Endra caminhava de cabeça erguida.
Atrás dela, Laken seguia em silêncio, e logo atrás, as três filhotes pequenas tropeçavam nas próprias patas, curiosas demais para perceber os olhares desconfiados que os leões de Anida lançavam em sua direção.
O ar do reino parecia pesado.
A tensão era quase visível.
Endra não diminuiu o passo.
Quando alcançou a entrada da caverna real, ergueu o queixo e soltou um rugido curto, claro e firme — o chamado de uma princesa.
O som ecoou pela savana e não demorou para que o grupo de patrulha surgisse da floresta, com Habi e Thadi à frente.
— Endra, qual o significado disso? — perguntou Habi, já se aproximando, os olhos atentos.
Endra sorriu, tímida.
— Encontrei nosso forasteiro.
Ela se afastou um pouco, revelando Laken, agora deitado na relva, permitindo que uma das filhotes mordiscasse sua juba enquanto as outras exploravam suas patas.
— Laken e eu nos conhecemos quando ele morava em Wishar.
O leão se levantou e fez uma reverência exageradamente longa.
— Majestades — começou, teatral —, imploro que poupem a vida deste mísero nômade perdido e desamparado, cuja única culpa foi existir em vossas florestas magníficas.
Endra o encarou em choque.
Habi piscou.
Thadi pigarreou.
— Sua... vida está poupada — disse Habi, recuperando a compostura. — Afinal, não fez mal a ninguém aqui.
Laken relaxou visivelmente.
— Laken encontrou as filhotes perto da fronteira de Dugani — explicou Endra, a voz mais baixa. — A mãe estava morta.
Thadi e Habi trocaram um olhar curto.
— Tigres relataram um corpo de leoa — murmurou Thadi. — Desfigurado demais para ter sido obra de um leão.
Habi se voltou para Laken.
— Você e as filhotes são bem-vindos, ainda que temporariamente.
Laken inclinou a cabeça.
— Apenas alguns dias, majestade. A mãe delas era conhecida minha. Gostaria que ficassem sob os cuidados de uma leoa do reino.
Habi assentiu. — Cuidaremos disso.
Quando Thadi se afastou com a patrulha, o rosto de Habi perdeu o sorriso.
— Estamos todos no limite, Laken. E saber que meus filhos andaram falando com um forasteiro não ajudou.
Laken engoliu em seco.
— Endra, mostre-lhe o reino. Depois, traga-o de volta. Há coisas a discutir.
[…]
Depois de explicar sobre o reino, Endra deixou Laken com Habi. A rainha o pediu para acompanha-la em uma caminhada e Endra retornou para a caverna.
O silêncio entre Habi e Laken não era confortável.
Eles caminhavam lado a lado pelos limites da clareira, sem pressa, sem palavras, como dois predadores medindo o território um do outro. O vento soprava leve, atravessando a juba de Laken e fazendo algumas folhas secas dançarem sob seu queixo. Ele ergueu a cabeça por instinto, seguindo o movimento delas com o olhar, como se aquele detalhe simples fosse a única coisa que impedisse a tensão de esmagá-lo por completo.
Habi foi a primeira a falar.
— Temos nossos receios com forasteiros, Laken.
Sua voz era baixa. Controlada demais para ser natural.
— E como você sabe, todos os reinos têm regras. Estruturas. O que mantém o equilíbrio... e a paz.
Laken não discutiu.
Apenas inclinou levemente a cabeça.
— Sim, majestade. Eu sei.
Habi diminuiu o passo.
O mundo ao redor deles pareceu fazer o mesmo.
— Então espero que entenda — continuou ela, agora mais firme —, que eu não trato ameaças a Anida como algo trivial. Mkuu sabe quanto tempo você permaneceu escondido em nossa floresta. — Seus olhos vermelho-rubi encontraram os dele. — Ainda assim, estou lhe concedendo o benefício da dúvida.
Eles pararam.
À frente, alguns metros adiante, Adanna e Hakuwa observavam tudo em silêncio, atentos demais para filhotes, como se sentissem o peso daquela conversa mesmo sem compreender cada palavra.
Habi ergueu a pata na direção deles.
— Meus filhos me disseram que posso confiar em você.
Houve uma pausa curta. Densa.
— Por ora — ela acrescentou, estreitando o olhar —, meu julgamento está suspenso.
Laken respirou fundo, sentindo a sentença inteira se acomodar sobre seus ombros. Em seguida, fez uma reverência profunda, desta vez sem traço algum de teatro.
— Obrigado, majestade. Sua generosidade não será ignorada.
Habi sustentou o olhar por mais um instante.
Então assentiu.
[...]
Já faziam cinco dias desde que Majira e Vuli haviam partido.
As duas haviam se destacado nos treinamentos de Wonaji não apenas pela velocidade, mas pela disciplina e precisão. Não foi surpresa, portanto, quando Habi as promoveu a Mensageiras Reais e confiou a elas o primeiro anúncio oficial da visita dos reis de Anida à Rivalon.
O plano era simples e seguro.
Habi, Thadi e Endra organizavam os últimos detalhes da comitiva enquanto aguardavam o retorno das jovens. Laken seguiria como guarda-costas de Endra. Nyusi faria seu último voo oficial ao lado da rainha antes da aposentadoria. Kamilla viajaria como Conselheira Real. Askari protegeria os reis durante todo o percurso.
A jornada duraria três dias de ida e três de volta.
Ao amanhecer do sexto dia, Majira e Vuli deveriam estar de volta.
O amanhecer chegou.
Mas não como deveria.
Os primeiros raios de sol mal haviam tocado a caverna quando Habi despertou com o bater desesperado de asas e a voz estridente de Nyusi ecoando pela entrada da caverna.
— Majestade! Majestade!
O coração de Habi afundou antes mesmo que ela se levantasse.
Ela acordou Thadi com um toque urgente e correu para fora da caverna.
O que viu fez o mundo parecer se partir.
Vuli emergia da neblina da manhã cambaleando, coberta de sangue seco e poeira, o corpo de Majira arrastado sobre as próprias costas. Cada passo era uma luta. Cada respiração, um esforço visível.
— Vuli! — Habi rugiu, sua voz ecoando pelo reino inteiro, acordando todos os leões de Anida ao mesmo tempo.
A rainha disparou até a jovem.
— O que aconteceu?!
Habi tentou aliviar o peso, ajudando a erguer Majira, mas a adolescente finalmente cedeu, caindo na terra fria.
— F-foras... — Vuli tentou falar, a voz quebrada, os olhos perdidos. — Forasteiros... eles... Majira... ataque...
Antes que pudesse dizer mais, suas forças se esgotaram e ela caiu de lado, exausta.
Kinga surgiu atrás de Habi em segundos.
A curandeira avaliou as duas jovens com um único olhar e não perdeu tempo. Com cuidado, acomodou Vuli sobre as próprias costas.
— Para a caverna. Agora.
Não era um pedido.
Wonaji e Kamilla já se moviam, abrindo caminho, enquanto Habi erguia Majira com o máximo de cuidado que suas patas conseguiam oferecer.
O reino inteiro assistia em silêncio.
O ar estava pesado.
Algo havia cruzado a fronteira dos reinos naquela madrugada.
E não viera em paz.
[…]
A viagem a Rivalon foi oficialmente adiada.
Majira permanecia inconsciente.
Vuli, sempre que alguém tentava se aproximar do assunto, apenas balançava a cabeça, o olhar perdido, repetindo que haviam sido atacadas por quatro leões — e então o resto se dissolvia em silêncio, como se sua mente tivesse se recusado a seguir adiante.
O reino inteiro sentia o impacto.
Era a segunda madrugada desde o ataque quando o grito ecoou pela caverna das curandeiras.
Não era um grito comum.
Era cru. Desesperado. Cheio de ecos que pareciam vir de algum lugar onde o tempo não passava.
Majira despertou em pânico.
Seu corpo se contorcia, as patas arranhando a palha e a pedra, o peito subindo e descendo rápido demais, como se ainda estivesse correndo. Seus olhos estavam abertos, mas não enxergavam a caverna — viam a estrada, o ataque, o sangue, o peso do medo.
— Não! Não! Saiam! — ela gritava, a voz rasgando a madrugada.
Curandeiras se ergueram em sobressalto. Vuli acordou com o som e se encolheu no canto, tremendo.
Kinga foi a primeira a alcançá-la.
A leoa deslizou para o chão ao lado de Majira, firme, estável, como uma âncora no meio da tempestade.
— Majira, ei... ei... — sua voz era baixa, constante, segura. — Olhe pra mim. Você está em Anida. Está segura. Está comigo.
Os olhos da jovem finalmente a encontraram.
E então tudo desabou.
— E-eles... eles... — Majira começou a hiperventilar, o ar falhando em seus pulmões. — F-foi tão horrível...
Ela se lançou contra Kinga, enterrando o rosto em seu pelo, soluçando de um jeito que parecia vir do fundo do peito, do fundo da alma.
Kinga a envolveu imediatamente.
Uma pata firme em suas costas, a outra protegendo sua cabeça.
Ela começou a cantarolar — uma melodia antiga, suave, que as curandeiras usavam com filhotes feridos e mães em luto. Um canto sem palavras, feito de respiração, presença e promessa.
— Já passou. Seja lá o que aconteceu, não foi culpa sua. — murmurava, acompanhando o ritmo do coração da jovem. — Você sobreviveu. Você está aqui.
Do outro lado da caverna, Vuli chorava em silêncio, encolhida contra a parede.
Kinga estendeu o braço livre.
— Venha, minha linda.
Vuli não andou, praticamente se jogou nos braços da mais velha.
As duas adolescentes se agarraram a Kinga como se ela fosse a única coisa sólida naquele mundo quebrado.
— O monstro se foi... — Kinga sussurrou, apoiando a testa nas delas. — Ele fugiu. Kinga está aqui.
Os soluços diminuíram aos poucos.
O ar ficou mais leve.
O silêncio voltou, mas agora carregava algo diferente.
— Minhas lindas, lindas, lindas meninas...
E naquele momento, dentro da caverna das curandeiras, não havia reis, mensageiras ou reinos.
Havia apenas três corações feridos tentando aprender a bater de novo.
[…]
O céu começava a clarear.
Um tom de lilás se espalhava no horizonte, dissolvendo a noite em camadas de rosa e dourado. As estrelas mais teimosas ainda resistiam, presas ao escuro, enquanto o sol ensaiava seu retorno por trás das colinas de Anida.
Habi estava sentada sobre a pedra mais alta próxima à entrada da caverna.
Não dormira.
Não conseguira.
O vento da madrugada movia suavemente sua juba dourada, mas ela não parecia sentir o frio. Seus olhos rubros acompanhavam o nascer do sol sem realmente vê-lo — como se buscassem respostas no próprio céu.
Atrás dela, o reino acordava lentamente.
Mas Habi permanecia imóvel.
Majira.
Vuli.
O sangue.
O grito.
Ela respirou fundo.
As imagens insistiam em retornar, mesmo quando fechava os olhos. As duas adolescentes atravessando a fronteira sozinhas. O peso da responsabilidade. A decisão de tê-las enviado.
Eu devia ter ido.
Devia ter mandado alguém mais velho.
Devia…
O título de rainha não a protegia da culpa.
Ela baixou a cabeça.
Seus pensamentos a arrastaram para longe do presente — para os dias em que era apenas uma filha, uma irmã, uma leoa sem coroa. Para os tempos em que os erros não custavam sangue, nem deixavam marcas que não podiam ser apagadas.
O sol surgiu por completo.
Um disco quente e dourado tocando o rosto de Habi.
Ela ergueu o olhar outra vez.
— Me perdoem... — murmurou, para ninguém e para todos.
Para Majira.
Para Vuli.
Para si mesma.
Mas, por um momento, Habi permaneceu sozinha com sua culpa — uma rainha observando o nascer do sol, tentando aprender, mais uma vez, a carregar o peso do mundo sem quebrar.
[…]
Quando o sol subiu por completo e tocou as colinas de Anida, Habi enviou um falcão mensageiro aos céus.
As notícias trazidas pela ave do dia anterior eram inquietantes: em Rivalon, ninguém sabia de ataque algum.
Nenhum registro.
Nenhum boato.
Nenhuma presença de forasteiros.
A ausência de respostas pesava mais do que qualquer confirmação.
Ainda assim, a rainha manteve o curso da decisão.
A caravana real se organizava.
Thadi supervisionava os últimos preparativos, Askari verificava rotas e escoltas, Kinga cuidava de remédios e suprimentos, Nyusi se preparava para seu último voo oficial antes da aposentadoria.
Kamilla observava tudo de perto, o queixo erguido, como se cada movimento daquele grupo lhe pertencesse por direito — embora, para Habi, sua presença ali não passasse de cortesia política.
Endra, por sua vez, permanecia à margem da movimentação, respirando fundo.
Era a primeira vez que pisaria em Rivalon desde a infância.
O coração batia rápido.
Mas, como sua mãe lhe ensinara, Endra manteve a postura firme enquanto deixava a caverna.
"Uma princesa controla suas emoções, Endra."
A lembrança da voz de Fadhili apertou seu peito. Ela sentiu falta dos pais como uma ferida antiga que nunca cicatrizava por completo.
A morte deles ainda não fazia sentido. E, no fundo, uma parte de Endra suspeitava do que não ousava dizer em voz alta: seus tios sabiam mais do que admitiam.
— Endra?
A voz de Wonaji a puxou de volta ao presente.
A leoa mais velha aproximou-se, trazendo pendurada ao ombro a bolsa de pele de cobra entrelaçada por cipós — sinal de viagem longa e cuidadosa.
— Está na hora, querida. Está pronta?
Endra assentiu.
— Estou... só um pouco ansiosa. Faz tempo que não volto a Rivalon.
Wonaji sorriu, envolvendo os ombros da mais nova com um gesto protetor.
— A Rainha Nadia vai adorar revê-la. E quem sabe você não se dá bem com os adolescentes de lá? Ouvi dizer que os jovens de Rivalon são bastante encantadores.
Endra soltou uma risada nervosa.
Wonaji interpretou como simples ansiedade da viagem.
Endra preferiu não corrigir.
As duas desceram juntas pelo conjunto de pedras que levava à fronteira do reino, diminuindo o passo quando avistaram Habi e Thadi despedindo-se de Adanna e Hakuwa.
— Quem ficará no comando enquanto estivermos fora? — Endra perguntou, observando o vento brincar em sua juba.
— Kweli e eu — respondeu Wonaji, dando a bolsa de pele de cobra para Kinga. — Thadi retornará mais cedo. E quanto ao cargo de conselheiro real… Habi ainda não decidiu. Kamilla nos acompanha apenas por protocolo.
Endra compreendeu imediatamente.
À frente, o grupo já aguardava.
— Todos prontos? — perguntou Habi, erguendo o rosto ao vê-las se aproximarem.
Confirmações se espalharam pelo grupo.
Thadi inclinou-se e tocou a bochecha da rainha com uma lambida suave — um gesto simples, íntimo, que dizia tudo.
— Cuidaremos de tudo enquanto estiverem fora, tia Habi — disse Kweli, esfregando a testa na da rainha. — O reino está em boas patas. Kirafiki ajudará a manter a ordem.
Kirafiki confirmou com um aceno firme.
Wonaji abraçou Kinga com força antes de lançar um olhar silencioso para Askari — ele respondeu com um breve aceno, compreendendo mais do que palavras poderiam explicar.
Hakuwa e Adanna observavam tudo de perto.
— Vamos sentir saudades — murmurou Adanna, envolvendo a pata de Thadi. — Boa viagem.
— Voltaremos em breve, prometo — respondeu o rei, puxando os filhos para junto do peito.
Um pouco mais afastados, Elimu se agarrava à pata de Kinga.
— Eu queria ir com vocês...
— Eu sei, meu pequeno — sussurrou ela, encostando a testa na dele. — Mas você precisa descansar. A viagem é longa demais.
Elimu assentiu e foi se juntar aos outros filhotes.
Os filhos de Kamilla, por outro lado, não estavam ali.
E a ausência deles não passou despercebida.
[...]
A viagem até Rivalon fora longa, árdua — e, ainda assim, estranhamente recompensadora.
Quando os primeiros raios do sol do último dia tocaram as crinas cansadas dos viajantes, eles atravessaram a antiga ponte de pedra que marcava a fronteira entre os dois reinos. A névoa da manhã ainda se agarrava às rochas do vale abaixo, e o ar de Rivalon parecia mais frio, mais úmido, carregado de silêncio e expectativa.
Habi permitiu-se um sorriso cansado.
Nyusi, que descansava em seu ombro, bateu as asas uma vez e alçou voo em direção à caverna real, anunciando silenciosamente sua chegada.
O grupo avançou alguns passos além da ponte... e parou.
Não precisaram esperar muito.
Da relva clara surgiu uma leoa de pelagem pálida, marcada por tons marrons nas patas, o porte sereno e os olhos de um roxo profundo, antigos como o próprio reino. Atrás dela caminhava um leão de juba cobre, pelagem dourada manchada de negro, postura firme e vigilante — mais jovem, mas não menos respeitável.
— Habi — disse a leoa, inclinando a cabeça. — Você está tão linda, querida.
— Rainha Nadia — respondeu Habi, retribuindo a reverência.
Nadia aproximou-se e pousou as patas sobre os ombros da rainha de Anida antes de puxá-la para um abraço caloroso, prolongado, daqueles que dizem mais que qualquer protocolo.
— Os outros já estão chegando — anunciou Nadia, separando-se com um sorriso. — Sintam-se em casa. Nidijo, meu querido, poderia...
Antes que terminasse, o focinho de Nidijo se ergueu e um rugido ecoou pelo vale, anunciando formalmente a chegada do grupo de Anida.
Kamilla avançou.
— Rainha Nadia, é um prazer revê-la.
Nadia ofereceu-lhe um sorriso educado — o tipo que se dá por dever, não por afeto — e nada disse. Por mais gentil que fosse, Nadia reconhecia bajulação à distância. E Kamilla cheirava a ambição mal disfarçada.
— Trouxemos... alguém especial conosco — disse Habi, abrindo espaço.
Endra surgiu ao lado dela.
— Olá, tia Nadia — cumprimentou, com um sorriso tímido.
Os olhos de Nadia brilharam.
— Minha nossa... como você cresceu! — exclamou, correndo para abraçá-la. — E essa juba! Está absolutamente deslumbrante!
Endra riu, corando.
— Você me lisonjeia, tia Nadia. Ah... onde estão nossos modos? Tia Nadia, Nidijo, estes são Kinga, Askari e Laken.
Nidijo sorriu, cordial, acenando com a cabeça em reconhecimento.
— Sigam-nos. A reunião será ao entardecer.
O dia se arrastou entre recepções, cumprimentos e chegadas constantes de reis e rainhas de todos os cantos. Endra observava em silêncio — seus tios ainda não haviam aparecido. E, no fundo, ela preferia que assim continuasse.
Ao cair da tarde, sob um céu alaranjado, todos se reuniram na grande caverna de conselho.
Nidijo pigarreou e soltou um rugido solene.
— Obrigada, meu filho — disse Nadia, voltando-se à assembleia. — Agradeço a presença de todos.
Endra, sentada entre Thadi e Habi, mantinha o queixo erguido. Pinturas simples de tinta lilás marcavam seu rosto — símbolo de luto e dignidade em Wishar.
— Temos notícias... pouco satisfatórias — continuou Nadia. — Rainha Habi?
Habi avançou.
— Saudações a todos. Alguns dias atrás, a Princesa Endra, de Wishar, filha da falecida Rainha Fadhili e do falecido Rei Heshima, chegou a Anida.
O murmúrio espalhou-se.
— Fadhili e Heshima morreram?! — exclamou uma leoa de pelagem clara salpicada de marrom.
— Rainha Hadassah — cumprimentou Endra, aproximando-se. — Sim. Meus pais estão mortos.
Nadia ergueu a pata.
— Silêncio.
Endra respirou fundo.
— Ao invés de permitirem que eu ascendesse ao trono conforme a tradição, meus tios me exilaram. Desejam que meu primo, Hasi, seja coroado. E... tenho razões para acreditar que eles estejam envolvidos na morte de meus pais.
O peso daquelas palavras caiu como trovão.
— Wishar é conhecido por suas plantas medicinais — continuou Endra. — Entre elas, a Gloriosa Superba... extremamente venenosa.
Os olhares se enrijeceram.
— Isso é uma acusação muito séria, sobrinha querida — ecoou uma voz da entrada.
Ananda surgiu, seguida de Dhalimu e dois outros leões.
— Por que não nos conta exatamente o que aconteceu no dia do seu exílio?
[...]
Em Anida, a tensão não vivia apenas nos salões do conselho ou nos olhares silenciosos dos adultos. Ela também crescia entre patas pequenas.
Nos últimos dias, Amadi conseguira, com uma facilidade inquietante, se infiltrar no cotidiano dos príncipes e virar cada momento de descanso em algo amargo. Sem Kamilla por perto para exigir falsas boas maneiras, nem ela nem Udadisi se davam ao trabalho de esconder o veneno nas palavras.
Hakuwa acabara de sair do lago, a juba colada ao rosto, o corpo tremendo de frio e raiva, quando ouviu a voz dela.
— Ora, Hakuwa. Por que tão irritadinho?
Amadi observava da margem, o sorriso torto demais para ser inocente.
— Foi só um sustinho. Não acredito que você caiu nessa.
Hakuwa respondeu apenas com um olhar fulminante. Depois sacudiu o corpo com força, jogando água diretamente em Amadi.
Ela deu um pequeno salto para trás, rindo.
O dia tinha sido bom — até aquele momento.
Kiny, que observava de longe, parecia genuinamente confuso, sem perceber as pequenas armadilhas que os irmãos armavam. Para ele, Amadi e Udadisi ainda eram tão santos quanto a própria Mkuu.
— Por Mkuu. Hakuwa, o que aconteceu? — perguntou Kweli, aproximando-se com expressão preocupada.
Antes que Hakuwa abrisse a boca, Amadi se adiantou.
— Eu só fui perguntar quando ele estaria livre pra brincar — disse, agora com uma doçura falsa demais. — Ele se assustou e caiu no lago. Foi sem querer, juro.
Kweli franziu a testa, puxando o primo para junto de si.
— Está tudo bem, Amadi. Acontece.
E, sem dar espaço para resposta, levou Hakuwa para dentro da caverna, o pequeno corpo dele ainda tremendo sob o vento.
Na caverna, Kweli o acomodou ao lado de Kumi.
— Haku? — Kumi inclinou a cabeça, confuso. — O que houve?
Kweli se deitou e puxou o primo para o meio de suas patas, começando a secar a juba dele com a língua.
Hakuwa suspirou.
— Qual é o problema da Amadi? Tentamos incluir ela e os irmãos, mas ela sempre estraga tudo. Só Kiny brinca de verdade conosco.
Kweli ouviu em silêncio.
— Ela chegou de mansinho e gritou. Eu me assustei.
— Vai ver ela gosta de você — disse Kumi, rindo.
— Não é assim que se demonstra gostar de alguém — respondeu Kweli com um sorriso leve. — Só afasta.
Kumi franziu a testa.
— Então como se demonstra?
Kweli pensou por um momento.
— Quando você conhece bem alguém, como o tio Thadi e a tia Habi... dá pra ver nos olhos. Eles se olham como se o resto do mundo desaparecesse.
Hakuwa engoliu em seco.
— E quando você não conhece bem? Quando você sente primeiro?
Kumi ergueu as sobrancelhas.
— Está falando da Akili?
Hakuwa ficou vermelho.
— N-não!
Kweli riu.
— Você fica distraído, mais leve... suas pupilas dilatam. Seu olhar muda. Fica... macio.
— Pff — resmungou Kumi. — Isso é só se você presta atenção.
— Ei! — Protestou Hakuwa, arrancando risadas dos dois.
[...]
A caverna de Rivalon parecia pequena demais para conter todas aquelas vozes, olhares e histórias mal resolvidas.
O ar estava denso.
As palavras de Ananda ainda pairavam entre os pilares de pedra como fumaça venenosa.
Endra foi a primeira a se mover.
Seu olhar, antes contido, agora ardia.
— O que aconteceu com Chaga naquele dia não foi culpa minha.
A voz da princesa não saiu alta — saiu firme.
Cada palavra era uma pedra lançada no silêncio.
Dhalimu respondeu com um rosnado baixo, quase animal.
— E ainda assim ele quase perdeu a vida.
Endra deu um passo à frente, mas não chegou a responder.
Quem se adiantou foi o leão de pelagem mais clara, Hasi.
Ele se colocou entre Endra e os próprios pais, o corpo formando uma barreira clara, o queixo erguido.
— O exílio de Endra foi errado. Todos aqui sabem disso.
Chaga não deveria tê-la seguido — e vocês deveriam ter cuidado melhor dele.
Um murmúrio percorreu o conselho.
Ananda explodiu.
— Hasi, seu insolente!
A pata dela se ergueu no ar, garras parcialmente expostas, o gesto tão rápido quanto perigoso.
Metade da caverna se levantou num só movimento.
Mas antes que qualquer um reagisse, Nadia saltou da elevação.
A rainha pousou entre mãe e filho como uma muralha.
Seus olhos roxos não tremiam.
Desafiavam.
Ananda congelou.
A pata ficou suspensa por um segundo longo demais…
e então caiu.
— Vocês estão aqui como convidados, Ananda — disse Nadia, cada sílaba afiada como lâmina. — E se erguer sua pata novamente sob este teto, nenhum de nós será clemente.
Silêncio absoluto.
Nadia recuou, sem jamais desviar os olhos da leoa, e retornou à elevação, sentando-se ao lado de Nidijo.
— Faremos uma pausa — continuou. — Todos viajaram longas distâncias.
Quando as estrelas surgirem, retomaremos este conselho.