O caminho de volta da floresta foi mais silencioso do que a ida.
O sol já não atravessava as copas com a mesma força, e a sombra das árvores se estendia longa sobre o chão, como dedos escuros tentando segurar os filhotes por mais alguns instantes naquele território que ainda parecia grande demais para eles.
Quando finalmente atravessaram a última linha de arbustos e a savana de Anida voltou a se abrir diante deles, o ar mudou. Era mais quente. Mais claro. Mais seguro.
E ainda assim, Kisai sentia algo estranho sob a pele — uma inquietação que não vinha da floresta, nem do cansaço, mas da simples consciência de que agora estavam... sendo vistas.
— Voltamos — murmurou Wazi, mais para si mesma.
Adanna desacelerou, observando o reino com olhos atentos, como se confirmasse que tudo ainda estava no lugar.
— Papai ainda deve estar em patrulha — comentou Hakuwa. — Temos um tempo antes das lições.
Isso foi o suficiente.
Os filhotes se espalharam pela clareira e, sem perceberem, formaram um círculo quase natural — como se aquela fosse a única forma de permanecerem juntos sem saber exatamente por quê.
O riso começou tímido, depois cresceu.
O cansaço da floresta virou excitação acumulada.
— Do que brincaremos agora? — perguntou Adanna, a cauda balançando de leve.
Elimu pigarreou e levou a pata à boca, segurando uma tosse antes de falar:
— Podemos brincar de pique-alto.
Akili inclinou a cabeça, curiosa. — Como funciona?
Elimu explicou com paciência, a voz um pouco fraca, mas os olhos brilhando:
— Um filhote conta até dez. Os outros correm e sobem em qualquer lugar alto: pedra, tronco, árvore. A única regra é não guardar caixão. Quem é tocado vira ajudante do pegador. O último a ser pego vence.
— Mas você não pode correr — lembrou Kumi.
— Eu fico como juiz — respondeu Elimu, sorrindo. — Posso cuidar do tempo. E das regras.
— Então está decidido — declarou Asante, passando a pata sobre os ombros dele. — Elimu é o juiz.
Os filhotes se sentaram à frente do pequeno leão acinzentado, aguardando a escolha do pegador como se aquilo fosse um ritual sagrado. Elimu fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo... e começou a cantarolar a velha cantiga.
Quando terminou, todas as patas apontavam para Hakuwa.
O príncipe riu, virando de costas para o grupo.
— É melhor começarem a correr.
A contagem ecoou pela clareira.
No “três”, Kisai e Akili já estavam saltando para uma rocha.
No “seis”, Tama e Asante disputavam um tronco caído.
No “oito”, metade do grupo se espalhava pelas árvores, cipós e galhos.
No “dez”, Hakuwa se virou... e encontrou Safi sentada ao lado de Elimu.
— Safi... não vai subir em algum lugar?
Ela apenas negou com a cabeça.
— Safi vai fazer companhia ao Elimu.
Hakuwa hesitou, mas aceitou.
O jogo explodiu em risos, corridas e folhas voando, Akili provocava, descendo e subindo das pedras, Kisai observava tudo com atenção afiada, sempre escolhendo o caminho mais limpo, mais rápido, menos óbvio.
Quando restaram apenas as duas irmãs, o silêncio caiu por um segundo.
— Vocês têm dez segundos para trocar de lugar — anunciou Elimu.
O mundo pareceu prender o fôlego.
Kisai disparou primeiro, desviando de Tama e Jioni, subindo numa árvore com um salto ágil. Akili desceu da rocha por último, correndo com um sorriso travesso, escapando de todos.
Adanna tentou interceptá-la, parando em sua frente em posição de ataque, pronta para pular. Akili passou por baixo, aproveitando o pulo que Adanna deu.
— Hakuwa! — Adanna exclama.
Antes que o príncipe pudesse alcançá-la, Kisai o empurrou de leve, entregando-se com um sorriso.
— Manda ver, mana!
Akili venceu.
O grupo comemorou... até que o vento mudou.
Mais frio.
Foi sutil — o cheiro no ar, o silêncio repentino entre os pássaros, o modo como alguns filhotes de Anida ergueram as orelhas ao mesmo tempo.
Adanna percebeu primeiro.
Hakuwa enrijeceu logo depois.
Antes que qualquer um pudesse perguntar o porquê, passos se aproximaram pela lateral da clareira.
Entre a relva alta surgiu uma filhote de pelo claro, postura firme demais para a idade, o olhar avaliando o grupo como quem mede um território recém-descoberto. Ao lado dela caminhava um filhote maior, ombros largos, músculos tensos sob o pelo, e atrás, quase escondido, um terceiro menor, que mantinha a cabeça baixa e os olhos atentos.
Os filhotes de Anida se mexeram instintivamente.
Ninguém falou.
As sete recém-chegadas se entreolharam, confusas, tentando decifrar se aquilo era uma apresentação, uma ameaça… ou algo entre os dois.
A filhote clara avançou alguns passos.
Seus olhos passaram por Hakuwa, por Adanna, por Elimu — e então pararam nelas.
Nas sete.
Um sorriso lento, torto, surgiu no canto de sua boca.
— Ora, ora — a voz dela escorreu como veneno —, se não são as aberrações do reino.
Akili franziu a testa.
Kisai não se moveu.
Mwezi aproximou-se meio passo de Safi sem perceber.
— Vocês acordaram rápido — continuou a filhote clara, andando em círculo ao redor do grupo, observando cada uma como se fossem uma presa mal escolhida. — Achei que demorariam mais pra se acostumar com um lugar... decente.
O filhote grande manteve-se um passo atrás dela, observando todos em silêncio. O menor, ainda mais atrás, parecia desconfortável.
Hakuwa deu um passo à frente.
— Ei — a voz dele saiu firme, mas baixa. — São nossas convidadas.
A filhote clara parou.
Virou a cabeça devagar.
— Convidadas? — repetiu, com uma risada curta. — Engraçado... porque parecem mais bocas extras pra mim.
O silêncio ficou pesado.
— Não fale assim — disse Adanna, a voz controlada. — Elas estão sob a proteção do reino.
O sorriso da filhote se alargou.
— E quem é você pra decidir isso?
Antes que Adanna respondesse, Mwezi deu um passo à frente.
— Se você tem algum problema, fale direto. Não precisa rodear — falou, trêmula mas com voz firme. — Além disso, está falando com os príncipes. Melhor dobrar sua língua.
O filhote grande estalou o pescoço.
A filhote clara ergueu uma sobrancelha.
— Gosto dela — comentou. — Tem coragem. Pena que ainda não sabe quando ficar quieta.
Mwezi abriu a boca para responder.
O mundo se moveu rápido demais.
O filhote grande avançou.
Num único salto, colidiu contra Mwezi, derrubando-a na grama. As patas dele pressionaram seus ombros, o peso esmagando o ar dos pulmões da filhote, as garras surgindo à vista.
— Veja como fala, moleca — rosnou ele, baixo e frio. — Seria uma pena estragar um rostinho desses.
O impacto fez a grama estalar sob o corpo de Mwezi.
Por um segundo, ninguém conseguiu reagir.
O peso de Udadisi a mantinha presa, o rosnado vibrando em seu peito, quente e agressivo, e as garras pairavam perigosamente próximas de seu rosto. Mwezi lutou para puxar ar, o coração disparado, as patas traseiras tentando empurrá-lo, sem sucesso.
— Solte ela! — Adanna deu um passo à frente, a voz aguda de choque.
Hakuwa avançou também, mas a filhote clara ergueu a pata.
— Nem mais um passo, príncipe.
O tom era calmo demais.
Calculado demais.
Hakuwa congelou.
O menor dos três — o filhote mais jovem, de olhos atentos e postura encolhida — deu um passo hesitante à frente.
— Udadisi, já chega — murmurou. — Só viemos ver quem eram. Não precisa disso.
Udadisi nem virou a cabeça.
— Fique quieto, Kiny.
A filhote clara se aproximou lentamente, observando Mwezi presa ao chão, depois as outras seis — os olhos demorando-se em Kisai, depois em Akili.
— Vocês chegaram faz pouco tempo, não é? — perguntou, quase gentil. — Dá pra sentir no jeito que andam. No jeito que olham tudo como se fosse novo demais.
Akili se moveu.
Não correu.
Não rosnou.
Apenas caminhou.
Parou ao lado de Udadisi e Mwezi, o olhar fixo, a postura baixa, perfeitamente equilibrada.
— Tire as patas dela — avisou num tom de voz frio e tenso, quase como um rosnado.
Udadisi soltou uma risada curta. — E se eu não tirar?
Akili se abaixou.
Num movimento rápido e preciso, ela girou o corpo, empurrou o ombro dele para o lado e o derrubou da mesma forma que ele havia feito com Mwezi, travando-o no chão com a pata sobre o pescoço, as garras à mostra.
O choque atravessou a clareira e Udadisi grunhiu.
— Ora, sua...
— Termine a frase, te desafio — Akili sussurrou, o focinho a centímetros do dele. — Vamos. Estou esperando.
Udadisi tentou se debater.
Não conseguiu.
Kiny engasgou com o próprio ar.
— Amadi... — murmurou, a voz quase quebrando. — Vamos embora... por favor.
A filhote clara — Amadi — estreitou os olhos.
Kisai avançou.
Parou à frente dela, os olhos laranja tranquilos demais, perigosamente calmos.
— Estávamos brincando — disse. — Vocês chegaram sem se apresentar, sem explicar quem são, e seu cão de guarda quase machucou nossa amiga.
Kisai ergueu a pata, observando as próprias garras.
— Agora você tem duas escolhas — baixou a pata e encarou Amadi. — Ir embora... ou aprender como é perder quando se começa uma briga errada.
Amadi sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois desviou.
— Solte ele.
Akili se levantou.
Udadisi puxou o ar com força, rolando para longe e se colocando de pé.
— A-Amadi... — Kiny repetiu, aproximando-se da irmã. — Vamos. Não vale a pena.
Amadi bufou, claramente furiosa por dentro.
— Não precisamos nos misturar com essa gentalha.
Virou-se e saiu andando.
Udadisi a seguiu com o orgulho ferido e a cauda entre as patas.
Kiny lançou um último olhar para as sete, meio culpado, meio apologético... e correu atrás deles.
O silêncio ficou pesado por vários segundos.
Então Mwezi respirou fundo.
— Não liguem pra eles — disse, forçando um sorriso. — Não vão nos incomodar tão cedo.
E ninguém duvidou disso.
[...]
O grupo permaneceu parado por alguns instantes depois que os três desapareceram na relva alta.
O vento voltou a soprar.
Os insetos retomaram o canto.
Mas a clareira já não parecia a mesma.
Mwezi ainda respirava rápido demais. Safi mantinha-se perto dela, quase colada, como se pudesse impedir o mundo de tocar a amiga de novo. Akili recuou alguns passos, observando todos em silêncio, o corpo ainda tenso, como se esperasse que alguém voltasse.
Kisai foi a primeira a se afastar.
Não correu.
Não falou.
Apenas caminhou para longe do grupo, o rabo baixo, as orelhas tensas, o olhar perdido no horizonte da savana.
— Kisai? — chamou Wazi.
Ela não respondeu.
Subiu numa formação de rochas próxima, parou no topo e ficou ali, observando o reino lá embaixo — o mesmo reino que agora dizia ser o lar delas.
Quando finalmente falou, sua voz não saiu como conversa.
Saiu como desabafo.
Saiu como algo antigo demais para caber em palavras comuns.
— Este impulso inconveniente, tem raízes, se grudou a mim — os filhotes se entreolharam, mas ninguém se aproximou. — E tudo isso é tão diferente, não deveria ser assim.
Ela bateu a pata na rocha.
— Não pedi pra ser alguém diferente, não pedi pra ser criada assim — respirou fundo. — E não pedi pra ser tão indiferente, não sei o que sentir...
Desceu da rocha, caminhando entre eles.
— Já que um leão e outro sempre entram numa luta, eu me afogo num oceano de animais em disputa. Fui forçada sempre a respeitar, não vieram me perguntar se um leão e outro se perguntam...
Subiu num tronco caído.
— Faz seu sangue ferver, vermelho te faz ver? Destruindo algo só pra poder se entreter — cravou as garras na madeira. — O meu sangue já ferve, e não era assim. Age como veneno. Se visse o que eu vivi, teria raiva, sim.
Desceu e caminhou mais a frente.
— Já vi tudo de camarote, de um até cem contei, sim. Sempre achei fugir impossível, só esperava pelo meu fim.
Ergueu a pata, observando as próprias garras, enquanto os outros a seguiam.
— Nunca quis ingerir nada que me deram, não queria ser controlada assim. Se você fosse eu, contava o tempo, enlouquecendo — passou por todos. — Já que um leão e outro sempre entram numa luta, eu me afogo num oceano de animais em disputa. Fui forçada sempre a respeitar, não vieram me perguntar se um leão e outro se perguntam...
Parou diante de uma pilha de pedras.
— Faz seu sangue ferver, vermelho te faz ver? Destruindo algo só pra poder se entreter — E num gesto brusco, espalhou as pedras pelo chão. — O meu sangue já ferve, e não era assim. Age como veneno. Se visse o que eu vivi, teria raiva...
Hakuwa se intromete, colocando a pata em seu ombro. — Calma, por que está assim?
— Coração tão nobre... — Falou Wazi, se aproximando também, esfregando o rosto no de Kisai.
— Leoa boa — Safi murmura, parando na frente da amiga. — É triste, sim.
— Vão pagar — murmurou Kisai, afastando-se —, o dano feito a mim.
Avistou um camundongo à distância.
Se agachou.
— Faz seu sangue ferver, vermelho te faz ver? Destruindo algo só pra poder se entreter. O meu sangue já ferve, e não era assim. Age como veneno. Se visse o que eu vivi, teria raiva, teria raiva, teria raiva, sim!
O golpe foi rápido.
O silêncio voltou a cair sobre a clareira.
Kisai apanhou o pequeno corpo do camundongo e deu de ombros, como se aquilo fosse apenas mais um detalhe do mundo.
— Alguém quer um lanche?
Kumi ergueu a pata, e Kisai lhe entregou a presa sem dizer mais nada, depois, virou-se na direção do reino e começou a caminhar, a cauda baixa, o olhar distante.
— Vamos antes que seu mordomo tenha um piripaque por termos sumido.
Akili foi atrás dela.
As outras seguiram.
O grupo atravessava a savana quando uma sombra cruzou o chão diante deles.
Um bater rápido de asas.
Um piado seco e impaciente.
Nyusi, o pequeno pássaro de penas acinzentadas e olhar sempre atento, pousou numa rocha próxima, observando o bando de filhotes como se estivesse fazendo uma contagem mental.
— Finalmente — grasnou ele. — O rei perguntou por vocês duas vezes. E a rainha, três. Não é aconselhável que filhotes recém-chegados passem tanto tempo longe da caverna.
Hakuwa endireitou a postura na mesma hora.
— Estávamos voltando, Nyusi.
— Estavam demorando — corrigiu a ave, ajeitando as asas. — Sigam-me.
Sem mais discussão, Nyusi alçou voo em direção ao coração do reino.
Os filhotes se entreolharam uma última vez.
E então o seguiram.
[...]
Três semanas se passaram.
O tempo seguiu, como sempre segue, indiferente às pequenas guerras.
As sete filhotes novas já conheciam cada trilha próxima ao reino, cada sombra das rochas maiores, cada árvore que oferecia galhos seguros. Brincavam pela manhã com Hakuwa, Adanna e os outros, mas depois do almoço tudo se separava: os príncipes iam treinar com os pais, Amadi e os irmãos desapareciam com a mãe, Elimu seguia para seus cuidados com Kinga, Utulivu, Asante e Kumi treinavam com os rastreadores, Sawa e Utay ficavam com Wonaji na maior parte do tempo quando a mesma não estava treinando as adolescentes.
E restavam elas.
Sete filhotes em terra nova, sem adultos próprios, sem um lugar fixo no mundo.
— Então... o que fazemos agora? — Wami quebrou o silêncio
Safi coçou a terra com a pata.
— Safi quer explorar mais — resmungou, impaciente.
Wazi levantou o focinho, pensativa.
— Habi não disse que era proibido.
Akili se levantou.
— Então vamos.
O vento da tarde soprava morno sobre as planícies de Anida, ondulando a relva dourada como um mar vivo que se estendia até onde a vista alcançava. Bandos de pássaros riscavam o céu em arcos lentos, e o cheiro de terra aquecida misturava-se ao perfume seco das acácias e ao frescor distante da água que corria do lago. Era um mundo vasto, pulsante, belo demais para quem havia passado tanto tempo cercado por grades invisíveis.
Kisai caminhava alguns passos à frente das outras, as orelhas erguidas, os olhos atentos a cada movimento. Akili mantinha-se ao seu lado, silenciosa, observando tudo com o mesmo cuidado de quem aprendeu cedo demais a desconfiar do mundo. Atrás delas vinham Wami e Wazi, sempre próximas, trocando olhares cúmplices a cada som estranho. Mwezi, Jioni e Safi fechavam o grupo, ainda se maravilhando com a liberdade recém-descoberta, mas sem jamais se afastarem umas das outras.
Nenhuma delas dizia em voz alta, mas todas sentiam: ainda não pertenciam àquele lugar. Anida era seguro, acolhedor, generoso — e, ainda assim, estranho.
O silêncio só foi quebrado quando Akili ergueu subitamente a pata, sinalizando para o grupo parar. Um farfalhar vinha da vegetação adiante. Kisai estreitou os olhos, farejando o ar. O cheiro era novo. Jovem. Desconhecido.
Dos arbustos surgiu um filhote de pelagem marrom, olhos verdes vivos e um começo tímido de juba escura na cabeça. Ele congelou ao vê-las, claramente tão surpreso quanto elas próprias.
Por um instante, ninguém se moveu.
Então o filhote pigarreou, forçando um sorriso.
— D-desculpem... — disse. — Eu não queria assustar ninguém. Meu nome é Walimu.
Akili avançou meio passo, a postura cautelosa.
— Está sozinho?
Walimu abaixou a cabeça.
— Por enquanto... Meu pai e tios foram caçar. Meus irmãos estão... por perto.
A resposta deixou Kisai imediatamente alerta. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um estalo soou atrás de Walimu. Um galho quebrando. Um cheiro diferente no ar.
Sem hesitar, Kisai girou sobre as patas e avançou, mergulhando na vegetação lateral. Um segundo depois, surgiu empurrando outro filhote para fora dos arbustos e o derrubando no chão, prendendo-o com firmeza.
— Ouvir conversas alheias não é educado — rosnou ela, as garras à mostra.
O filhote se debateu por um instante.
— Saia de cima de mim, sua psicopata! — reclamou e então, ao perceber quem o segurava, abriu um sorriso descarado. — Mas confesso que gostei da recepção.
As sete filhotes encararam a cena, confusas.
Antes que a situação se tornasse mais estranha, uma terceira figura surgiu entre os arbustos: uma filhote de pelagem marrom clara, com olhos de cores diferentes, expressão cansada e claramente acostumada a lidar com aquilo.
— Hasa — ela suspirou — levante antes que realmente morra.
Kisai estreitou os olhos, mas afrouxou a pressão e se afastou. O filhote se levantou, sacudindo a poeira do pelo e ainda sorrindo.
— Estou apenas brincando, querida Kami. Prazer — ele fez uma leve reverência exagerada enquanto revirava os olhos para a irmã. — Desculpem o susto.
Kami aproximou-se de Walimu, apoiando a cabeça no ombro do irmão. Os olhos bicolores da pequena encaravam as sete filhotes em sua frente com curiosidade infantil.
— Vocês não deviam assustar as pessoas assim — resmungou Wami.
— Mas foi engraçado — Hasa respondeu, ainda sorrindo.
A tensão inicial dissolveu-se lentamente, substituída por curiosidade cautelosa. Akili e Kisai trocaram um olhar rápido; ambas avaliavam o trio diante delas com atenção.
— Procuramos um lar — Walimu quebra o silêncio. — Somos nômades. Nascemos perto das fronteiras de Dugani.
— O que me lembra... — Kami murmurou, arqueando a sobrancelha e inclinando a cabeça. — Onde estamos?
Kisai inclinou levemente a cabeça.
— Estão dentro do Reino de Anida.


















































