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sexta-feira, 20 de junho de 2025

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 8 – Artemísia Afra]

Os dias que se seguiram após a expulsão de Ananda e Dhalimu foram repletos de risos e conversas animadas, apesar da ligeira tensão perto de Endra e Hasi.

Os reis tinham tirado um tempo para socializar mais informalmente e se conhecerem melhor, em alguns casos.

Era claro para todos que Kiros e Obasi tinham uma certa inimizade, mas os dois mantinham conversas relativamente amistosas, principalmente quando suas esposas estavam por perto. 

Pelo que Habi havia descoberto, o filho de Kiros já era pai de duas adolescentes e uma filhote, que tinham ficado em casa junto com as outras leoas das Terras do Norte. 

Habi estranhou um príncipe que nem parecia ter amadurecido completamente ser pai, mas guardou as opiniões dela para si mesma.

Obasi, apesar de ser um rei conversador, deixava claro que era preguiçoso em suas ações. Eshe não parecia se importar muito com o comportamento do marido. A leoa sempre o encarava com carinho.

Os reis e rainhas se encontravam nas clareiras de Rivalon. As conversas eram animadas e inspiradoras e todos tiveram tempo para trocar histórias.

— Esperamos ver o Príncipe Malka em breve novamente, Eshe — Sarabi diz, sorrindo para a rainha das Terras do Sul. — Simba e os outros sentem falta dele.

— Visitaremos assim que possível, Sarabi — Eshe promete em resposta. — E quanto a você, Habi? Como estão as crianças?

— Ah, você sabe como Adanna e Hakuwa são — a rainha ri, gesticulando discretamente para as netas de Nadia, que brincavam com outros filhotes. — Sempre fazendo amizades onde quer que vão.


[...]


— Volte aqui, seu engomadinho! — Amadi grita, perseguindo Hakuwa pela relva alta da floresta. O rosto da filhote estava contorcido em uma expressão de raiva.

— Você mereceu dessa vez! — O filhote dourado grita em resposta, sem parar de correr.

Enquanto Hakuwa brincava com Akili e os outros, Amadi achou que seria divertido tentar assustar Akili saltando de um arbusto. O tiro saiu pela culatra quando Kisai a notou e chamou a atenção de Hakuwa, que se colocou na frente da filhote para impedi-la, fazendo Amadi dar de cara com o flanco dele e cair de costas no chão. 

Foi uma coisa simples, realmente. Amadi não tinha sofrido um arranhão sequer, mas se achou no direito de ficar com raiva da intervenção do príncipe e brigou com ele. 

Em resposta, Hakuwa esperou um momento oportuno e pisou com força na cauda de Amadi, que se pôs a persegui-lo pela floresta. 

Os outros filhotes tentaram acompanhar mas desistiram. Hakuwa era rápido, e a própria Amadi estava com dificuldade para acompanhá-lo.

Para Hakuwa, a perseguição não passava de uma mera brincadeira. Ele sabia que Amadi estava com raiva por estar com o ego e cauda feridos, mas não se importava.

Cada vez que Amadi parecia perto de alcança-lo, Hakuwa acelerava um pouco mais. A filhote de pelo claro estava se cansando e isso era óbvio. 

Com um sorriso vitorioso, Hakuwa usa a raíz curvada de uma árvore para fazer uma curva acentuada, usando as garras para derrapar no chão e continuar correndo.

Amadi tenta fazer o mesmo, mas tropeça em algo no caminho e perde o equilíbrio, caindo de cara no chão antes de rolar alguns metros. 

Hakuwa para de correr a tempo de ver a cena se desenrolar e, com um pequeno sorriso no rosto, se vira e corre na direção oposta, voltando para o clubinho da árvore. 

Quando Amadi para de rolar, solta um sibilo de dor e leva a pata à cabeca, notando o sangue escorrendo. Enquanto rolava, a filhote tinha atingido uma pedrinha que, por menor que fosse, era afiada e, com a velocidade da queda e impacto, abriu um pequeno rasgo em sua cabeça.

Amadi se levanta lentamente com a testa franzida de dor. A cabeça dela latejava onde a pedra a tinha cortado e ela solta um bufo de frustração. 

Ela marcha em direção à árvore de raíz curvada, procurando o que a fez tropeçar.

Ao notar o tufo de pelos de uma cauda saindo de uma moita, Amadi ergue a pata e dá uma bofetada na cauda, pensando ser Hakuwa que estava escondido.

A cauda é recolhida para dentro da moita imediatamente e um farfalhar breve revela um focinho canino e uma fileira de dentes pontudos.

A filhote recua, percebendo tarde demais que tinha acertado a cauda de uma hiena adulta.

— Ora, ora, o que temos aqui? — A hiena ri. 


[...]


Hakuwa volta para a entrada da floresta antes do que tinha esperado. O filhote estava ofegante, mas a corrida tinha valido a pena.

— Hakuwa, ficou maluco? — Adanna pergunta. A filhote tinha sido a primeira a notar o retorno do irmão e se aproximou com uma expressão brava. — Amadi poderia ter te machucado!

— Mas não machucou — o filhote retruca de forma desdenhosa. — Além disso, valeu a corrida. Eu faria tudo de novo. 

Adanna revira os olhos e encara o outro com o cenho franzido e uma sobrancelha arqueada. — Ué, onde está Amadi?

— Não é óbvio? — Wazi sorri debochada, se aproximando. — Ela ficou para trás. Não foi párea para a velocidade do Hakuwa.

— Ela tropeçou em alguma coisa floresta a dentro. Saiu rolando e caiu de cara no chão — Hakuwa explica, tentando – e falhando – segurar o riso.

— Como é? — Wami, que até então perseguia Sawa, indaga. A testa da menor estava franzida de preocupação. 

— É, ela saiu rolando e caiu de cara — Hakuwa solta uma risada. — Foi uma cena impagável, vocês tinham que ver!

— Hakuwa! — Akili repreende. — Deixou ela sozinha no meio da floresta?!

— Ué, foi ela que começou a me perseguir — o príncipe se defendeu, desviando o olhar.

— Porque você pisou na cauda dela — Kisai retruca, soltando um suspiro.

— E que culpa tenho eu? Não vou voltar para me desculpar — o dourado bufou em protesto. — Ela mereceu por tentar assustar Akili.

— Não para se desculpar, mas pelo menos para trazê-la de volta — Adanna explica. — Sei que ela é uma valentona, mas o senso de direção dela é no mínimo... questionável.

— Péssimo — Udadisi corrige, se aproximando. Já haviam alguns dias que o filhote estava se aproximando dos outros para brincar, trazendo Kiny junto consigo.

Adanna concorda com a cabeça ao ouvir Udadisi. — É o mínimo que você pode fazer depois de deixá-la para trás, Hakuwa.

Hakuwa inclina a cabeça para o céu e solta um suspiro irritado. — Está bem, está bem. Eu busco a encrenqueira. Mas só porquê Kira ficará preocupada se voltarmos sem ela. 


[...]


Amadi recuava em passos lentos. O corpo da filhote tremia e, apesar de esboçar uma expressão de corajosa, o medo era evidente em seus olhos.

O sorriso da hiena se alarga ao notar o tremor do corpo da menor. 

Amadi estava em desvantagem e sabia disso. A perseguição atrás de Hakuwa a deixou com pouca energia e qualquer movimento em falso a faria virar lanche de hiena.

— M-me desculpe — gaguejou, se praguejando mentalmente por parecer tão vulnerável na frente da predadora. — Eu não queria...

— Mas fez! — A hiena esbraveja, se aproximando da filhote. — Atingiu minha pobre cauda sem nenhum pudor, sua malditinha!

Amadi se encolhe com o tom ríspido da hiena. Os olhos da pequena fitam o chão e ela engole em seco. Podia sentir seu coração disparando a cada segundo que passava, como se fosse sair pela boca. 

— Vou usar seus ossinhos para palitar meus dentes! — A hiena late, avançando para cima de Amadi. 

A filhote, em resposta, se põe a correr em disparada pela floresta, passando por galhos baixos e arbustos numa tentativa falha de escapar.

Apesar de cansada, a adrenalina de Amadi falava mais alto, bombeando o sangue em suas veias com mais rapidez. 

A visão da pequena começava a escurecer conforme ela corria e, usando a adrenalina, Amadi sobe um pequeno amontoado de rochas, sentindo a hiena em seu encalço.

(Imagem de minha autoria, não use sem permissão)

Eventualmente, ao ganhar mais distância da hiena, algo a puxou para o tronco oco de uma árvore. A filhote não tem tempo de gritar pois uma pata cobre sua boca. 

— Shh, fique quieta — uma voz sussurra no ouvido de Amadi. 

Os olhos da filhote se alargam ao notar quem era e logo se estreitam de raiva. 

Era tudo culpa desse engomadinho!

Amadi começa a se debater para se soltar, soltando bufos e protestos abafados. 

Hakuwa revira os olhos, destampando a boca da filhote.

— Quer virar comida de hiena? — O príncipe pergunta, claramente irritado. — Se não fosse por mim, você teria caído de novo, dessa vez de cara nas rochas que escalou.

Amadi estremece. Com a adrenalina, a filhote tinha se esquecido momentaneamente do corte em sua cabeça e agora que o efeito estava passando, a dor que a consumia antes voltara dez vezes pior.

— Isso não teria acontecido se você não tivesse pisado em minha cauda — resmungou, franzindo a testa e levando a pata até seu corte. — É tudo culpa sua!

— É, é, que seja — Hakuwa revira os olhos. — Escute, se quisermos sair daqui vivos, vai ter que fazer o que eu mandar. Vou distrair a hiena e você foge.

— Não vou seguir ordens de um engomadinho qualquer — Amadi protesta. 

Hakuwa solta um rosnado baixo, levando a pata ao corte na cabeça da outra filhote e a pressionando contra o sangue. 

Amadi sibila de dor, se afastando do toque de Hakuwa como se brasas tocassem sua pele.

— O que pensa que está... — a frase se prende em sua garganta ao ver o filhote passar o sangue de sua ferida em seu corpo.

— A essa altura, a carniceira já decorou seu cheiro por causa do machucado — Hakuwa explica, focando na tarefa em suas patas. — Sou mais rápido que você, vou distraí-la para você ganhar tempo e fugir. Siga a claridade nas copas das árvores, vai encontrar a entrada da floresta e fugir com os outros.

Amadi abre a boca para protestar, mas Hakuwa a corta.

— Não acredito que estou fazendo isso — resmungou —, mas como príncipe e futuro rei, estou ordenando que você cale a boca e me deixe te ajudar.

Os olhos de Amadi se alargam e o rosto dela se contorce em uma carranca de raiva antes de ela relutantemente concordar com a cabeça.

— Está bem — murmurou num tom baixo.

— Ótimo — Hakuwa abre um sorrisinho, espiando pela fresta do tronco em busca da hiena. — A barra está limpa. Espere ela sair atrás de mim pra você correr. 

Hakuwa hesita antes de sair lentamente do tronco. 

O pequeno foi esperto ao esfregar o sangue de Amadi pelo corpo, manchando alguns pontos em sua pelagem para se esfregar contra folhas, galhos e raízes. 

Não demora muito para Amadi ver a hiena correr de volta para a área, farejando enquanto procurava Hakuwa, que tinha se escondido em arbustos densos e espinhosos. 

— É medo ou coragem que te motiva, malditinha? — A hiena branda, sua risada maldosa ecoando pela floresta. 

Aproveitando a distração da carniceira, Amadi sai lentamente do tronco. A hiena não a percebe, se aproximando cada vez mais do esconderijo de Hakuwa.

O focinho dela adentra o arbusto lentamente, seus dentes afiados a postos para estraçalhar quem ela pensava ser a filhote. 

Ao invés de morder a carne macia de Hakuwa, no entanto, a hiena acaba mordendo um dos galhos espinhosos que Hakuwa moveu e soltando um ganido de dor. 

É a brecha que Hakuwa precisava para disparar do arbusto, correndo na direção oposta da hiena, que começa a persegui-lo. O filhote usava a folhagem como cobertura, ocultando sua pelagem dourada da vista da carniceira.

Amadi observa por alguns segundos antes de começar a correr de volta para a entrada da floresta, quase trombando com Kisai no processo. 

— Amadi? — A filhote escura pergunta, com sua sobrancelha arqueando. — O que aconteceu? Onde está...

— Vamos, seus imbecis! — A filhote manda, empurrando Kisai com a cabeça, quase sibilando de dor devido ao corte. — Hakuwa está distraindo a hiena, temos que voltar para o reino agora!

Kisai tenta protestar, mas acaba se deixando ser empurrada por Amadi por poucos segundos antes de se afastar da filhote para guiar os outros para a entrada da floresta. 

Os outros filhotes encaram Amadi confusos antes de obedecerem, seguindo-a para fora da floresta. 

Quando todos passam o pequeno riacho que divide a floresta do reino, Hakuwa sai da floresta. 

— Vamos, vamos — o filhote apressou os outros, que notaram a pelagem dele molhada de água e resquícios de sangue. — Eu consegui atrair ela para longe, mas é melhor corrermos.

Os filhotes ouvem, não querendo ficar para trás e encarar a fúria da hiena. A entrada da floresta tinha ficado estranhamente quieta de repente, mas os filhotes continuaram a correr de volta ao reino sem olhar para trás.


[...]


Os filhotes chegam a escadaria da caverna cansados e ofegantes, mas rindo e brincando entre si. Era claro que a única que tinha ficado incomodada com a situação foi Amadi.

— Isso é tudo culpa sua, engomadinho! — A filhote clara repreendeu, se virando para encarar Hakuwa com raiva. — O que estava pensando ao pisar em minha cauda, hein?!

Hakuwa revira os olhos e torce o focinho. — Você reclama de tudo, Amadi.

— Reclamo quando estou certa — Amadi se defende, batendo a pata dianteira no chão. — Ficou maluco? Não só você me colocou em perigo, como também colocou aos outros!

— Você se colocou em perigo sozinha, Amadi — Hakuwa torce o focinho novamente. — Você que irritou aquela carniceira! Eu poderia ter te deixado sozinha lá atrás!

— Pela primeira vez, concordo com ele, Ama — Udadisi se intromete, franzindo o cenho. 

— Está do lado... — antes que Amadi possa terminar a frase, Udadisi a corta.

— Não comece com isso, Amadi! Pôs em perigo todos nós ao atrair uma hiena! — O filhote exclama.

Amadi se encolhe com o tom ríspido de Udadisi. O filhote nunca tinha falado assim com ela.

— Não foi minha culpa! — A filhote esbraveja, mostrando os dentes para o irmão. — Se o engomadinho não tivesse...

— Você não tinha que tentar assustar Akili, muito menos perseguir ele, Amadi! — Udadisi a interrompe novamente. — Eu disse que não tinha motivos pra isso, mas você nunca me escuta, não é?!

— Udadisi... — Akili põe a pata no ombro do filhote numa falha tentativa de acalmá-lo, mas ele a ignora, afastando a pata dela de seu ombro.

— Não, já chega disso! — Esbravejou ele. — Desde que viemos pra Anida, você só sabe julgar e criticar os outros e eu estou farto disso. Kiny e eu estamos! É ridículo, Amadi! 

Amadi se encolhe ainda mais. Já tinha visto Udadisi bravo, mas isso era novo. Ainda assim, a filhote se recusava a recuar.

— Ah, eu sabia que deixar você andar com os engomadinhos e as aberrações iria fazer você sofrer lavagem cerebral! — Amadi esbraveja, dando um passo ameaçador na direção do irmão. — E tudo por causa de uma quedinha idiota!


[...]


Os primeiros raios da tarde estavam adornando Rivalon, pintando os céus em tons de laranja, vermelho e amarelo.

Askari fazia uma caminhada pelo reino. 

O leão estava sentindo cheiros familiares e pequenos flashes de memória invadiam sua mente. 

Pelo que ele tinha conseguido entender de suas memórias embaralhadas, ele e Wonaji tiveram alguma coisa. Um relacionamento, talvez. 

Os cheiros familiares ajudavam com sua memória falha, e aquela anciã, Waganga, parecia conhecê-lo também. 

Askari se aproximava da caverna, a testa do leão franzida enquanto ele estava em pensamento profundo. 

— Memórias são tão complicadas, não são, jovem? — Uma voz feminina pergunta. 

Askari ergue os olhos, fitando, no alto da escadaria rochosa, a anciã. 

Ela o encarava com certo divertimento, como se soubesse de algo que Askari não sabia. 

A testa de Askari se franze mais. 

— Cuidado, cuidado. Sua testa vai rachar assim e seu rosto vai congelar em uma carranca permanente — a mais velha brincou, descendo a escadaria para ir de encontro ao macho. — Pode ajudar uma velha leoa a colher algumas plantas?

Waganga não espera Askari falar, gentilmente o empurrando com o ombro para segui-la escadaria a baixo.

Ele a segue a contragosto.

Os dois caminham em um silêncio confortável por alguns minutos, os únicos sons sendo o piar dos pássaros, o vento batendo nas folhas das árvores e arbustos e o cantarolar ocasional da anciã. 

— O quanto... você se lembra? — Waganga perguntou de repente, parando e se inclinando para farejar alguns arbustos de Artemísia Afra.

Askari, atônito com a pergunta repentina, arqueia a sobrancelha. — O que?

— Eu fui chamada para seu tratamento muitas luas atrás, quando você ainda estava inconsciente, jovem — ela responde, usando as patas dianteiras para escolher algumas flores.

Askari inclina a cabeça para o lado, só agora notando a bolsa de folhas e cipós ao redor do pescoço da mais velha.

— Você... estava lá? — Questionou, seus olhos verde esmeralda encarando a leoa com confusão. 

— Se eu estava lá? — Waganga solta uma risada baixa, pegando as flores com sua boca e abrindo a bolsa para colocá-las dentro. — Realmente não se lembra, hm?

A cabeça de Askari começa a doer. Um leve latejar que o faz sibilar e se encolher involuntariamente. 

— Não se preocupe — Waganga assegura —, as dores de cabeça são suas memórias voltando aos poucos. 

Mas isso não parecia 'aos poucos'.

— Seu... seu cheiro... — o leão franze a testa, balançando a cabeça num movimento rápido, como se estivesse com tontura.

— As paredes cavernas das curandeiras de Butsara são adornadas com minérios — a mais velha explica com um sorriso pequeno em seus lábios. — Diamantes, ouro, cobalto... Esses são só alguns deles. Além disso — ergueu o pescoço e ali, escondido entre os tufos grossos da pelagem da garganta de Waganga, estava um colar simples de cipó com uma pedra azul entre duas presas, arrancadas de algum carnívoro —, eu sempre carrego um pedaço de casa comigo.

O focinho de Askari se torce. 

— Eu... me lembro desse cheiro — resmungou o macho. 

— Sabe, Juba de Ônix — Waganga solta uma risada baixa, pegando mais algumas flores de Artemísia Afra —, sua mãe tinha muito potencial como curandeira. 

— Minha... mãe? 

— Mhm. Era boa com plantas, mas tinha uma cabeça dura... Um amor de leoa, realmente — Waganga entrega o punhado mais recente de flores para Askari. — Aqui. Para a dor de cabeça. 

O leão hesita antes de pegar as flores com a boca, agradecendo com a cabeça. Antes que pudesse fazer mais alguma pergunta para Waganga, ela já estava sumindo por entre a relva alta. 

Que leoa mais... peculiar.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 7 – A Decisão do Conselho]

Após as palavras de Nadia, a tensão que pesava sobre a caverna começou, lentamente, a se dissipar.

O Conselho se fragmentou em pequenos núcleos: leões que não se viam havia luas se levantaram para se cumprimentar, trocar murmúrios, medir uns aos outros com olhares atentos. O peso da acusação ainda pairava no ar, mas agora dividido entre muitos.

Hasi foi rápido em se virar, atravessando o espaço até Endra e puxando a prima para um abraço firme, quase desesperado.

— Você perdeu o juízo de vir até aqui? — Sussurrou, num tom carregado de preocupação.

— Ora essa, Hasi — Endra retrucou, soltando um riso baixo. — Eu devia estar te perguntando o mesmo. O que veio fazer aqui?

— Tecnicamente... agora faço parte do Conselho — respondeu ele, com uma careta. — Depois que mamãe e papai te exilaram, passaram a encher meus ouvidos sobre o que eu devia ou não fazer.

Hasi suspirou, irritado, e fez um gesto breve com a cabeça.

— Mandaram o coitado do Rahim me escoltar até aqui.

Endra acompanhou o gesto e reconheceu o leão de pelagem escura, que observava tudo à distância, atento demais para alguém que supostamente só “acompanhava”. Ela assentiu em silêncio. Conhecia bem a teimosia de Ananda e Dhalimu.

Então seus olhos se iluminaram.

— Hasi, quero que conheça alguém.

Ela o puxou na direção de Habi e Thadi, que conversavam com um leão dourado de juba vermelha, sua parceira, e um leão alaranjado de juba negra, visivelmente carrancudo.

— Tia Habi — anunciou Endra —, esse é meu primo, príncipe Hasi.

Habi se virou ao ouvir a voz da princesa.

— Endra, querida — disse com um sorriso diplomático, inclinando a cabeça para Hasi, que retribuiu o gesto. — Juntem-se a nós. Sarabi e Mufasa estavam nos contando algumas peripécias de seu filho.

— Peripécias? — Endra arqueou uma sobrancelha, lançando um olhar divertido para Hasi. — Ele me lembra alguém...

— Nosso pequeno Simba — Sarabi riu com suavidade. — Está crescendo rápido demais.

— Está fazendo um bom trabalho — resmungou o leão de juba negra, entediado. — A bolinha peluda cresce como deveria.

— Você me dá crédito demais, Scar — Sarabi respondeu, revirando os olhos, mas sorrindo.

— Apenas onde é necessário — Scar replicou, levantando-se. — Com licença. Tenho assuntos a resolver.

Os seis o observaram se afastar.

— Que bicho mordeu ele? — Endra murmurou.

— Não se preocupe — Mufasa disse com um sorriso curto. — Tak- Scar sempre fica de mau humor sem comer. Nem sempre foi assim.

Hasi e Endra trocaram um olhar rápido com a correção quase imperceptível, mas nada comentaram.


[...]


Quando as primeiras estrelas começaram a surgir, Nadia rugiu, chamando o Conselho de volta à ordem. Os leões retornaram às suas posições, e ela se sentou ao lado de Nidijo na elevação rochosa.

— Habi. Endra. Prossigam.

Habi se levantou.

— O Conselho não foi reunido apenas para buscar justiça para a Princesa Endra — disse, com a testa franzida. — Há algo mais grave em jogo.

O murmúrio cresceu, inquieto.

— Duas mensageiras de Anida foram atacadas a caminho de Rivalon — continuou, cortando o som com a voz firme. — Duas adolescentes.

A caverna ferveu. Acusações cruzaram o ar, vozes se elevaram, palavras duras ecoaram nas paredes de pedra.

— Ordem! — Nadia exigiu.

Em resposta, um rugido profundo, poderoso, cortou o caos.

Todos os olhares se voltaram para uma leoa de pelagem negra como a noite e olhos vermelhos, ardentes.

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

— A Rainha pediu silêncio — disse ela, a voz grave e ritmada. — E silêncio haverá.

Alguns leões se entreolharam, confusos com o sotaque.

— Façam o que a moça gigante diz — comentou uma voz envelhecida e divertida.

Uma leoa idosa entrou na caverna com passos lentos, seguida por duas mais jovens.

— Ela tem um rugido respeitável, não tem?

Os leões se curvaram em respeito.

— Vovó! — Kinga correu para abraçá-la.

— Vocês, jovens, sempre apressados — Waganga ralhou, sorrindo. — Começar Conselho sem os mais velhos... que ousadia.

Então o sorriso se apagou.

— A morte caminha entre os reinos — anunciou. — Uma sombra espessa, que apodrece o ar.

Dhalimu zombou.

— Outra visão de suas aprendizes?

Os olhos de Waganga se estreitaram.

— Ananda lhe dá voz demais para um rei consorte. Vocês fedem a sangue inocente.

O gelo caiu sobre Ananda e Dhalimu.

— Patéticos — Waganga prosseguiu. — Mal enterraram Fadhili e Heshima, e já expulsaram a herdeira legítima. Patéticos, eu digo!

— Ela está certa — Hasi declarou, avançando. — O que meus pais fizeram foi injusto.

Chaga se aventurara no exílio por conta própria naquele dia — ele mesmo confessara isso a Hasi mais tarde.

E, por pura negligência e incompetência de Ananda e Dhalimu, o filhote fora picado por uma aranha peçonhenta.

Quando Endra ouvira o grito agoniado do primo caçula, não pensara — apenas correra.

Carregara Chaga nas costas até as curandeiras, sentindo o veneno já endurecer seus músculos, a respiração dele falhando sob seu ouvido.

Se a princesa não estivesse ali, o destino do filhote teria sido fatal. Chaga sempre fora imprudente, sempre vagando sem rumo, e dessa vez isso quase lhe custara a vida.

— O garoto fala com sabedoria — disse Waganga, agora com a voz tomada por um peso mais profundo. — E temos, diante de nós, dois dilemas. Dois caminhos definitivos.

A anciã voltou-se para Endra e lhe ofereceu um sorriso suave, quase maternal.

— Minha querida, por mais brusca que tenha sido a decisão de teus tios, ainda te cabe escolher. Seu sangue é real.

Um coro de rugidos percorreu a caverna.

Nadia então se ergueu.

— Princesa Endra de Wishar, filha da finada Rainha Fadhili e do finado Rei Heshima — chamou, convidando-a a avançar. — Seu sangue lhe concede o direito de governar... ou de abdicar.

Endra assentiu. Já sabia o peso daquelas palavras.

— O Conselho lhe oferece duas escolhas — continuou Nadia, erguendo ambas as patas como quem pesa destinos. — Permanecer no trono de Wishar... ou passá-lo ao próximo na linha de sucessão: o Príncipe Hasi.

— O Conselho não tem esse direito! — Rosnou Dhalimu, avançando um passo.

— Tem, se a decisão de um reino for injusta — respondeu Endra, firme. — E se este Conselho me julga digna de escolha, então nem você, nem eu podemos negá-la.

Dhalimu rosnou e Ananda o puxou para trás.

Endra respirou fundo.

— Eu, Princesa Endra de Wishar — declarou, erguendo o queixo —, abdico do trono e o entrego ao Príncipe Hasi. Salve o Príncipe!

Sua pata bateu no chão com um rugido que ecoou pelas pedras.

O Conselho explodiu em aclamação.

Hasi, Ananda e Dhalimu apenas a encaravam — atônitos.

Ananda avançou.

— Você tem noção do que fez?!

— Você me queria fora de Wishar — sibilou Endra. — Hasi é o futuro do reino.

— Sua pirralha ingrata! — Gritou Ananda.

Pela primeira vez, Endra recuou um passo.

— Eu não envenenei minha irmã para isso! — Rugiu Ananda, as garras expostas. — Eu devia ser a sucessora!

O mundo silenciou.

Os olhos de Ananda se arregalaram tarde demais.

Rahim saltou, segurando-a pela nuca antes que ela alcançasse Endra. Dhalimu tentou avançar, mas Thadi bloqueou seu caminho.

— Mais um passo — rosnou o rei de Anida —, e você não sairá vivo daqui.

Endra não ouvia mais nada.

O passado colidia com o presente.

A doença súbita dos pais.
A agonia.
O cheiro das ervas.

Gloriosa Superba.

A verdade sempre estivera ali.

Endra rugiu — um som tão profundo que cortou o ar.

Avançou.

— O que você fez, Ananda?! — Endra gritou, ignorando o honorífico outrora respeitoso.

Rahim soltou a leoa, que caiu pesadamente no chão.

— É verdade, mãe? — A voz de Hasi quebrou. — Envenenou meus tios?

O silêncio pesava como pedra.

— Eu... sim — respondeu Ananda.

A caverna explodiu.

Endra pulou sobre ela.

— Assassina!

— Me matar não os trará de volta — zombou Ananda. — Ainda sou rainha.

— Não por muito tempo — disse Waganga.

Nadia ergueu-se.

— Ananda, seus crimes são puníveis com a morte. Mas por respeito a Hasi e Chaga, decretamos banimento do Conselho e dos reinos aliados até que Hasi assuma o trono.

Os outros reis murmuram em concordância.

— Esta decisão será tomada por votação. Se qualquer reino se opuser, Ananda e Dhalimu permanecerão no Conselho. Caso contrário, estarão banidos não apenas do Conselho, mas de todos os reinos que o compõem. Apenas o Príncipe Hasi poderá representar Wishar em futuras reuniões. — Nidijo ergueu a voz, firme, ocupando o espaço que sua mãe lhe concedia.

O olhar do leão então recaiu sobre Habi e Thadi.

— Rainha Habi e Rei Thadi, de Anida. Qual é a posição de seu reino?

Habi colocou a pata sobre o ombro de Endra, puxando-a suavemente para longe de Ananda, que ainda rosnava ao se erguer do chão.

— Anida vota a favor do banimento — declarou a rainha, a voz estável e carregada de convicção. — Fadhili e Heshima eram amigos queridos. Endra precisou atravessar terras perigosas para nos trazer a notícia de sua morte. Não podemos permitir que isso seja esquecido.

Thadi confirmou com a cabeça, mantendo-se firme entre Dhalimu e a assembleia.

Nidijo assentiu e voltou-se para os próximos.

— Rei Sahasí e Rainha Anaanda, da Árvore da Vida?

Os dois trocaram um breve olhar. A rainha pousou a pata sobre a do companheiro.

— A favor do banimento — respondeu Sahasí, com voz grave.

— Rainha Hadassah e Rei Mtawala, de Butsara?

Mtawala inclinou levemente a cabeça.

— Banimento. — E então, olhando para Habi e Endra: — Têm todo o nosso apoio, irmã. E você também, princesa.

Hadassah esfregou a face na do marido e confirmou em silêncio.

O semblante de Nidijo suavizou por um instante antes de voltar-se ao casal seguinte.

— Rainha Ariana e Rei Wiba, de Dugani?

Houve uma breve hesitação. Ariana pigarreou, os olhos verdes marcados por cansaço.

— Estamos... de acordo com o banimento.

O alívio atravessou o rosto de Nidijo.

— Rei Aeris e Rainha Yasu, do Reino das Rochas?

O casal se separou do afago lento que trocavam. 

— A favor. O que Ananda fez viola todas as leis entre os reinos. Se desejava o trono, deveria ter desafiado a irmã, não envenenado sua família — Aeris respondeu.

— Uma covardia fria — completou Yasu, sem vacilar. — Mantemos nossa decisão: banimento.

Nidijo então voltou-se para um grupo mais afastado.

— Rei Kiros e Rainha Bianka, das Terras do Norte?

Kiros ergueu a cabeça, os olhos vermelhos como brasas.

— A favor.

Poucas palavras e nenhuma dúvida. Seu filho, Shaju, observava tudo com um sorriso torto que não passou despercebido por Nidijo.

— Rei Mufasa, Rainha Sarabi e Príncipe Scar, das Terras do Reino?

— Sim — respondeu Mufasa. — Tal ato de covardia não pode ser ignorado.

— Se fizeram isso com o próprio sangue, poderiam fazer com qualquer um — acrescentou Scar, os olhos verdes estreitos. — Inclusive com a Princesa Endra.

Por fim, Nidijo voltou-se ao último casal.

— Rei Obasi e Rainha Eshe.

Obasi se levantou lentamente.

— Estamos a favor.

— Quem ataca a própria família não hesitará diante de filhotes inocentes — completou Eshe, a voz tomada de preocupação sincera.

O silêncio caiu.

Todos os olhares então se voltaram para Hasi.

O destino de Wishar agora repousava apenas em suas patas.


[...]


O mato alto se agitava sob a brisa quando o grito de Wami cortou o ar.

— Kisai já mandou nos deixar em paz, Amadi!

A filhote se colocou na frente da irmã, as patas abertas em proteção enquanto Wazi se encolhia atrás dela, cobrindo a cabeça com as patas dianteiras.

Amadi inclinou a cabeça, um sorriso torto se abrindo em seu focinho.

— É mesmo? Que curioso... — ela avançou um passo, usando a própria altura para pressioná-las. — Não estou vendo ele por aqui.

Wami e Wazi recuaram instintivamente. O tom, mais do que as palavras, as atingiu.

Amadi abriu a boca para continuar, mas o impacto veio primeiro.

Hasa surgiu como um raio e a empurrou com força. A filhote rolou alguns metros pelo chão, levantando-se logo em seguida, sacudindo a poeira e rosnando.

— Por que não enfrenta alguém do seu tamanho, sua fedelha? — Hasa avançou um passo, as garras à mostra.

Amadi respondeu com um rosnado baixo, prestes a atacar, quando os arbustos ao redor se moveram.

Walimu e Kami emergiram da vegetação, ambos com o olhar duro cravado nela.

— O quê? — Amadi zombou, o queixo erguido. — Trouxe sua cavalaria, Hasa? Mas que covarde...

— Se alguém é covarde aqui, é você — Kami rebateu, a testa franzida de desgosto. — Intimidando filhotes menores só por diversão? Eu esperava isso de Udadisi, não de você.

O focinho de Amadi se contraiu.

— Fique fora disso, sem orgulho — sibilou, recuando. — Ou sua irmã não vai ser a única a apanhar.

Ela virou-se para ir embora, mas lançou uma última farpa:

— Mais cedo ou mais tarde, Habi e Thadi vão cansar da sua família. E quando isso acontecer, vão voltar para o nada de onde vieram... para seus hábitos nômades. Vocês não passam de aberrações e mais bocas para alimentar.

O silêncio que ficou atrás dela era pesado.

As palavras tinham sido mais afiadas que qualquer garra.

Kami respirou fundo antes de se aproximar de Wami e Wazi, o sorriso que tentou oferecer era tenso e cuidadoso.

— Vocês estão bem?

Mais afastado, entre as sombras das árvores, Udadisi observava tudo.

A testa franzida, o nariz torto, os olhos presos nas gêmeas.

Dentro dele, algo se retorcia.

Um sentimento estranho.
Novo.
E impossível de ignorar.

Que sentimento estranho era esse?


[...]


Hasi engoliu em seco.

O peso do mundo parecia repousar inteiro sobre suas patas.

Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo... e então deu o passo que jamais poderia ser desfeito.

Eu, Príncipe Hasi, de Wishar — começou, a voz firme apesar da tensão que queimava em seu peito —, apoio a decisão do Conselho de banir meus pais.

Um rugido coletivo ecoou pela caverna.

A aprovação vibrava nas rochas, mas Hasi ergueu a pata, pedindo silêncio.

No entanto — continuou —, não posso assumir um trono banhado em sangue. Não seria correto. E meus tios jamais aceitariam isso.

— Hasi... o que você está fazendo? — a voz de Endra saiu trêmula.

Ele lhe lançou um sorriso suave, cheio de despedida, e voltou-se para Nadia e Nidijo.

Eu renuncio ao trono de Wishar. E quando Chaga tiver idade suficiente, o trono será dele.

O mundo pareceu parar.

Dhalimu avançou num ímpeto furioso, esbarrando em Thadi ao passar.

Mas não chegou até Endra.

Laken surgiu diante dela como uma muralha viva.

— Saia da frente, aberração — Dhalimu sibilou.

— Quero ver tentar, desgarrado invasor — Laken respondeu, baixo, mortal.

Rahim interveio antes que a explosão acontecesse.

Já chega! — A voz de Endra cortou o ar.

Ananda rugiu, os olhos em brasa.

— Seus pais teriam vergonha de você!

Não — Endra cuspiu. — Teriam vergonha de você!

— Eu teria feito tudo de novo! — Ananda gritou. — A morte deles é culpa sua!

O silêncio caiu como neve. Endra fecha os olhos e respira fundo. 

— Não é culpa minha, Ananda, e você não vai mudar a narrativa da história — a mais nova declara, se afastando da tia. 

(Dêem play no vídeo, se der erro podem avisar ^^)


— Sua culpa não encaixa mais em mim, o seu medo não funciona mais em mim — Endra encara Ananda com um olhar determinado. — Eu larguei esse conceito, agora enfim, eu vivo o paraíso.

Os leões ao redor batem suas patas no chão, acompanhando o ritmo da voz da princesa.

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — continuou —, eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim!

A voz de Endra carregava todas as emoções não ditas por ela: raiva, remorso, frustração, tristeza. Era um misto difícil de ignorar.

— Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' — Ela canta depois de uma pausa breve. — Mas eu entendo que isso não sou eu.

As leoas harmonizam com Endra, as vozes dela ecoando suavemente pelas rochas da caverna.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal — a pata de Endra passa pela juba dela, seus dedos dando um leve puxão na pelagem —, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar.

Com um olhar determinado, a princesa marcha até Ananda, parando na frente da mais velha.

— Esse medo que tu sente, eu não sinto — brandou, sorrindo determinada —, agora eu sei o que é mesmo o livre arbítrio. Fazer o bem porquê é certo, já que eu vou mesmo pro inferno!

Ananda rosna, mas Endra se afasta antes que a leoa possa tomar alguma atitude drástica. 

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — a pata de Endra bate no chão e Nidijo faz um gesto leve com a cabeça, convidando Endra para subir a elevação. — Eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim — Endra sorri agradecida para Nidijo e sobe o amontoado de pedras, parando ao lado de Nadia. — Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' Mas eu entendo que isso não sou eu!

Os machos começam a bater as patas no chão, soltando rugidos guturais e graves.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar — o cântico das leoas fica mais alto e os leões começam a harmonizar com elas. — Ah, ah. Ah, ah. Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?', mas eu entendo que isso não sou eu. 

A harmonização das leoas se cessa e elas batem as patas no chão. 

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar. Ah, ah. Ah, ah — Nadia põe uma pata reconfortante no ombro de Endra, a voz da mais velha se misturando com a da mais nova enquanto fazem uma harmonização conjunta. — Oh, oh. Oh, oh.

Nadia dá um abraço breve em Endra. Um pequeno sorriso se forma nos lábios da leoa jubada e ela desce da elevação, parando na frente de Ananda novamente.

— Você é uma vergonha para o trono de Wishar, Ananda — Waganga sibila com os olhos estreitados. 

Ananda desvia o olhar e solta um rosnado.

— Não só para Wishar, como para todo e qualquer outro reino — Scar se intromete, dando um passo a frente. 

— O equilíbrio de Wishar foi perturbado com suas ações mesquinhas — Waganga continua —, e a Grande Mkuu vai puni-los grandemente por isso. Guarde minhas palavras, leoa olhos de cinábrio: você vai pagar um grande preço.

As palavras enigmáticas e crípticas de Waganga dão fim à reunião.

Dhalimu e Ananda são cercados pelos outros leões, que se aproximam com passos lentos e carrancas direcionadas a eles. 

Os dois, sem ver outra opção, recuam até a entrada da caverna, soltando rosnados e mostrando os dentes de forma defensiva. 

Isso não detém os outros leões, que continuam marchando para expulsá-los. 

Não demora para uma das leoas pular em Ananda, efetivamente fazendo a leoa alaranjada ser empurrada para fora da caverna junto de seu parceiro.

(Letra ligeiramente alterada. Espero que desfrutem ^^)

— Vergonhas, desgraças — A voz de Nidijo ecoa enquanto ele segue o grupo de leões.

— Humilhações para toda uma raça — Thadi e Hasi continuam.

— Vergonhas — o rei de Rivalon aumenta o tom de voz. 

— Ofensas — Nadia e Habi acrescentam.

— Desgraças — diz Thadi. 

— Atroz! — Endra se pronuncia.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — surge a voz grave de Obasi.

— Vergonhas — enfatiza Laken, franzindo o focinho. 

— Ofensas! — Tabia, outra leoa de Rivalon diz, aparecendo sob um rocha, e rosnando.

— Desgraças — Diz Askari bruscamente.

— Atroz! — Complementa Zura, o sentinela. 

— Ninguém mais vai confiar — Eshe estreita os olhos para Ananda e Dhalimu.

— Humilhações para toda uma raça — Hasi complementa. 

As vozes de Eshe e Bianka se harmonizam em uma só. — Vão embora agitadores!

Ananda e Dhalimu se vêem em um corredor de leões, olhando-os de cima a baixo, os seguindo com os olhos e rosnados, enquanto eles se distanciam.

— Nos deixem em paz! Ofensas! — Os leões da multidão se alternam para bradar — Desgraças, atroz!

— Traidores nunca mais! — Bianka bate sua pata contra o chão.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — A voz grave de Obasi retorna, ainda mais decidida.

 — Vão embora agitadores! — Repetem Eshe e Bianka.

Os renegados são cercados pelas vozes de todos os leões, que seguem em constante marcha  — Trazem mal, trazem dor — harmonizam em alto e bom som. 

Belladonna, uma das aprendizes de Waganga, pula e tenta alcançar Ananda, que se encolhe.

— Cometeram traição — Kufuata, outro leão de Rivalon, tenta acertar Dhalimu, que recua para perto da parceira. 

— Pro seu lar fugirão — perto das bordas do reino, a multidão os acovarda cada vez mais —, mas não perdoaremos sem retribuição!

— Eles não são um de nós — os leões brandam em conjunto. — E jamais serão um de nós. Nunca foram um de nós, nem serão!

A marcha empurra Ananda e Dhalimu ainda mais para os limites do reino. Os dois sabiam que não poderiam se defender contra um grupo tão grande. — Quem matou um de nós, não mais voltará — continuam. — Pois, agora não há mais ninguém que vá acreditar que são um de nós.

— Pois, não são um de nós — Endra branda, a expressão da leoa mostrando decepção.

— Vergonhas — A mandíbula de Mufasa se cerra.

— Desgraças — Sarabi complementa, ao lado de Mufasa.

— Vergonhas — Scar sacode sua cabeça de um lado para o outro. 

— Desgraças — Kamilla continua, de sobrancelhas cerradas.

— Vergonhas — Hasi balança a cabeça negativamente, desviando o olhar enquanto assiste os pais fugirem.


[...]


As estrelas cobriam os céus de Anida como um véu de brasas frias, pintando a escuridão acima do reino com pontos brancos e cintilantes. A noite soprava uma brisa leve, carregando o cheiro das árvores e do rio distante.

Dentro da caverna, Udadisi se remexia sem conseguir encontrar descanso.

Desde o momento em que vira Amadi encurralar Wami e Wazi à beira dos arbustos, algo se retorcia em seu peito — um desconforto estranho, profundo, quase dolorido. Um sentimento que ele não reconhecia... e que não queria reconhecer.

Nunca se sentira assim antes.

Udadisi, pare quieto — Amadi resmungou, sonolenta, chutando o flanco do irmão enquanto se ajeitava sobre a pedra. — Preciso do meu sono da beleza.

O filhote soltou um grunhido baixo ao sentir o impacto e se levantou, estalando a língua, a paciência no limite. Marchou para fora da caverna sem dizer nada e se deitou sobre a rocha ainda morna, permitindo que a vastidão do céu o engolisse.

As estrelas observavam tudo.

Ele sempre defendera Amadi. Sempre rira junto. Sempre seguira o fluxo.

Então... por que agora aquilo parecia errado?

Você está estranho.

Udadisi virou a cabeça e encontrou Akili sentada à entrada da caverna, observando-o com atenção curiosa.

Pegou Febre da Girafa? — Ela provocou, aproximando-se e se sentando ao lado dele.

— Do que está falando? — Questionou, desviando o olhar para o céu.

— Você não está mais zombando de ninguém, nem fazendo piadas idiotas, nem usando o pronome errado com Kisai — Akili respondeu. — Não que eu esteja reclamando. Mas... o que houve?

Udadisi hesitou. Seus olhos se moveram até a boca da caverna, onde Wami e Wazi dormiam lado a lado, os corpos pequenos encostados um no outro.

Akili seguiu o olhar dele.

E então sorriu.

— Ah... entendi.

Ele não respondeu.

— Udadisi tem uma quedinha... — murmurou ela. — Mas por quem? Pela Wami?

Ele ficou em silêncio.

O sorriso de Akili cresceu, torto, como quem tivesse descoberto um segredo.

— Ou talvez... pela Wazi?

Udadisi virou-se de súbito.

— E daí que eu tenho uma quedinha por ela? — Bufou, cruzando as patas, o rosto quente sob o pelo. — Isso não é da sua conta!

Akili riu baixinho.

— É por isso que você anda tão quieto esses dias.

Ele não respondeu, apenas franziu a testa.

— Fique tranquilo — ela disse, se levantando. — Seu segredo está seguro comigo.

Akili voltou para dentro da caverna, deixando Udadisi sozinho sob o céu.


domingo, 29 de janeiro de 2023

Conheça a Personagem [Kisai]

OLÁ TERRÁQUEOS, SAUDAÇÕES )0)

Sua alienígena favorita está de volta. Turu bom com vocês? Espero que sim -w-

Esse post era pra ter saído em novembro do ano passado mas, né e.e' 

O número sorteado da vez foi o 32, ou seja, o número da nossa queridíssima Kisaaaaai. Palmas pra ela, gente. Palmas pra ela u-u

Bem, vejamos as versões antigas dela:



Gzuis Cristo, uma emo ._.

Cahem, vamos para a versão atualizada dessa neném...




AI CALICA, KISAI TÁ MARAVILHOSA )0)

° |Básico| °

Nome: Kisaikolojia (Quisaicolodjia)

Significado: Psicopata (Suaíle)

Apelido: Kisai

Idade: 7 a 12 anos humanos (durante a primeira temporada); 13 a 18 anos humanos (durante a segunda temporada)

Espécie: Leoa; subespécie Leoa Asiática com genes de Tsavo.

Gênero: Feminino (MtF)

Pronomes: Ela/Dela

Sexualidade: Demissexual

° |Personalidade| °

Kisai é uma leoa séria e um pouco paranoica, sempre desconfiando da intenção dos outros. Sempre desconfia de desconhecidos até que provem não ser uma ameaça para ela e sua família.

Citação pessoal: “Se visse o que eu vivi, teria raiva sim.”

Gosta: Caçadas e estratégias, observar os arredores e aprender novas técnicas de combate. Lugares escuros, os olhos dela são sensíveis a luz.

Não gosta: Sentir-se encurralada ou presa.

Qualidade: É boa caçadora e observadora. Suas técnicas furtivas chegam a ser melhores que a de caçadoras experientes.

Defeito: É desconfiada da própria sombra.

Medo: Perder quem ama. Apesar do exterior frio, essa neném é muito protetora com quem ama.

° |Relacionamentos| °

Pais: Rainha Ariana e Rei Wiba, de Dugani

Irmãos: Akili (mais velha; mesma ninhada) e Anasa (caçula)

Filhos: Maji e Liaji

Interesse romântico: Hasa

° |Cargo| °

° Buscadora

° Guerreira

° Plebeia

° Nobreza

° |Curiosidade| °

As cores da chamativas Kisai, tanto na versão antiga da história, quanto nessa, são as cores da Ender Dragon. Não importa quantos fandoms você abandone, alguns deles sempre voltam pra te assombrar. Fato aleatório, Kisai é uma leoa trans e tanto seu nome quanto o de Akili e companhia são variações de seus nomes originais.

° |História| °

Apesar de ainda estar em desenvolvimento e revisão constante, a história de Kisai já estava predefinida. Em resumo, boa parte da história está resumida no primeiro capítulo de Anida mas, para recapitular, Kisai e Akili foram sequestradas quando filhotes e submetidas a testes de produtos químicos em um Centro de Pesquisas. Nesse centro, elas conheceram suas amigas e eventualmente, duas humanas as soltaram e elas acabaram no reino. Eventualmente, com o decorrer da história, ela e Akili reencontram os pais.

          

Prontinho, cá está mais uma pra lista uwu

Por hoje é só. Espero que tenham gostado. Um beijo da Nathy, fiquem com Kami e bye -3-

sábado, 7 de janeiro de 2023

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 6 – As Cinzas do Conselho]

Endra caminhava de cabeça erguida.

Atrás dela, Laken seguia em silêncio, e logo atrás, as três filhotes pequenas tropeçavam nas próprias patas, curiosas demais para perceber os olhares desconfiados que os leões de Anida lançavam em sua direção.

O ar do reino parecia pesado.

A tensão era quase visível.

Endra não diminuiu o passo.

Quando alcançou a entrada da caverna real, ergueu o queixo e soltou um rugido curto, claro e firme — o chamado de uma princesa.

O som ecoou pela savana e não demorou para que o grupo de patrulha surgisse da floresta, com Habi e Thadi à frente.

— Endra, qual o significado disso? — perguntou Habi, já se aproximando, os olhos atentos.

Endra sorriu, tímida.

— Encontrei nosso forasteiro.

Ela se afastou um pouco, revelando Laken, agora deitado na relva, permitindo que uma das filhotes mordiscasse sua juba enquanto as outras exploravam suas patas.

— Laken e eu nos conhecemos quando ele morava em Wishar.

O leão se levantou e fez uma reverência exageradamente longa.

— Majestades — começou, teatral —, imploro que poupem a vida deste mísero nômade perdido e desamparado, cuja única culpa foi existir em vossas florestas magníficas.

Endra o encarou em choque.

Habi piscou.

Thadi pigarreou.

— Sua... vida está poupada — disse Habi, recuperando a compostura. — Afinal, não fez mal a ninguém aqui.

Laken relaxou visivelmente.

— Laken encontrou as filhotes perto da fronteira de Dugani — explicou Endra, a voz mais baixa. — A mãe estava morta.

Thadi e Habi trocaram um olhar curto.

— Tigres relataram um corpo de leoa — murmurou Thadi. — Desfigurado demais para ter sido obra de um leão.

Habi se voltou para Laken.

— Você e as filhotes são bem-vindos, ainda que temporariamente.

Laken inclinou a cabeça.

— Apenas alguns dias, majestade. A mãe delas era conhecida minha. Gostaria que ficassem sob os cuidados de uma leoa do reino.

Habi assentiu. — Cuidaremos disso.

Quando Thadi se afastou com a patrulha, o rosto de Habi perdeu o sorriso.

— Estamos todos no limite, Laken. E saber que meus filhos andaram falando com um forasteiro não ajudou.

Laken engoliu em seco.

— Endra, mostre-lhe o reino. Depois, traga-o de volta. Há coisas a discutir.


[…]


Depois de explicar sobre o reino, Endra deixou Laken com Habi. A rainha o pediu para acompanha-la em uma caminhada e Endra retornou para a caverna.

O silêncio entre Habi e Laken não era confortável.

Eles caminhavam lado a lado pelos limites da clareira, sem pressa, sem palavras, como dois predadores medindo o território um do outro. O vento soprava leve, atravessando a juba de Laken e fazendo algumas folhas secas dançarem sob seu queixo. Ele ergueu a cabeça por instinto, seguindo o movimento delas com o olhar, como se aquele detalhe simples fosse a única coisa que impedisse a tensão de esmagá-lo por completo.

Habi foi a primeira a falar.

— Temos nossos receios com forasteiros, Laken.

Sua voz era baixa. Controlada demais para ser natural.

— E como você sabe, todos os reinos têm regras. Estruturas. O que mantém o equilíbrio... e a paz.

Laken não discutiu.

Apenas inclinou levemente a cabeça.

— Sim, majestade. Eu sei.

Habi diminuiu o passo.

O mundo ao redor deles pareceu fazer o mesmo.

— Então espero que entenda — continuou ela, agora mais firme —, que eu não trato ameaças a Anida como algo trivial. Mkuu sabe quanto tempo você permaneceu escondido em nossa floresta. — Seus olhos vermelho-rubi encontraram os dele. — Ainda assim, estou lhe concedendo o benefício da dúvida.

Eles pararam.

À frente, alguns metros adiante, Adanna e Hakuwa observavam tudo em silêncio, atentos demais para filhotes, como se sentissem o peso daquela conversa mesmo sem compreender cada palavra.

Habi ergueu a pata na direção deles.

— Meus filhos me disseram que posso confiar em você.

Houve uma pausa curta. Densa.

— Por ora — ela acrescentou, estreitando o olhar —, meu julgamento está suspenso.

Laken respirou fundo, sentindo a sentença inteira se acomodar sobre seus ombros. Em seguida, fez uma reverência profunda, desta vez sem traço algum de teatro.

— Obrigado, majestade. Sua generosidade não será ignorada.

Habi sustentou o olhar por mais um instante.

Então assentiu.


[...]


Já faziam cinco dias desde que Majira e Vuli haviam partido.

As duas haviam se destacado nos treinamentos de Wonaji não apenas pela velocidade, mas pela disciplina e precisão. Não foi surpresa, portanto, quando Habi as promoveu a Mensageiras Reais e confiou a elas o primeiro anúncio oficial da visita dos reis de Anida à Rivalon.

O plano era simples e seguro.

Habi, Thadi e Endra organizavam os últimos detalhes da comitiva enquanto aguardavam o retorno das jovens. Laken seguiria como guarda-costas de Endra. Nyusi faria seu último voo oficial ao lado da rainha antes da aposentadoria. Kamilla viajaria como Conselheira Real. Askari protegeria os reis durante todo o percurso.

A jornada duraria três dias de ida e três de volta.

Ao amanhecer do sexto dia, Majira e Vuli deveriam estar de volta.

O amanhecer chegou.

Mas não como deveria.

Os primeiros raios de sol mal haviam tocado a caverna quando Habi despertou com o bater desesperado de asas e a voz estridente de Nyusi ecoando pela entrada da caverna.

— Majestade! Majestade!

O coração de Habi afundou antes mesmo que ela se levantasse.

Ela acordou Thadi com um toque urgente e correu para fora da caverna.

O que viu fez o mundo parecer se partir.

Vuli emergia da neblina da manhã cambaleando, coberta de sangue seco e poeira, o corpo de Majira arrastado sobre as próprias costas. Cada passo era uma luta. Cada respiração, um esforço visível.

— Vuli! — Habi rugiu, sua voz ecoando pelo reino inteiro, acordando todos os leões de Anida ao mesmo tempo.

A rainha disparou até a jovem.

— O que aconteceu?!

Habi tentou aliviar o peso, ajudando a erguer Majira, mas a adolescente finalmente cedeu, caindo na terra fria.

— F-foras... — Vuli tentou falar, a voz quebrada, os olhos perdidos. — Forasteiros... eles... Majira... ataque...

Antes que pudesse dizer mais, suas forças se esgotaram e ela caiu de lado, exausta.

Kinga surgiu atrás de Habi em segundos.

A curandeira avaliou as duas jovens com um único olhar e não perdeu tempo. Com cuidado, acomodou Vuli sobre as próprias costas.

— Para a caverna. Agora.

Não era um pedido.

Wonaji e Kamilla já se moviam, abrindo caminho, enquanto Habi erguia Majira com o máximo de cuidado que suas patas conseguiam oferecer.

O reino inteiro assistia em silêncio.

O ar estava pesado.

Algo havia cruzado a fronteira dos reinos naquela madrugada.

E não viera em paz.


[…]


A viagem a Rivalon foi oficialmente adiada.

Majira permanecia inconsciente.
Vuli, sempre que alguém tentava se aproximar do assunto, apenas balançava a cabeça, o olhar perdido, repetindo que haviam sido atacadas por quatro leões — e então o resto se dissolvia em silêncio, como se sua mente tivesse se recusado a seguir adiante.

O reino inteiro sentia o impacto.

Era a segunda madrugada desde o ataque quando o grito ecoou pela caverna das curandeiras.

Não era um grito comum.

Era cru. Desesperado. Cheio de ecos que pareciam vir de algum lugar onde o tempo não passava.

Majira despertou em pânico.

Seu corpo se contorcia, as patas arranhando a palha e a pedra, o peito subindo e descendo rápido demais, como se ainda estivesse correndo. Seus olhos estavam abertos, mas não enxergavam a caverna — viam a estrada, o ataque, o sangue, o peso do medo.

— Não! Não! Saiam! — ela gritava, a voz rasgando a madrugada.

Curandeiras se ergueram em sobressalto. Vuli acordou com o som e se encolheu no canto, tremendo.

Kinga foi a primeira a alcançá-la.

A leoa deslizou para o chão ao lado de Majira, firme, estável, como uma âncora no meio da tempestade.

— Majira, ei... ei... — sua voz era baixa, constante, segura. — Olhe pra mim. Você está em Anida. Está segura. Está comigo.

Os olhos da jovem finalmente a encontraram.

E então tudo desabou.

— E-eles... eles... — Majira começou a hiperventilar, o ar falhando em seus pulmões. — F-foi tão horrível...

Ela se lançou contra Kinga, enterrando o rosto em seu pelo, soluçando de um jeito que parecia vir do fundo do peito, do fundo da alma.

Kinga a envolveu imediatamente.

Uma pata firme em suas costas, a outra protegendo sua cabeça.

Ela começou a cantarolar — uma melodia antiga, suave, que as curandeiras usavam com filhotes feridos e mães em luto. Um canto sem palavras, feito de respiração, presença e promessa.

— Já passou. Seja lá o que aconteceu, não foi culpa sua. — murmurava, acompanhando o ritmo do coração da jovem. — Você sobreviveu. Você está aqui.

Do outro lado da caverna, Vuli chorava em silêncio, encolhida contra a parede.

Kinga estendeu o braço livre.

— Venha, minha linda.

Vuli não andou, praticamente se jogou nos braços da mais velha.

As duas adolescentes se agarraram a Kinga como se ela fosse a única coisa sólida naquele mundo quebrado.

— O monstro se foi... — Kinga sussurrou, apoiando a testa nas delas. — Ele fugiu. Kinga está aqui. 

Os soluços diminuíram aos poucos.

O ar ficou mais leve.

O silêncio voltou, mas agora carregava algo diferente.

— Minhas lindas, lindas, lindas meninas...

E naquele momento, dentro da caverna das curandeiras, não havia reis, mensageiras ou reinos.

Havia apenas três corações feridos tentando aprender a bater de novo.


[…]


O céu começava a clarear.

Um tom de lilás se espalhava no horizonte, dissolvendo a noite em camadas de rosa e dourado. As estrelas mais teimosas ainda resistiam, presas ao escuro, enquanto o sol ensaiava seu retorno por trás das colinas de Anida.

Habi estava sentada sobre a pedra mais alta próxima à entrada da caverna.

Não dormira.

Não conseguira.

O vento da madrugada movia suavemente sua juba dourada, mas ela não parecia sentir o frio. Seus olhos rubros acompanhavam o nascer do sol sem realmente vê-lo — como se buscassem respostas no próprio céu.

Atrás dela, o reino acordava lentamente.
Mas Habi permanecia imóvel.

Majira.
Vuli.
O sangue.
O grito.

Ela respirou fundo.

As imagens insistiam em retornar, mesmo quando fechava os olhos. As duas adolescentes atravessando a fronteira sozinhas. O peso da responsabilidade. A decisão de tê-las enviado.

Eu devia ter ido.
Devia ter mandado alguém mais velho.
Devia…

O título de rainha não a protegia da culpa.

Ela baixou a cabeça.

Seus pensamentos a arrastaram para longe do presente — para os dias em que era apenas uma filha, uma irmã, uma leoa sem coroa. Para os tempos em que os erros não custavam sangue, nem deixavam marcas que não podiam ser apagadas.

O sol surgiu por completo.

Um disco quente e dourado tocando o rosto de Habi.

Ela ergueu o olhar outra vez.

— Me perdoem... — murmurou, para ninguém e para todos.

Para Majira.

Para Vuli.

Para si mesma.

Mas, por um momento, Habi permaneceu sozinha com sua culpa — uma rainha observando o nascer do sol, tentando aprender, mais uma vez, a carregar o peso do mundo sem quebrar.


[…]


Quando o sol subiu por completo e tocou as colinas de Anida, Habi enviou um falcão mensageiro aos céus.

As notícias trazidas pela ave do dia anterior eram inquietantes: em Rivalon, ninguém sabia de ataque algum.

Nenhum registro.
Nenhum boato.
Nenhuma presença de forasteiros.

A ausência de respostas pesava mais do que qualquer confirmação.

Ainda assim, a rainha manteve o curso da decisão.

A caravana real se organizava.

Thadi supervisionava os últimos preparativos, Askari verificava rotas e escoltas, Kinga cuidava de remédios e suprimentos, Nyusi se preparava para seu último voo oficial antes da aposentadoria.

Kamilla observava tudo de perto, o queixo erguido, como se cada movimento daquele grupo lhe pertencesse por direito — embora, para Habi, sua presença ali não passasse de cortesia política.

Endra, por sua vez, permanecia à margem da movimentação, respirando fundo.

Era a primeira vez que pisaria em Rivalon desde a infância.

O coração batia rápido.

Mas, como sua mãe lhe ensinara, Endra manteve a postura firme enquanto deixava a caverna.

"Uma princesa controla suas emoções, Endra."

A lembrança da voz de Fadhili apertou seu peito. Ela sentiu falta dos pais como uma ferida antiga que nunca cicatrizava por completo.

A morte deles ainda não fazia sentido. E, no fundo, uma parte de Endra suspeitava do que não ousava dizer em voz alta: seus tios sabiam mais do que admitiam.

— Endra?

A voz de Wonaji a puxou de volta ao presente.

A leoa mais velha aproximou-se, trazendo pendurada ao ombro a bolsa de pele de cobra entrelaçada por cipós — sinal de viagem longa e cuidadosa.

— Está na hora, querida. Está pronta?

Endra assentiu.

— Estou... só um pouco ansiosa. Faz tempo que não volto a Rivalon.

Wonaji sorriu, envolvendo os ombros da mais nova com um gesto protetor.

— A Rainha Nadia vai adorar revê-la. E quem sabe você não se dá bem com os adolescentes de lá? Ouvi dizer que os jovens de Rivalon são bastante encantadores.

Endra soltou uma risada nervosa.

Wonaji interpretou como simples ansiedade da viagem.

Endra preferiu não corrigir.

As duas desceram juntas pelo conjunto de pedras que levava à fronteira do reino, diminuindo o passo quando avistaram Habi e Thadi despedindo-se de Adanna e Hakuwa.

— Quem ficará no comando enquanto estivermos fora? — Endra perguntou, observando o vento brincar em sua juba.

— Kweli e eu — respondeu Wonaji, dando a bolsa de pele de cobra para Kinga. — Thadi retornará mais cedo. E quanto ao cargo de conselheiro real… Habi ainda não decidiu. Kamilla nos acompanha apenas por protocolo.

Endra compreendeu imediatamente.

À frente, o grupo já aguardava.

— Todos prontos? — perguntou Habi, erguendo o rosto ao vê-las se aproximarem.

Confirmações se espalharam pelo grupo.

Thadi inclinou-se e tocou a bochecha da rainha com uma lambida suave — um gesto simples, íntimo, que dizia tudo.

— Cuidaremos de tudo enquanto estiverem fora, tia Habi — disse Kweli, esfregando a testa na da rainha. — O reino está em boas patas. Kirafiki ajudará a manter a ordem.

Kirafiki confirmou com um aceno firme.

Wonaji abraçou Kinga com força antes de lançar um olhar silencioso para Askari — ele respondeu com um breve aceno, compreendendo mais do que palavras poderiam explicar.

Hakuwa e Adanna observavam tudo de perto.

— Vamos sentir saudades — murmurou Adanna, envolvendo a pata de Thadi. — Boa viagem.

— Voltaremos em breve, prometo — respondeu o rei, puxando os filhos para junto do peito.

Um pouco mais afastados, Elimu se agarrava à pata de Kinga.

— Eu queria ir com vocês...

— Eu sei, meu pequeno — sussurrou ela, encostando a testa na dele. — Mas você precisa descansar. A viagem é longa demais.

Elimu assentiu e foi se juntar aos outros filhotes.

Os filhos de Kamilla, por outro lado, não estavam ali.

E a ausência deles não passou despercebida.


[...]


A viagem até Rivalon fora longa, árdua — e, ainda assim, estranhamente recompensadora.

Quando os primeiros raios do sol do último dia tocaram as crinas cansadas dos viajantes, eles atravessaram a antiga ponte de pedra que marcava a fronteira entre os dois reinos. A névoa da manhã ainda se agarrava às rochas do vale abaixo, e o ar de Rivalon parecia mais frio, mais úmido, carregado de silêncio e expectativa.

Habi permitiu-se um sorriso cansado.

Nyusi, que descansava em seu ombro, bateu as asas uma vez e alçou voo em direção à caverna real, anunciando silenciosamente sua chegada.

O grupo avançou alguns passos além da ponte... e parou.

Não precisaram esperar muito.

Da relva clara surgiu uma leoa de pelagem pálida, marcada por tons marrons nas patas, o porte sereno e os olhos de um roxo profundo, antigos como o próprio reino. Atrás dela caminhava um leão de juba cobre, pelagem dourada manchada de negro, postura firme e vigilante — mais jovem, mas não menos respeitável.

— Habi — disse a leoa, inclinando a cabeça. — Você está tão linda, querida.

— Rainha Nadia — respondeu Habi, retribuindo a reverência.

Nadia aproximou-se e pousou as patas sobre os ombros da rainha de Anida antes de puxá-la para um abraço caloroso, prolongado, daqueles que dizem mais que qualquer protocolo.

— Os outros já estão chegando — anunciou Nadia, separando-se com um sorriso. — Sintam-se em casa. Nidijo, meu querido, poderia...

Antes que terminasse, o focinho de Nidijo se ergueu e um rugido ecoou pelo vale, anunciando formalmente a chegada do grupo de Anida.

Kamilla avançou.

— Rainha Nadia, é um prazer revê-la.

Nadia ofereceu-lhe um sorriso educado — o tipo que se dá por dever, não por afeto — e nada disse. Por mais gentil que fosse, Nadia reconhecia bajulação à distância. E Kamilla cheirava a ambição mal disfarçada.

— Trouxemos... alguém especial conosco — disse Habi, abrindo espaço.

Endra surgiu ao lado dela.

— Olá, tia Nadia — cumprimentou, com um sorriso tímido.

Os olhos de Nadia brilharam.

— Minha nossa... como você cresceu! — exclamou, correndo para abraçá-la. — E essa juba! Está absolutamente deslumbrante!

Endra riu, corando.

— Você me lisonjeia, tia Nadia. Ah... onde estão nossos modos? Tia Nadia, Nidijo, estes são Kinga, Askari e Laken.

Nidijo sorriu, cordial, acenando com a cabeça em reconhecimento.

— Sigam-nos. A reunião será ao entardecer.

O dia se arrastou entre recepções, cumprimentos e chegadas constantes de reis e rainhas de todos os cantos. Endra observava em silêncio — seus tios ainda não haviam aparecido. E, no fundo, ela preferia que assim continuasse.

Ao cair da tarde, sob um céu alaranjado, todos se reuniram na grande caverna de conselho.

Nidijo pigarreou e soltou um rugido solene.

— Obrigada, meu filho — disse Nadia, voltando-se à assembleia. — Agradeço a presença de todos.

Endra, sentada entre Thadi e Habi, mantinha o queixo erguido. Pinturas simples de tinta lilás marcavam seu rosto — símbolo de luto e dignidade em Wishar.

— Temos notícias... pouco satisfatórias — continuou Nadia. — Rainha Habi?

Habi avançou.

— Saudações a todos. Alguns dias atrás, a Princesa Endra, de Wishar, filha da falecida Rainha Fadhili e do falecido Rei Heshima, chegou a Anida.

O murmúrio espalhou-se.

— Fadhili e Heshima morreram?! — exclamou uma leoa de pelagem clara salpicada de marrom.

— Rainha Hadassah — cumprimentou Endra, aproximando-se. — Sim. Meus pais estão mortos.

Nadia ergueu a pata.

— Silêncio.

Endra respirou fundo.

— Ao invés de permitirem que eu ascendesse ao trono conforme a tradição, meus tios me exilaram. Desejam que meu primo, Hasi, seja coroado. E... tenho razões para acreditar que eles estejam envolvidos na morte de meus pais.

O peso daquelas palavras caiu como trovão.

— Wishar é conhecido por suas plantas medicinais — continuou Endra. — Entre elas, a Gloriosa Superba... extremamente venenosa.

Os olhares se enrijeceram.

— Isso é uma acusação muito séria, sobrinha querida — ecoou uma voz da entrada.

Ananda surgiu, seguida de Dhalimu e dois outros leões.

— Por que não nos conta exatamente o que aconteceu no dia do seu exílio?


[...]


Em Anida, a tensão não vivia apenas nos salões do conselho ou nos olhares silenciosos dos adultos. Ela também crescia entre patas pequenas.

Nos últimos dias, Amadi conseguira, com uma facilidade inquietante, se infiltrar no cotidiano dos príncipes e virar cada momento de descanso em algo amargo. Sem Kamilla por perto para exigir falsas boas maneiras, nem ela nem Udadisi se davam ao trabalho de esconder o veneno nas palavras.

Hakuwa acabara de sair do lago, a juba colada ao rosto, o corpo tremendo de frio e raiva, quando ouviu a voz dela.

— Ora, Hakuwa. Por que tão irritadinho?

Amadi observava da margem, o sorriso torto demais para ser inocente.

— Foi só um sustinho. Não acredito que você caiu nessa.

Hakuwa respondeu apenas com um olhar fulminante. Depois sacudiu o corpo com força, jogando água diretamente em Amadi.

Ela deu um pequeno salto para trás, rindo.

O dia tinha sido bom — até aquele momento.

Kiny, que observava de longe, parecia genuinamente confuso, sem perceber as pequenas armadilhas que os irmãos armavam. Para ele, Amadi e Udadisi ainda eram tão santos quanto a própria Mkuu.

— Por Mkuu. Hakuwa, o que aconteceu? — perguntou Kweli, aproximando-se com expressão preocupada.

Antes que Hakuwa abrisse a boca, Amadi se adiantou.

— Eu só fui perguntar quando ele estaria livre pra brincar — disse, agora com uma doçura falsa demais. — Ele se assustou e caiu no lago. Foi sem querer, juro.

Kweli franziu a testa, puxando o primo para junto de si.

— Está tudo bem, Amadi. Acontece.

E, sem dar espaço para resposta, levou Hakuwa para dentro da caverna, o pequeno corpo dele ainda tremendo sob o vento.

Na caverna, Kweli o acomodou ao lado de Kumi.

— Haku? — Kumi inclinou a cabeça, confuso. — O que houve?

Kweli se deitou e puxou o primo para o meio de suas patas, começando a secar a juba dele com a língua.

Hakuwa suspirou.

— Qual é o problema da Amadi? Tentamos incluir ela e os irmãos, mas ela sempre estraga tudo. Só Kiny brinca de verdade conosco.

Kweli ouviu em silêncio.

— Ela chegou de mansinho e gritou. Eu me assustei.

— Vai ver ela gosta de você — disse Kumi, rindo.

— Não é assim que se demonstra gostar de alguém — respondeu Kweli com um sorriso leve. — Só afasta.

Kumi franziu a testa.

— Então como se demonstra?

Kweli pensou por um momento.

— Quando você conhece bem alguém, como o tio Thadi e a tia Habi... dá pra ver nos olhos. Eles se olham como se o resto do mundo desaparecesse.

Hakuwa engoliu em seco.

— E quando você não conhece bem? Quando você sente primeiro?

Kumi ergueu as sobrancelhas.

— Está falando da Akili?

Hakuwa ficou vermelho.

— N-não!

Kweli riu.

— Você fica distraído, mais leve... suas pupilas dilatam. Seu olhar muda. Fica... macio.

— Pff — resmungou Kumi. — Isso é só se você presta atenção.

— Ei! — Protestou Hakuwa, arrancando risadas dos dois.


[...]


A caverna de Rivalon parecia pequena demais para conter todas aquelas vozes, olhares e histórias mal resolvidas.

O ar estava denso.

As palavras de Ananda ainda pairavam entre os pilares de pedra como fumaça venenosa.

Endra foi a primeira a se mover.

Seu olhar, antes contido, agora ardia.

— O que aconteceu com Chaga naquele dia não foi culpa minha.

A voz da princesa não saiu alta — saiu firme.
Cada palavra era uma pedra lançada no silêncio.

Dhalimu respondeu com um rosnado baixo, quase animal.

— E ainda assim ele quase perdeu a vida.

Endra deu um passo à frente, mas não chegou a responder.

Quem se adiantou foi o leão de pelagem mais clara, Hasi.

Ele se colocou entre Endra e os próprios pais, o corpo formando uma barreira clara, o queixo erguido.

— O exílio de Endra foi errado. Todos aqui sabem disso.
Chaga não deveria tê-la seguido — e vocês deveriam ter cuidado melhor dele.

Um murmúrio percorreu o conselho.

Ananda explodiu.

— Hasi, seu insolente!

A pata dela se ergueu no ar, garras parcialmente expostas, o gesto tão rápido quanto perigoso.

Metade da caverna se levantou num só movimento.

Mas antes que qualquer um reagisse, Nadia saltou da elevação.

A rainha pousou entre mãe e filho como uma muralha.

Seus olhos roxos não tremiam.

Desafiavam.

Ananda congelou.

A pata ficou suspensa por um segundo longo demais…
e então caiu.

— Vocês estão aqui como convidados, Ananda — disse Nadia, cada sílaba afiada como lâmina. — E se erguer sua pata novamente sob este teto, nenhum de nós será clemente.

Silêncio absoluto.

Nadia recuou, sem jamais desviar os olhos da leoa, e retornou à elevação, sentando-se ao lado de Nidijo.

— Faremos uma pausa — continuou. — Todos viajaram longas distâncias.
Quando as estrelas surgirem, retomaremos este conselho.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Conheça a Personagem [Elimu]

OLÁ TERRÁQUEOS, SAUDAÇÕES )0)

Sua alienígena favorita está de volta. Turu bom com vocês? Espero que sim -w-

Bem, o gerador de número disse, então aqui está nosso próximo personagem, o número nove da lista, Elimu! UwU

Na versão original da história, Elimu se chamava Gus. Ele era um filhotinho verde-musgo e, acreditem ou não, as cores dele eram baseadas nas cores do Springtrap. Quer dizer, as cores do corpo dele, as cores do olho acabei esquecendo de mudar e deixei na cor da base, então viraram cores “canônicas”, isso aconteceu tanto ara o pobre do Elimu quanto para os outros personagens :v

Versões antigas do Elimu:



Pelos Reis, o que eu tinha na cabeça para escolher essas cores? E o pior de tudo é que o Kumi e o Elimu não eram os únicos ;_;

Enfim, a nova versão dele está mil vezes melhor:



ELE É UM COMPLETO NENÉM, GENTE )0)

° |Básico| °

Nome: Elimu

Significado: Educado (Suaíli)

Apelido: Eli, Limu, Docinho

Idade: 7 a 12 anos humanos (durante a primeira temporada); 13 a 18 anos humanos (durante a segunda temporada)

Espécie: Leão; subespécie Leão do Cabo.

Gênero: Masculino

Pronomes: Ele/Dele

Sexualidade: Hétero

° |Personalidade| °

Um leão brincalhão e destemido, Elimu sempre tenta ver o lado bom nas coisas. Apesar de seu receio conhecendo criaturas novas, ele faz o possível para que todos se sintam confortáveis.

Citação pessoal: “Podem ir sem mim, vou ficar observando.”

Gosta: Inventar brincadeiras novas, passear com a mãe.

Não gosta: Valentões (quem diria, não é Wama? ¬¬)

Qualidade: É bom com rastreamento e um ótimo observador.

Defeito: Tem tosse de fumante :v

Medo: Ser usado.

° |Relacionamentos| °

Pais: Kinga (mãe adotiva)

Irmãos: Nenhum

Filhos: A ser desenvolvido

Interesse romântico: Wama mas, visto que ela é escrota com todos, é capaz que Elimu fique solteiro por um tempo.

° |Cargo| °

° Buscador

° Rastreador

° Plebe

° |Curiosidade| °

O Leão do Cabo ou Leão Negro é uma espécie que foi declarada extinta em 1860 e receberam esse nome por causa da juba negra dos machos. São leões com instintos solitários e foram extintos por humanos quando se tornaram uma ameaça e os leões da região de Kalahari são considerados como tendo carga genética dessa subespécie. É por isso que, na história, Elimu vive doente quando filhote. Ele, a mãe biológica e alguns leões de Mauaji são os últimos leões dessa subespécie e, por ter genes mistos, eles vão ser mais propícios a doenças. Fato aleatório, Elimu tem as cores do Springtrap, de FNAF. Você pode abandonar o fandom, mas o fandom não abandona você, eu acho :v

° |História| °

Elimu foi o fruto de um relacionamento forçado e sua mãe biológica, com desgosto do filhote, o abandonou à própria sorte na esperança de que ele morresse. Para a sorte de Elimu, Kinga o encontrou e Habi se tornou sua madrinha. Ele foi adotado por Kinga pouco tempo depois de aprender a andar e sua mãe biológica nunca foi encontrada. Elimu passou a maior parte de seus dias da infância na companhia de Kinga e Habi. Ele raramente podia brincar com os outros filhotes, pois se cansava facilmente e tinha sérias crises de tosses constantes, resultando em sua rouquice. Sua saúde começou a melhorar depois que Wonaji começou a cuidar da saúde de Elimu com a ajuda de ervas medicinais.


          

Bom, essa postagem era pra ter saído na mesma época que a postagem sobre o Kumi... Oh, well. Antes tarde do que nunca, não é?

Por hoje é só. Espero que tenham gostado. Um beijo da Nathy, fiquem com Kami e bye -3-