca me escuta, não é?!

— Udadisi... — Akili põe a pata no ombro do filhote numa falha tentativa de acalmá-lo, mas ele a ignora, afastando a pata dela de seu ombro.

— Não, já chega disso! — Esbravejou ele. — Desde que viemos pra Anida, você só sabe julgar e criticar os outros e eu estou farto disso. Kiny e eu estamos! É ridículo, Amadi! 

Amadi se encolhe ainda mais. Já tinha visto Udadisi bravo, mas isso era novo. Ainda assim, a filhote se recusava a recuar.

— Ah, eu sabia que deixar você andar com os engomadinhos e as aberrações iria fazer você sofrer lavagem cerebral! — Amadi esbraveja, dando um passo ameaçador na direção do irmão. — E tudo por causa de uma quedinha idiota!


[...]


Os primeiros raios da tarde estavam adornando Rivalon, pintando os céus em tons de laranja, vermelho e amarelo.

Askari fazia uma caminhada pelo reino. 

O leão estava sentindo cheiros familiares e pequenos flashes de memória invadiam sua mente. 

Pelo que ele tinha conseguido entender de suas memórias embaralhadas, ele e Wonaji tiveram alguma coisa. Um relacionamento, talvez. 

Os cheiros familiares ajudavam com sua memória falha, e aquela anciã, Waganga, parecia conhecê-lo também. 

Askari se aproximava da caverna, a testa do leão franzida enquanto ele estava em pensamento profundo. 

— As memórias costumam ser caprichosas, não costumam, jovem? — Uma voz feminina pergunta. 

Askari ergue os olhos, fitando, no alto da escadaria rochosa, a anciã. 

Ela o encarava com certo divertimento, como se soubesse de algo que Askari não sabia. 

A testa de Askari se franze mais. 

— Devagar, jovem. Se continuares a franzir a testa dessa forma, acabarás por rachá-la. E então ficarás preso a essa carranca para sempre — a mais velha brincou, descendo a escadaria para ir de encontro ao macho. — Terias a bondade de auxiliar uma velha leoa na colheita de algumas plantas?

Waganga não espera Askari falar, gentilmente o empurrando com o ombro para segui-la escadaria a baixo.

Ele a segue a contragosto.

Os dois caminham em um silêncio confortável por alguns minutos, os únicos sons sendo o piar dos pássaros, o vento batendo nas folhas das árvores e arbustos e o cantarolar ocasional da anciã. 

— Dizei-me, jovem... quanto ainda recordas? — Waganga perguntou de repente, parando e se inclinando para farejar alguns arbustos de Artemísia Afra.

Askari, atônito com a pergunta repentina, arqueia a sobrancelha. — O que?

— Fui chamada para auxiliar em teu tratamento muitas luas atrás, quando ainda jazias inconsciente — ela responde, usando as patas dianteiras para escolher algumas flores.

Askari inclina a cabeça para o lado, só agora notando a bolsa de folhas e cipós ao redor do pescoço da mais velha.

— Você... estava lá? — Questionou, seus olhos verde esmeralda encarando a leoa com confusão. 

— Se eu estava lá? — Waganga solta uma risada baixa, pegando as flores com sua boca e abrindo a bolsa para colocá-las dentro. — Então realmente nada recordas?

A cabeça de Askari começa a doer. Um leve latejar que o faz sibilar e se encolher involuntariamente. 

— Não temas — Waganga assegura —, essas dores são apenas tuas memórias encontrando o caminho de volta pouco a pouco. 

Mas isso não parecia 'pouco a pouco'.

— Seu... seu cheiro... — o leão franze a testa, balançando a cabeça num movimento rápido, como se estivesse com tontura.

— As paredes das cavernas de Butsara carregam o perfume dos minérios há muitas luas — a mais velha explica com um sorriso pequeno em seus lábios. — Diamantes, ouro, cobalto... São só alguns deles. Além disso — ergueu o pescoço e ali, escondido entre os tufos grossos da pelagem da garganta de Waganga, estava um colar simples de cipó com uma pedra azul entre duas presas, arrancadas de algum carnívoro —, é sempre bom carregar um pedaço de casa consigo.

O focinho de Askari se torce. 

— Eu... me lembro desse cheiro — resmungou o macho. 

— Sabes, Juba de Ônix... — Waganga solta uma risada baixa, pegando mais algumas flores de Artemísia Afra — tua mãe possuía grande talento para a cura. 

— Minha... mãe? 

— Mhm. Tinha talento para as plantas, mas uma teimosia que faria corar um búfalo. Ainda assim... era um amor de leoa. — Waganga entrega o punhado mais recente de flores para Askari. — Toma. Isto há de aliviar tua dor. Mastiga bem antes de engoli-las.

O leão hesita antes de pegar as flores com a boca, agradecendo com a cabeça. Antes que pudesse fazer mais alguma pergunta para Waganga, ela já estava sumindo por entre a relva alta. 

Que leoa mais... peculiar.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 7 – A Decisão do Conselho]

Após as palavras de Nadia, a tensão que pesava sobre a caverna começou, lentamente, a se dissipar.

O Conselho se fragmentou em pequenos núcleos: leões que não se viam havia luas se levantaram para se cumprimentar, trocar murmúrios, medir uns aos outros com olhares atentos. O peso da acusação ainda pairava no ar, mas agora dividido entre muitos.

Hasi foi rápido em se virar, atravessando o espaço até Endra e puxando a prima para um abraço firme, quase desesperado.

— Você perdeu o juízo de vir até aqui? — Sussurrou, num tom carregado de preocupação.

— Ora essa, Hasi — Endra retrucou, soltando um riso baixo. — Eu devia estar te perguntando o mesmo. O que veio fazer aqui?

— Tecnicamente... agora faço parte do Conselho — respondeu ele, com uma careta. — Depois que mamãe e papai te exilaram, passaram a encher meus ouvidos sobre o que eu devia ou não fazer.

Hasi suspirou, irritado, e fez um gesto breve com a cabeça.

— Mandaram o coitado do Rahim me escoltar até aqui.

Endra acompanhou o gesto e reconheceu o leão de pelagem escura, que observava tudo à distância, atento demais para alguém que supostamente só “acompanhava”. Ela assentiu em silêncio. Conhecia bem a teimosia de Ananda e Dhalimu.

Então seus olhos se iluminaram.

— Hasi, quero que conheça alguém.

Ela o puxou na direção de Habi e Thadi, que conversavam com um leão dourado de juba vermelha, sua parceira, e um leão alaranjado de juba negra, visivelmente carrancudo.

— Tia Habi — anunciou Endra —, esse é meu primo, príncipe Hasi.

Habi se virou ao ouvir a voz da princesa.

— Endra, querida — disse com um sorriso diplomático, inclinando a cabeça para Hasi, que retribuiu o gesto. — Juntem-se a nós. Sarabi e Mufasa estavam nos contando algumas peripécias de seu filho.

— Peripécias? — Endra arqueou uma sobrancelha, lançando um olhar divertido para Hasi. — Ele me lembra alguém...

— Nosso pequeno Simba — Sarabi riu com suavidade. — Está crescendo rápido demais.

— Está fazendo um bom trabalho — resmungou o leão de juba negra, entediado. — A bolinha peluda cresce como deveria.

— Você me dá crédito demais, Scar — Sarabi respondeu, revirando os olhos, mas sorrindo.

— Apenas onde é necessário — Scar replicou, levantando-se. — Com licença. Tenho assuntos a resolver.

Os seis o observaram se afastar.

— Que bicho mordeu ele? — Endra murmurou.

— Não se preocupe — Mufasa disse com um sorriso curto. — Tak- Scar sempre fica de mau humor sem comer. Nem sempre foi assim.

Hasi e Endra trocaram um olhar rápido com a correção quase imperceptível, mas nada comentaram.


[...]


Quando as primeiras estrelas começaram a surgir, Nadia rugiu, chamando o Conselho de volta à ordem. Os leões retornaram às suas posições, e ela se sentou ao lado de Nidijo na elevação rochosa.

— Habi, Endra. Prossigam.

Habi se levantou.

— O Conselho não foi reunido apenas para buscar justiça para a Princesa Endra — disse, com a testa franzida. — Há algo mais grave em jogo.

O murmúrio cresceu, inquieto.

— Duas mensageiras de Anida foram atacadas a caminho de Rivalon — continuou, cortando o som com a voz firme. — Duas adolescentes.

A caverna ferveu. Acusações cruzaram o ar, vozes se elevaram, palavras duras ecoaram nas paredes de pedra.

— Ordem! — Nadia exigiu.

Em resposta, um rugido profundo, poderoso, cortou o caos.

Todos os olhares se voltaram para uma leoa de pelagem negra como a noite e olhos vermelhos, ardentes.

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

— A Rainha pediu silêncio — disse ela, a voz grave e ritmada. — E silêncio haverá.

Alguns leões se entreolharam, confusos com o sotaque.

— Façam o que a moça gigante diz — comentou uma voz envelhecida e divertida. Uma leoa idosa entrou na caverna com passos lentos, seguida por duas mais jovens. — Ela possui um rugido respeitável, não possui?

Os leões se curvaram em respeito.

— Vovó! — Kinga correu para abraçá-la.

— Vós, jovens, estais sempre apressados — ralhou Waganga, sorrindo ao corresponder o abraço da neta. — Iniciar um Conselho sem a presença dos mais velhos... que ousadia.

Então o sorriso se apagou.

— A morte caminha entre os reinos — anunciou. — Uma sombra espessa que apodrece o ar.

Dhalimu zombou.

— Outra visão de suas aprendizes?

Os olhos de Waganga se estreitaram.

— Ananda concede-te voz demais para um rei consorte. E ambos exalam o odor de sangue inocente.

O sangue dos reis de Wishar gela.

— Patéticos — prosseguiu Waganga. — Mal deram repouso aos corpos de Fadhili e Heshima, e já expulsaram a herdeira legítima. Patéticos, eu digo!

— Ela está certa — Hasi declarou, avançando. — O que meus pais fizeram foi injusto.

Chaga se aventurara no exílio por conta própria naquele dia — ele mesmo confessara isso a Hasi mais tarde.

E, por pura negligência e incompetência de Ananda e Dhalimu, o filhote fora picado por uma aranha peçonhenta.

Quando Endra ouvira o grito agoniado do primo caçula, não pensara — apenas correra.

Carregara Chaga nas costas até as curandeiras, sentindo o veneno já endurecer seus músculos, a respiração dele falhando sob seu ouvido.

Se a princesa não estivesse ali, o destino do filhote teria sido fatal. Chaga sempre fora imprudente, sempre vagando sem rumo, e dessa vez isso quase lhe custara a vida.

— O rapaz fala com sabedoria — disse Waganga, agora com a voz tomada por um peso mais profundo. — E temos diante de nós dois dilemas. Dois caminhos sem retorno.

A anciã voltou-se para Endra e lhe ofereceu um sorriso suave, quase maternal.

— Minha querida, por mais brusca que tenha sido a decisão de teus tios, ainda te cabe escolher. O sangue que corre em tuas veias é real.

Um coro de rugidos de acordo percorreu a caverna.

Nadia então se ergueu.

— Princesa Endra de Wishar, filha da finada Rainha Fadhili e do finado Rei Heshima — chamou, convidando-a a avançar. — Seu sangue lhe concede o direito de governar... ou de abdicar.

Endra assentiu. Já sabia o peso daquelas palavras.

— O Conselho lhe oferece duas escolhas — continuou Nadia, erguendo ambas as patas como quem pesa destinos. — Permanecer no trono de Wishar... ou passá-lo ao próximo na linha de sucessão: o Príncipe Hasi.

— O Conselho não tem esse direito! — Rosnou Dhalimu, avançando um passo.

— Tem, se a decisão de um reino for injusta — respondeu Endra, firme. — E se este Conselho me julga digna de escolha, então nem você, nem eu podemos negá-la.

Dhalimu rosnou e Ananda o puxou para trás.

Endra respirou fundo.

— Eu, Princesa Endra de Wishar — declarou, erguendo o queixo —, abdico do trono e o entrego ao Príncipe Hasi. Salve o Príncipe!

Sua pata bateu no chão com um rugido que ecoou pelas pedras.

O Conselho explodiu em aclamação.

Hasi, Ananda e Dhalimu apenas a encaravam — atônitos.

Ananda avançou.

— Você tem noção do que fez?!

— Você me queria fora de Wishar — sibilou Endra. — Hasi é o futuro do reino.

— Sua pirralha ingrata! — Gritou Ananda.

Pela primeira vez, Endra recuou um passo.

— Eu não envenenei minha irmã para isso! — Rugiu Ananda, as garras expostas. — Eu devia ser a sucessora!

O mundo silenciou.

Os olhos de Ananda se arregalaram tarde demais.

Rahim saltou, segurando-a pela nuca antes que ela alcançasse Endra. Dhalimu tentou avançar, mas Thadi bloqueou seu caminho.

— Mais um passo — rosnou o rei de Anida —, e você não sairá vivo daqui.

Endra não ouvia mais nada.

O passado colidia com o presente.

A doença súbita dos pais.
A agonia.
O cheiro das ervas.

Gloriosa Superba.

A verdade sempre estivera ali.

Endra rugiu — um som tão profundo que cortou o ar.

Avançou.

— O que você fez, Ananda?! — Endra gritou, ignorando o honorífico outrora respeitoso.

Rahim soltou a leoa, que caiu pesadamente no chão.

— É verdade, mãe? — A voz de Hasi quebrou. — Envenenou meus tios?

O silêncio pesava como pedra.

— Eu... sim — respondeu Ananda.

A caverna explodiu.

Endra pulou sobre ela.

— Assassina!

— Me matar não os trará de volta — zombou Ananda. — Ainda sou rainha.

— Não por muito tempo — declarou Waganga.

Nadia ergueu-se.

— Ananda, seus crimes são puníveis com a morte. Mas por respeito a Hasi e Chaga, decretamos banimento do Conselho e dos reinos aliados até que Hasi assuma o trono.

Os outros reis murmuram em concordância.

— Esta decisão será tomada por votação. Se qualquer reino se opuser, Ananda e Dhalimu permanecerão no Conselho. Caso contrário, estarão banidos não apenas do Conselho, mas de todos os reinos que o compõem. Apenas o Príncipe Hasi poderá representar Wishar em futuras reuniões. — Nidijo ergueu a voz, firme, ocupando o espaço que sua mãe lhe concedia.

O olhar do leão então recaiu sobre Habi e Thadi.

— Rainha Habi e Rei Thadi, de Anida. Qual é a posição de seu reino?

Habi colocou a pata sobre o ombro de Endra, puxando-a suavemente para longe de Ananda, que ainda rosnava ao se erguer do chão.

— Anida vota a favor do banimento — declarou a rainha, a voz estável e carregada de convicção. — Fadhili e Heshima eram amigos queridos. Endra precisou atravessar terras perigosas para nos trazer a notícia de sua morte. Não podemos permitir que isso seja esquecido.

Thadi confirmou com a cabeça, mantendo-se firme entre Dhalimu e a assembleia.

Nidijo assentiu e voltou-se para os próximos.

— Rei Sahasí e Rainha Anaanda, da Árvore da Vida?

Os dois trocaram um breve olhar. A rainha pousou a pata sobre a do companheiro.

— A favor do banimento — respondeu Sahasí, com voz grave.

— Rainha Hadassah e Rei Mtawala, de Butsara?

Mtawala inclinou levemente a cabeça.

— Banimento. — E então, olhando para Habi e Endra: — Têm todo o nosso apoio, irmã. E você também, princesa.

Hadassah esfregou a face na do marido e confirmou em silêncio.

O semblante de Nidijo suavizou por um instante antes de voltar-se ao casal seguinte.

— Rainha Ariana e Rei Wiba, de Dugani?

Houve uma breve hesitação. Ariana pigarreou, os olhos verdes marcados por cansaço.

— Estamos... de acordo com o banimento.

O alívio atravessou o rosto de Nidijo.

— Rei Aeris e Rainha Yasu, do Reino das Rochas?

O casal se separou do afago lento que trocavam. 

— A favor. O que Ananda fez viola todas as leis entre os reinos. Se desejava o trono, deveria ter desafiado a irmã, não envenenado sua família — Aeris respondeu.

— Uma covardia fria — completou Yasu, sem vacilar. — Mantemos nossa decisão: banimento.

Nidijo então voltou-se para um grupo mais afastado.

— Rei Kiros e Rainha Bianka, das Terras do Norte?

Kiros ergueu a cabeça, os olhos vermelhos como brasas.

— A favor.

Poucas palavras e nenhuma dúvida. Seu filho, Shaju, observava tudo com um sorriso torto que não passou despercebido por Nidijo.

— Rei Mufasa, Rainha Sarabi e Príncipe Takasa, das Terras do Reino?

— Sim — respondeu Mufasa. — Tal ato de covardia não pode ser ignorado.

— Se fizeram isso com o próprio sangue, poderiam fazer com qualquer um — acrescentou Scar, os olhos verdes estreitos. — Inclusive com a Princesa Endra.

Por fim, Nidijo voltou-se ao último casal.

— Rei Obasi e Rainha Eshe.

Obasi se levantou lentamente.

— Estamos a favor.

— Quem ataca a própria família não hesitará diante de filhotes inocentes — completou Eshe, a voz tomada de preocupação sincera.

O silêncio caiu.

Todos os olhares então se voltaram para Hasi.

O destino de Wishar agora repousava apenas em suas patas.


[...]


O mato alto se agitava sob a brisa quando o grito de Wami cortou o ar.

— Kisai já mandou nos deixar em paz, Amadi!

A filhote se colocou na frente da irmã, as patas abertas em proteção enquanto Wazi se encolhia atrás dela, cobrindo a cabeça com as patas dianteiras.

Amadi inclinou a cabeça, um sorriso torto se abrindo em seu focinho.

— É mesmo? Que curioso... — ela avançou um passo, usando a própria altura para pressioná-las. — Não estou vendo ele por aqui.

Wami e Wazi recuaram instintivamente. O tom, mais do que as palavras, as atingiu.

Amadi abriu a boca para continuar, mas o impacto veio primeiro.

Hasa surgiu como um raio e a empurrou com força. A filhote rolou alguns metros pelo chão, levantando-se logo em seguida, sacudindo a poeira e rosnando.

— Por que não enfrenta alguém do seu tamanho, sua fedelha? — Hasa avançou um passo, as garras à mostra.

Amadi respondeu com um rosnado baixo, prestes a atacar, quando os arbustos ao redor se moveram.

Walimu e Kami emergiram da vegetação, ambos com o olhar duro cravado nela.

— O quê? — Amadi zombou, o queixo erguido. — Trouxe sua cavalaria, Hasa? Mas que covarde...

— Se alguém é covarde aqui, é você — Kami rebateu, a testa franzida de desgosto. — Intimidando filhotes menores só por diversão? Eu esperava isso de Udadisi, não de você.

O focinho de Amadi se contraiu.

— Fique fora disso, sem orgulho — sibilou, recuando. — Ou sua irmã não vai ser a única a apanhar.

Ela virou-se para ir embora, mas lançou uma última farpa:

— Mais cedo ou mais tarde, Habi e Thadi vão cansar da sua família. E quando isso acontecer, vão voltar para o nada de onde vieram... para seus hábitos nômades. Vocês não passam de aberrações e mais bocas para alimentar.

O silêncio que ficou atrás dela era pesado.

As palavras tinham sido mais afiadas que qualquer garra.

Kami respirou fundo antes de se aproximar de Wami e Wazi, o sorriso que tentou oferecer era tenso e cuidadoso.

— Vocês estão bem?

Mais afastado, entre as sombras das árvores, Udadisi observava tudo.

A testa franzida, o nariz torto, os olhos presos nas gêmeas.

Dentro dele, algo se retorcia.

Um sentimento estranho.
Novo.
E impossível de ignorar.

Que sentimento estranho era esse?


[...]


Hasi engoliu em seco.

O peso do mundo parecia repousar inteiro sobre suas patas.

Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo... e então deu o passo que jamais poderia ser desfeito.

Eu, Príncipe Hasi, de Wishar — começou, a voz firme apesar da tensão que queimava em seu peito —, apoio a decisão do Conselho de banir meus pais.

Um rugido coletivo ecoou pela caverna.

A aprovação vibrava nas rochas, mas Hasi ergueu a pata, pedindo silêncio.

No entanto — continuou —, não posso assumir um trono banhado em sangue. Não seria correto. E meus tios jamais aceitariam isso.

— Hasi... o que você está fazendo? — a voz de Endra saiu trêmula.

Ele lhe lançou um sorriso suave, cheio de despedida, e voltou-se para Nadia e Nidijo.

Eu renuncio ao trono de Wishar. E quando Chaga tiver idade suficiente, o trono será dele.

O mundo pareceu parar.

Dhalimu avançou num ímpeto furioso, esbarrando em Thadi ao passar.

Mas não chegou até Endra.

Laken surgiu diante dela como uma muralha viva.

— Saia da frente, aberração — Dhalimu sibilou.

— Quero ver tentar, desgarrado invasor — Laken respondeu, baixo, mortal.

Rahim interveio antes que a explosão acontecesse.

Já chega! — A voz de Endra cortou o ar.

Ananda rugiu, os olhos em brasa.

— Seus pais teriam vergonha de você!

Não — Endra cuspiu. — Teriam vergonha de você!

— Eu teria feito tudo de novo! — Ananda gritou. — A morte deles é culpa sua!

O silêncio caiu como neve. Endra fecha os olhos e respira fundo. 

— Não é culpa minha, Ananda, e você não vai mudar a narrativa da história — a mais nova declara, se afastando da tia. 

(Dêem play no vídeo, se der erro podem avisar ^^)


— Sua culpa não encaixa mais em mim, o seu medo não funciona mais em mim — Endra encara Ananda com um olhar determinado. — Eu larguei esse conceito, agora enfim, eu vivo o paraíso.

Os leões ao redor batem suas patas no chão, acompanhando o ritmo da voz da princesa.

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — continuou —, eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim!

A voz de Endra carregava todas as emoções não ditas por ela: raiva, remorso, frustração, tristeza. Era um misto difícil de ignorar.

— Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' — Ela canta depois de uma pausa breve. — Mas eu entendo que isso não sou eu.

As leoas harmonizam com Endra, as vozes delas ecoando suavemente pelas rochas da caverna.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal — a pata de Endra passa pela juba dela, seus dedos dando um leve puxão na pelagem —, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar.

Com um olhar determinado, a princesa marcha até Ananda, parando na frente da mais velha.

— Esse medo que tu sente, eu não sinto — brandou, sorrindo determinada —, agora eu sei o que é mesmo o livre arbítrio. Fazer o bem porquê é certo, já que eu vou mesmo pro inferno!

Ananda rosna, mas Endra se afasta antes que a leoa possa tomar alguma atitude drástica. 

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — a pata de Endra bate no chão e Nidijo faz um gesto leve com a cabeça, convidando Endra para subir a elevação. — Eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim — Endra sorri agradecida para Nidijo e sobe o amontoado de pedras, parando ao lado de Nadia. — Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' Mas eu entendo que isso não sou eu!

Os machos começam a bater as patas no chão, soltando rugidos guturais e graves.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar — o cântico das leoas fica mais alto e os leões começam a harmonizar com elas. — Ah, ah. Ah, ah. Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?', mas eu entendo que isso não sou eu. 

A harmonização das leoas se cessa e elas batem as patas no chão. 

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar. Ah, ah. Ah, ah — Nadia põe uma pata reconfortante no ombro de Endra, a voz da mais velha se misturando com a da mais nova enquanto fazem uma harmonização conjunta. — Oh, oh. Oh, oh.

Nadia dá um abraço breve em Endra. Um pequeno sorriso se forma nos lábios da leoa jubada e ela desce da elevação, parando na frente de Ananda novamente.

— Você é uma vergonha para o trono de Wishar, Ananda — Waganga sibila com os olhos estreitados. 

Ananda desvia o olhar e solta um rosnado.

— Não só para Wishar, como para todo e qualquer outro reino — Scar se intromete, dando um passo a frente. 

— O equilíbrio de Wishar foi perturbado por suas ações mesquinhas — continuou Waganga. — A Grande Mkuu tudo vê, e não ignora injustiças. Guardai minhas palavras, leoa de olhos de cinábrio: chegará o dia em que vossas escolhas cobrarão seu tributo.

As palavras enigmáticas e crípticas de Waganga dão fim à reunião.

Dhalimu e Ananda são cercados pelos outros leões, que se aproximam com passos lentos e carrancas direcionadas a eles. 

Os dois, sem ver outra opção, recuam até a entrada da caverna, soltando rosnados e mostrando os dentes de forma defensiva. 

Isso não detém os outros leões, que continuam marchando para expulsá-los. 

Não demora para uma das leoas pular em Ananda, efetivamente fazendo a leoa alaranjada ser empurrada para fora da caverna junto de seu parceiro.

(Letra ligeiramente alterada. Espero que desfrutem ^^)

— Vergonhas, desgraças — A voz de Nidijo ecoa enquanto ele segue o grupo de leões.

— Humilhações para toda uma raça — Thadi e Hasi continuam.

— Vergonhas — o rei de Rivalon aumenta o tom de voz. 

— Ofensas — Nadia e Habi acrescentam.

— Desgraças — diz Thadi. 

— Atroz! — Endra se pronuncia.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — surge a voz grave de Obasi.

— Vergonhas — enfatiza Laken, franzindo o focinho. 

— Ofensas! — Tabia, outra leoa de Rivalon diz, aparecendo sob um rocha, e rosnando.

— Desgraças — Diz Askari bruscamente.

— Atroz! — Complementa Zura, o sentinela. 

— Ninguém mais vai confiar — Eshe estreita os olhos para Ananda e Dhalimu.

— Humilhações para toda uma raça — Hasi complementa. 

As vozes de Eshe e Bianka se harmonizam em uma só. — Vão embora agitadores!

Ananda e Dhalimu se vêem em um corredor de leões, olhando-os de cima a baixo, os seguindo com os olhos e rosnados, enquanto eles se distanciam.

— Nos deixem em paz! Ofensas! — Os leões da multidão se alternam para bradar — Desgraças, atroz!

— Traidores nunca mais! — Bianka bate sua pata contra o chão.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — A voz grave de Obasi retorna, ainda mais decidida.

 — Vão embora agitadores! — Repetem Eshe e Bianka.

Os renegados são cercados pelas vozes de todos os leões, que seguem em constante marcha  — Trazem mal, trazem dor — harmonizam em alto e bom som. 

Belladonna, uma das aprendizes de Waganga, pula e tenta alcançar Ananda, que se encolhe.

— Cometeram traição — Kufuata, outro leão de Rivalon, tenta acertar Dhalimu, que recua para perto da parceira. 

— Pro seu lar fugirão — perto das bordas do reino, a multidão os acovarda cada vez mais —, mas não perdoaremos sem retribuição!

— Eles não são um de nós — os leões brandam em conjunto. — E jamais serão um de nós. Nunca foram um de nós, nem serão!

A marcha empurra Ananda e Dhalimu ainda mais para os limites do reino. Os dois sabiam que não poderiam se defender contra um grupo tão grande. — Quem matou um de nós, não mais voltará — continuam. — Pois, agora não há mais ninguém que vá acreditar que são um de nós.

— Pois, não são um de nós — Endra branda, a expressão da leoa mostrando decepção.

— Vergonhas — A mandíbula de Mufasa se cerra.

— Desgraças — Sarabi complementa, ao lado de Mufasa.

— Vergonhas — Scar sacode sua cabeça de um lado para o outro. 

— Desgraças — Kamilla continua, de sobrancelhas cerradas.

— Vergonhas — Hasi balança a cabeça negativamente, desviando o olhar enquanto assiste os pais fugirem.


[...]


As estrelas cobriam os céus de Anida como um véu de brasas frias, pintando a escuridão acima do reino com pontos brancos e cintilantes. A noite soprava uma brisa leve, carregando o cheiro das árvores e do rio distante.

Dentro da caverna, Udadisi se remexia sem conseguir encontrar descanso.

Desde o momento em que vira Amadi encurralar Wami e Wazi à beira dos arbustos, algo se retorcia em seu peito — um desconforto estranho, profundo, quase dolorido. Um sentimento que ele não reconhecia... e que não queria reconhecer.

Nunca se sentira assim antes.

Udadisi, pare quieto — Amadi resmungou, sonolenta, chutando o flanco do irmão enquanto se ajeitava sobre a pedra. — Preciso do meu sono da beleza.

O filhote soltou um grunhido baixo ao sentir o impacto e se levantou, estalando a língua, a paciência no limite. Marchou para fora da caverna sem dizer nada e se deitou sobre a rocha ainda morna, permitindo que a vastidão do céu o engolisse.

As estrelas observavam tudo.

Ele sempre defendera Amadi. Sempre rira junto. Sempre seguira o fluxo.

Então... por que agora aquilo parecia errado?

Você está estranho.

Udadisi virou a cabeça e encontrou Akili sentada à entrada da caverna, observando-o com atenção curiosa.

Pegou Febre da Girafa? — Ela provocou, aproximando-se e se sentando ao lado dele.

— Do que está falando? — Questionou, desviando o olhar para o céu.

— Você não está mais zombando de ninguém, nem fazendo piadas idiotas, nem usando o pronome errado com Kisai — Akili respondeu. — Não que eu esteja reclamando. Mas... o que houve?

Udadisi hesitou. Seus olhos se moveram até a boca da caverna, onde Wami e Wazi dormiam lado a lado, os corpos pequenos encostados um no outro.

Akili seguiu o olhar dele.

E então sorriu.

— Ah... entendi.

Ele não respondeu.

— Udadisi tem uma quedinha... — murmurou ela. — Mas por quem? Pela Wami?

Ele ficou em silêncio.

O sorriso de Akili cresceu, torto, como quem tivesse descoberto um segredo.

— Ou talvez... pela Wazi?

Udadisi virou-se de súbito.

— E daí que eu tenho uma quedinha por ela? — Bufou, cruzando as patas, o rosto quente sob o pelo. — Isso não é da sua conta!

Akili riu baixinho.

— É por isso que você anda tão quieto esses dias.

Ele não respondeu, apenas franziu a testa.

— Fique tranquilo — ela disse, se levantando. — Seu segredo está seguro comigo.

Akili voltou para dentro da caverna, deixando Udadisi sozinho sob o céu.