Assim que Adanna se aproximou, notou os filhotes conversando animadamente com Akili e suas companheiras. Mas o ar abatido da princesa não passou despercebido. Os outros filhotes perceberam e decidiram não pressioná-la. Sabiam bem como era sua relação com Thadi. O leão de juba vermelha era um ótimo rei, isso era inegável, mas cometia erros como pai — erros que Habi quase sempre se encarregava de remendar.
Hakuwa parou ao lado da irmã e lançou um olhar breve ao grupo, silenciosamente pedindo que ninguém tocasse no assunto. Akili percebeu de imediato e desviou a conversa para algo mais leve.
— Então — ela disse, ajeitando a franja que caía sobre os olhos —, vocês realmente moram tão perto da borda da floresta? Eu nunca vi árvores tão altas quanto as daqui.
— Algumas ficam ainda maiores — respondeu Sawa, animado. — Tem uma clareira mais adiante onde a luz passa inteira entre os galhos. É bonita.
— E tem um rio também — acrescentou Utay. — Quando chove, dá pra ouvir de longe.
Kisai caminhava alguns passos atrás, os olhos atentos percorrendo as formações rochosas, os arbustos floridos, os caminhos naturais do território. Não havia medo em seu olhar — apenas cautela. Uma cautela que não pertencia a filhotes que haviam crescido em segurança.
— Anida é diferente — murmurou ela, quase para si mesma.
— Diferente como? — perguntou Wazi, erguendo o focinho.
Kisai demorou um instante para responder.
— Mais viva.
O comentário fez Wazi sorrir de leve. Ela trocou um olhar rápido com a irmã, um daqueles olhares que não precisavam de palavras. As duas haviam passado tempo demais em lugares onde a vida parecia sempre por um fio.
Adanna caminhava alguns passos atrás, deixando o grupo seguir à frente. O cheiro da terra, o calor suave do sol e o som distante de pássaros costumavam acalmá-la, mas naquela manhã tudo parecia abafado, como se o mundo estivesse em pausa. Ela manteve os olhos baixos até sentir alguém aproximar-se de seu lado.
Era Akili.
— Está tudo bem se você não quiser falar — disse ela em voz baixa.
Adanna ergueu o olhar, surpresa.
— Como...?
— A gente aprende a perceber quando as coisas ficam pesadas — respondeu Akili, dando de ombros. — Eu, Kisai, Mwezi, Jioni, Safi, Wami, Wazi... todas nós aprendemos isso cedo demais.
A princesa hesitou, depois soltou um suspiro pequeno.
— Ele prometeu voltar cedo ontem — confessou. — E não voltou. E hoje, prometeu que ficaria brincando conosco.
Akili assentiu, compreensiva. — Às vezes adultos não sabem como cumprir promessas quando carregam coisas grandes demais nos ombros.
Adanna abriu um sorriso fraco.
— Mesmo assim, dói.
— Dói — concordou Akili, sem discutir.
O grupo diminuiu o ritmo ao entrar num trecho mais sombreado do território, onde as pedras formavam corredores naturais. Wami e Wazi caminhavam próximas uma da outra, observando os insetos que cruzavam o caminho. Mwezi, Jioni e Safi permaneciam mais silenciosas, como sempre — filhotes que aprenderam cedo que o mundo podia arrancar tudo sem aviso.
Hakuwa, tentando manter o clima leve, apontava cada novo detalhe do reino como se apresentasse um tesouro.
— Aqui é onde treinamos corrida — disse ele. — E ali é onde Asante sempre se esconde quando quer assustar alguém.
— Não conte isso! — Asante protestou, arrancando risadas do grupo.
O clima ficou mais leve por um instante.
Mas algo invisível continuava pairando entre eles — uma compreensão silenciosa de que todos ali, mesmo os que haviam nascido em Anida, carregavam marcas que a infância não deveria conhecer.
E, sem que soubessem, aquela manhã estava apenas começando a revelar o mundo que os aguardava.
O grupo avançou por um trecho mais estreito do caminho, onde raízes grossas emergiam do solo como dedos antigos e as folhas filtravam a luz em manchas douradas sobre a terra. Por um momento, caminharam em silêncio.
Foi Jioni quem quebrou o vazio.
— Vocês sempre viveram aqui? — perguntou, olhando para Hakuwa.
— Desde que nascemos — respondeu ele. — Minha mãe diz que esta terra escolheu a nossa família.
Mwezi soltou um riso curto, quase sem humor.
— Deve ser bom ser escolhido por um lugar.
Hakuwa não soube o que responder.
Akili caminhava ao lado de Kisai, os ombros quase se tocando. A irmã mais nova mantinha os olhos fixos no chão, como se observasse algo que só ela via.
— Nós não nascemos aqui. Na floresta, quero dizer — Kisai disse de repente. — Nenhuma de nós.
Os filhotes de Anida diminuíram o passo, atentos.
— Fomos trazidas — completou Akili, em voz baixa.
Wami e Wazi trocaram um olhar breve. Wazi apertou a pata da irmã.
— Por leões — continuou Kisai. — Eles se escondiam nas fronteiras, longe dos reinos. Diziam que seguiam uma verdade antiga...
— Kisai e eu fomos levadas quando éramos menores — ela explicou. — Mwezi, Jioni e Safi também. Os pais delas... — Akili hesitou, respirando fundo. — Eles não sobreviveram.
Safi manteve os olhos baixos. Jioni apenas assentiu.
— A nossa mãe... — começou Wami, mas parou.
— Pode ter sido expulsa — completou Wazi. — Ou morta. Nunca soubemos.
O ar ficou mais pesado.
Adanna sentiu o peito apertar.
— Como vocês... — ela tentou, mas a pergunta morreu na garganta.
— Sobrevivemos — respondeu Kisai. — Foi isso que fizemos.
Por um instante, só o som das folhas ao vento.
Hakuwa respirou fundo.
— Vocês estão seguras aqui — disse, com firmeza. — Anida protege quem é seu.
Akili encarou o horizonte e assentiu lentamente. — É por isso que estamos aqui.
O grupo retomou a caminhada, agora mais unido do que antes, como se aquele pedaço do passado tivesse costurado algo invisível entre eles.
E nenhum deles percebeu quando, ao longe, a floresta começou a mudar.
O vento mudou de direção.
Trouxe com ele o cheiro de pedra quente e folhas amassadas...e a sensação inconfundível de que alguém os observava.
— Vocês estão fazendo cara de enterro — comentou uma voz feminina, vinda de cima.
Quinze focinhos se ergueram ao mesmo tempo.
No galho largo de uma árvore inclinada, uma leoa de pelagem dourada os observava com expressão divertida. A luz filtrada pelas folhas fazia seu corpo reluzir em tons quentes, destacando as cicatrizes antigas que cruzavam seu flanco e ombro como mapas gravados na própria pele. O porte era forte, confiante, e a longa cauda terminava numa mecha mais escura que balançava preguiçosamente atrás dela.
Seus olhos eram marcantes — o esquerdo, vivo e atento, refletia curiosidade e humor; o direito, porém, permanecia opaco, imóvel demais para acompanhar o grupo. Ainda assim, nada em sua postura indicava fragilidade.
— E eu só saí para caminhar — continuou ela. — Num grupo de oito vocês já são barulhentos... num de quinze, eu fico com dor de cabeça.
Alguns filhotes riram. O peso no ar cedeu um pouco.
A leoa saltou do galho com elegância, pousando diante deles como se a gravidade fosse apenas uma sugestão.
— Tia Wonaji! — Sawa correu até ela e esfregou-se em sua pata. — Pensei que estivesse treinando as adolescentes!
— O treino é depois do almoço — respondeu Wonaji, lambendo a testa do filhote. — Vim procurar um lugar mais tranquilo.
O olhar dela percorreu o grupo, demorando-se um pouco mais em Akili, Kisai, Mwezi, Jioni, Safi, Wami e Wazi. Nada em sua expressão denunciava julgamento — apenas reconhecimento.
— Ah — disse ela por fim. — Vocês devem ser as novas hóspedes de Anida.
Akili deu um passo à frente.
— Akili. E essa é minha irmã, Kisai.
Wonaji inclinou a cabeça num gesto respeitoso.
— Wonaji, às ordens.
Ela fez uma reverência exagerada, arrancando risos de quase todos.
— Tia Wonaji, por que estava lá em cima? — perguntou Utay. — Aqui é bem barulhento a essa hora.
As orelhas da leoa recuaram um pouco.
— Só estava… observando alguém. — Ela sorriu de lado. — E acabei cochilando.
Sawa e Utay trocaram um olhar cúmplice, mas não comentaram.
— Observar alguém de uma árvore parece meio suspeito — murmurou Kisai.
Wonaji riu.
— Observar não machuca ninguém. Desde que não haja más intenções.
Ela então se deitou diante deles, apoiando o queixo nas patas.
— Vocês andaram bastante hoje. Se quiserem continuar, conheço um lugar bonito na floresta. Uma árvore enorme. Kinga esteve lá mais cedo cuidando de alguns guepardos feridos.
Os olhos de Elimu brilharam.
— Guepardos?
— Se comportem — alertou Wonaji, erguendo uma sobrancelha. — E não se afastem muito. Ainda é território selvagem.
O grupo se entreolhou.
O peso da conversa anterior parecia distante agora, mas não esquecido.
— Vamos — decidiu Hakuwa.
Wonaji observou enquanto eles se organizavam e partiam, e por um instante seu sorriso vacilou… como se soubesse que aquele passeio simples carregava muito mais do que brincadeira.
[...]
A floresta de Anida se fechava ao redor deles à medida que avançavam.
As árvores tornavam-se mais altas, os galhos mais entrelaçados, e a luz do sol passava em feixes dourados irregulares entre as folhas espessas. O chão era macio sob as patas, coberto por musgo, raízes e pétalas secas que estalavam suavemente a cada passo.
— Eu nunca estive tão fundo na floresta — murmurou Elimu, observando o emaranhado de troncos à frente, cobrindo a boca com a pata antes de soltar uma tosse breve.
— Nem eu — admitiu Utay. — Só os caçadores e os exploradores vêm até aqui.
— Ou quem está se escondendo — comentou Kumi, em voz baixa.
Mwezi olhava ao redor com atenção, memorizando cada curva do caminho como quem aprende a sobreviver em silêncio.
O grupo caminhava mais devagar agora, atento aos sons: o farfalhar das folhas, o chamado distante de pássaros, o estalo ocasional de algum animal menor se afastando.
Wazi aproximou-se de Adanna.
— Você está melhor?
Adanna hesitou, mas assentiu.
— Um pouco — respondeu em tom baixo, quase hesitante.
Wazi sorriu.
— A floresta ajuda. Ela escuta.
Adanna ergueu as orelhas.
— Escuta?
— Tudo — confirmou Wami, caminhando ao lado da irmã. — Quando a gente não consegue falar.
O caminho começou a descer levemente, e o ar ficou mais fresco. O som de água corrente surgiu ao longe, fraco, mas constante.
— Estão ouvindo isso? — perguntou Jioni.
— É o rio — disse Akili. Um arrepio involuntário correu pela espinha da filhote ao se lembrar das palavras de Jambo para evitar o curso do rio.
O som os guiou até uma clareira ampla, onde uma árvore colossal dominava a paisagem. Suas raízes formavam arcos naturais, e os galhos se estendiam tão alto que pareciam tocar o céu. A luz escorria por entre suas folhas como ouro líquido.
— Uau... — sussurrou Kumi.
— É aqui — anunciou Sawa, orgulhoso. — A árvore da floresta.
Antes que pudessem se aproximar mais, um som agudo ecoou acima deles.
— Ei! Olha por onde anda!
Todos ergueram os olhos.
Nos galhos mais altos, duas guepardas os observavam. A maior tinha marcas escuras bem definidas nas patas e o movimento de quem carregava uma ferida recente — sua pata dianteira esquerda estava enfaixada. A menor, mais leve e rápida, pulava de galho em galho com curiosidade descarada.
— Leões — murmurou a maior, semicerrando os olhos.
— Muitos leões — completou a menor, rindo e lambendo os lábios de forma brincalhona. — Mas todos do tamanho de lanchinhos.
Antes que qualquer um dos filhotes pudesse reagir, uma voz firme ecoou do chão.
— Sania, Saja, comportem-se.
Eles viraram.
À sombra da árvore, deitada sobre a terra clara, estava Kinga.
Seu pelo marrom-claro reluzia sob a luz da clareira, e seus olhos atentos analisavam o grupo com calma protetora.
Elimu reconheceu-a de imediato e correu até ela, parando no meio do caminho para recuperar o fôlego antes de se esfregar em seu flanco.
— Saiu cedo hoje, mamãe — comentou, sorrindo.
Kinga retribuiu com uma lambida carinhosa.
— Sania se machucou, e Saja pediu minha ajuda para tratá-la.
— Ela está exagerando — reclamou a gueparda maior, descendo com cuidado do galho, seguida da menor. — Foi só um deslize.
— Um deslize que quase virou uma fratura — comentou um leão ao lado de Kinga, levantando-se.
Ele era alto, a juba de um branco azulado que contrastava com o tom escuro de seus olhos. Apesar de jovem, seu porte era imponente.
— Euclásio — disse ele, inclinando a cabeça. — Prazer em conhecê-las, pequenas.
As sete filhotes se encolheram instintivamente — não por medo, mas pelo impacto da presença dele.
— O-o prazer é todo nosso, tio Euclásio — responderam em coro.
O riso leve que se seguiu dissipou a tensão.
Enquanto os filhotes começavam a brincar com Sania e Saja sob os galhos gigantes da árvore, Kinga e Euclásio trocavam palavras em voz baixa ao fundo.
E, por um breve momento, o mundo parecia em paz.
OLÁ TERRÁQUEOS SAUDAÇÕES )0)
Sua alienígena favorita está de volta. Turu bom com vocês? Espero que sim -w-
ORA ORA ORA, QUEM DIRIA, NÃO É MESMO??
Ano novo, reescrita nova )0)
**cahem** piadas a parte, FELIZ ANO NOVO, SEUS LINDOS!!!!
Espero que gostem dessa surpresinha, hehe. Mais reescritas estão por vir, me aguardem >u>
Bem, eu queria fazer a escrita dos capítulo quando a Árvore Genealógica de Anida estivesse pronta mas, por algum motivo, mim estar inspirada, então não só eu escrevi o capítulo 9, como eu estou reescrevendo os primeiros capítulos. YAY, MAIS TRABALHO )0)
Enfim... eu quis tirar a backstory trágica da Wonaji de circulação temporariamente, mas é por uma boa causa, vocês vão ver depois.
Por hoje é só. Espero que tenham gostado. Um beijo da Nathy, fiquem com Kami e bye -3-


SO BEAUTIFULS! I LOVED!!
ResponderExcluirComo diz o ditado "Criatividade tem nome e sobrenome." -w-
Tadinha da Wonaji, tenho esperança que ela volte a falar com Askari ;w;
Esse adolescente da última imagem é tão charmoso, tenho uma sugestão de nome: Alekey!! AHSUAHSUAHASAHSU
KSKSKSKSKSK ADOREI O NOME :)
ExcluirRelaxa ela....
Wonaji: *brota e espanca a cabeça da Nathy* SPOILER NÃO,PIRRALHA!
Nathy: ;~; doeu
Wonaji: Hunf! >-> *some*
Que povo agressivo ;-;
Mano o Hakuwa é muito precious deixa eu botar ele num potinho deixa, eu quero pra mim
ResponderExcluirPrecisa levar essa galera pra terapia véi ;-;
"Ah, vocês acordaram, graças a Mkuu" e por motivos até então desconhecidos começou a tocar a música da Hatsune Miku na minha cabeça
RIP crionças
Aaah o cara tem amnésia, tadinha ;-;
Ovo botar o Elimu num potinho tbm
Xiiii deixaram a jovem guarda sozinha, vai dar treta
Sim, o Hakuwa é muito neném UwU
ExcluirAkili: Vai ter que passar por mim pra pegar ele >:v
Esse povo precisa urgentemente de terapia...
Luna: ou você poderia, eu não sei... Parar de dar passados traumáticos pra todo mundo?
Shoosh!
Miku, Miku, you can call me Miku -q
Sim, deu até dó de fazer isso com a Wonaji ;-;
Kinga: Olha, tu fique longe do meu filho, hein >:v
A treta está armada ksksksksk
Agradeço o comentário, flor <3
E vamos de reescrita de novo!
ResponderExcluir"E tem um rio também. Quando chove, dá pra ouvir de longe." Hehe gostei do detalhe
CARACA 15 FILHOTES, QUE TURMA
Ain elas todas fofinhas com a Adanna :3
Mas... Sawa... É uma floresta, é cheia de árvores...