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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Roar from Within: Contos de Anida [Cap. 7 – A Decisão do Conselho]

Após as palavras de Nadia, a tensão que pesava sobre a caverna começou, lentamente, a se dissipar.

O Conselho se fragmentou em pequenos núcleos: leões que não se viam havia luas se levantaram para se cumprimentar, trocar murmúrios, medir uns aos outros com olhares atentos. O peso da acusação ainda pairava no ar, mas agora dividido entre muitos.

Hasi foi rápido em se virar, atravessando o espaço até Endra e puxando a prima para um abraço firme, quase desesperado.

— Você perdeu o juízo de vir até aqui? — Sussurrou, num tom carregado de preocupação.

— Ora essa, Hasi — Endra retrucou, soltando um riso baixo. — Eu devia estar te perguntando o mesmo. O que veio fazer aqui?

— Tecnicamente... agora faço parte do Conselho — respondeu ele, com uma careta. — Depois que mamãe e papai te exilaram, passaram a encher meus ouvidos sobre o que eu devia ou não fazer.

Hasi suspirou, irritado, e fez um gesto breve com a cabeça.

— Mandaram o coitado do Rahim me escoltar até aqui.

Endra acompanhou o gesto e reconheceu o leão de pelagem escura, que observava tudo à distância, atento demais para alguém que supostamente só “acompanhava”. Ela assentiu em silêncio. Conhecia bem a teimosia de Ananda e Dhalimu.

Então seus olhos se iluminaram.

— Hasi, quero que conheça alguém.

Ela o puxou na direção de Habi e Thadi, que conversavam com um leão dourado de juba vermelha, sua parceira, e um leão alaranjado de juba negra, visivelmente carrancudo.

— Tia Habi — anunciou Endra —, esse é meu primo, príncipe Hasi.

Habi se virou ao ouvir a voz da princesa.

— Endra, querida — disse com um sorriso diplomático, inclinando a cabeça para Hasi, que retribuiu o gesto. — Juntem-se a nós. Sarabi e Mufasa estavam nos contando algumas peripécias de seu filho.

— Peripécias? — Endra arqueou uma sobrancelha, lançando um olhar divertido para Hasi. — Ele me lembra alguém...

— Nosso pequeno Simba — Sarabi riu com suavidade. — Está crescendo rápido demais.

— Está fazendo um bom trabalho — resmungou o leão de juba negra, entediado. — A bolinha peluda cresce como deveria.

— Você me dá crédito demais, Scar — Sarabi respondeu, revirando os olhos, mas sorrindo.

— Apenas onde é necessário — Scar replicou, levantando-se. — Com licença. Tenho assuntos a resolver.

Os seis o observaram se afastar.

— Que bicho mordeu ele? — Endra murmurou.

— Não se preocupe — Mufasa disse com um sorriso curto. — Tak- Scar sempre fica de mau humor sem comer. Nem sempre foi assim.

Hasi e Endra trocaram um olhar rápido com a correção quase imperceptível, mas nada comentaram.


[...]


Quando as primeiras estrelas começaram a surgir, Nadia rugiu, chamando o Conselho de volta à ordem. Os leões retornaram às suas posições, e ela se sentou ao lado de Nidijo na elevação rochosa.

— Habi. Endra. Prossigam.

Habi se levantou.

— O Conselho não foi reunido apenas para buscar justiça para a Princesa Endra — disse, com a testa franzida. — Há algo mais grave em jogo.

O murmúrio cresceu, inquieto.

— Duas mensageiras de Anida foram atacadas a caminho de Rivalon — continuou, cortando o som com a voz firme. — Duas adolescentes.

A caverna ferveu. Acusações cruzaram o ar, vozes se elevaram, palavras duras ecoaram nas paredes de pedra.

— Ordem! — Nadia exigiu.

Em resposta, um rugido profundo, poderoso, cortou o caos.

Todos os olhares se voltaram para uma leoa de pelagem negra como a noite e olhos vermelhos, ardentes.

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

— A Rainha pediu silêncio — disse ela, a voz grave e ritmada. — E silêncio haverá.

Alguns leões se entreolharam, confusos com o sotaque.

— Façam o que a moça gigante diz — comentou uma voz envelhecida e divertida.

Uma leoa idosa entrou na caverna com passos lentos, seguida por duas mais jovens.

— Ela tem um rugido respeitável, não tem?

Os leões se curvaram em respeito.

— Vovó! — Kinga correu para abraçá-la.

— Vocês, jovens, sempre apressados — Waganga ralhou, sorrindo. — Começar Conselho sem os mais velhos... que ousadia.

Então o sorriso se apagou.

— A morte caminha entre os reinos — anunciou. — Uma sombra espessa, que apodrece o ar.

Dhalimu zombou.

— Outra visão de suas aprendizes?

Os olhos de Waganga se estreitaram.

— Ananda lhe dá voz demais para um rei consorte. Vocês fedem a sangue inocente.

O gelo caiu sobre Ananda e Dhalimu.

— Patéticos — Waganga prosseguiu. — Mal enterraram Fadhili e Heshima, e já expulsaram a herdeira legítima. Patéticos, eu digo!

— Ela está certa — Hasi declarou, avançando. — O que meus pais fizeram foi injusto.

Chaga se aventurara no exílio por conta própria naquele dia — ele mesmo confessara isso a Hasi mais tarde.

E, por pura negligência e incompetência de Ananda e Dhalimu, o filhote fora picado por uma aranha peçonhenta.

Quando Endra ouvira o grito agoniado do primo caçula, não pensara — apenas correra.

Carregara Chaga nas costas até as curandeiras, sentindo o veneno já endurecer seus músculos, a respiração dele falhando sob seu ouvido.

Se a princesa não estivesse ali, o destino do filhote teria sido fatal. Chaga sempre fora imprudente, sempre vagando sem rumo, e dessa vez isso quase lhe custara a vida.

— O garoto fala com sabedoria — disse Waganga, agora com a voz tomada por um peso mais profundo. — E temos, diante de nós, dois dilemas. Dois caminhos definitivos.

A anciã voltou-se para Endra e lhe ofereceu um sorriso suave, quase maternal.

— Minha querida, por mais brusca que tenha sido a decisão de teus tios, ainda te cabe escolher. Seu sangue é real.

Um coro de rugidos percorreu a caverna.

Nadia então se ergueu.

— Princesa Endra de Wishar, filha da finada Rainha Fadhili e do finado Rei Heshima — chamou, convidando-a a avançar. — Seu sangue lhe concede o direito de governar... ou de abdicar.

Endra assentiu. Já sabia o peso daquelas palavras.

— O Conselho lhe oferece duas escolhas — continuou Nadia, erguendo ambas as patas como quem pesa destinos. — Permanecer no trono de Wishar... ou passá-lo ao próximo na linha de sucessão: o Príncipe Hasi.

— O Conselho não tem esse direito! — Rosnou Dhalimu, avançando um passo.

— Tem, se a decisão de um reino for injusta — respondeu Endra, firme. — E se este Conselho me julga digna de escolha, então nem você, nem eu podemos negá-la.

Dhalimu rosnou e Ananda o puxou para trás.

Endra respirou fundo.

— Eu, Princesa Endra de Wishar — declarou, erguendo o queixo —, abdico do trono e o entrego ao Príncipe Hasi. Salve o Príncipe!

Sua pata bateu no chão com um rugido que ecoou pelas pedras.

O Conselho explodiu em aclamação.

Hasi, Ananda e Dhalimu apenas a encaravam — atônitos.

Ananda avançou.

— Você tem noção do que fez?!

— Você me queria fora de Wishar — sibilou Endra. — Hasi é o futuro do reino.

— Sua pirralha ingrata! — Gritou Ananda.

Pela primeira vez, Endra recuou um passo.

— Eu não envenenei minha irmã para isso! — Rugiu Ananda, as garras expostas. — Eu devia ser a sucessora!

O mundo silenciou.

Os olhos de Ananda se arregalaram tarde demais.

Rahim saltou, segurando-a pela nuca antes que ela alcançasse Endra. Dhalimu tentou avançar, mas Thadi bloqueou seu caminho.

— Mais um passo — rosnou o rei de Anida —, e você não sairá vivo daqui.

Endra não ouvia mais nada.

O passado colidia com o presente.

A doença súbita dos pais.
A agonia.
O cheiro das ervas.

Gloriosa Superba.

A verdade sempre estivera ali.

Endra rugiu — um som tão profundo que cortou o ar.

Avançou.

— O que você fez, Ananda?! — Endra gritou, ignorando o honorífico outrora respeitoso.

Rahim soltou a leoa, que caiu pesadamente no chão.

— É verdade, mãe? — A voz de Hasi quebrou. — Envenenou meus tios?

O silêncio pesava como pedra.

— Eu... sim — respondeu Ananda.

A caverna explodiu.

Endra pulou sobre ela.

— Assassina!

— Me matar não os trará de volta — zombou Ananda. — Ainda sou rainha.

— Não por muito tempo — disse Waganga.

Nadia ergueu-se.

— Ananda, seus crimes são puníveis com a morte. Mas por respeito a Hasi e Chaga, decretamos banimento do Conselho e dos reinos aliados até que Hasi assuma o trono.

Os outros reis murmuram em concordância.

— Esta decisão será tomada por votação. Se qualquer reino se opuser, Ananda e Dhalimu permanecerão no Conselho. Caso contrário, estarão banidos não apenas do Conselho, mas de todos os reinos que o compõem. Apenas o Príncipe Hasi poderá representar Wishar em futuras reuniões. — Nidijo ergueu a voz, firme, ocupando o espaço que sua mãe lhe concedia.

O olhar do leão então recaiu sobre Habi e Thadi.

— Rainha Habi e Rei Thadi, de Anida. Qual é a posição de seu reino?

Habi colocou a pata sobre o ombro de Endra, puxando-a suavemente para longe de Ananda, que ainda rosnava ao se erguer do chão.

— Anida vota a favor do banimento — declarou a rainha, a voz estável e carregada de convicção. — Fadhili e Heshima eram amigos queridos. Endra precisou atravessar terras perigosas para nos trazer a notícia de sua morte. Não podemos permitir que isso seja esquecido.

Thadi confirmou com a cabeça, mantendo-se firme entre Dhalimu e a assembleia.

Nidijo assentiu e voltou-se para os próximos.

— Rei Sahasí e Rainha Anaanda, da Árvore da Vida?

Os dois trocaram um breve olhar. A rainha pousou a pata sobre a do companheiro.

— A favor do banimento — respondeu Sahasí, com voz grave.

— Rainha Hadassah e Rei Mtawala, de Butsara?

Mtawala inclinou levemente a cabeça.

— Banimento. — E então, olhando para Habi e Endra: — Têm todo o nosso apoio, irmã. E você também, princesa.

Hadassah esfregou a face na do marido e confirmou em silêncio.

O semblante de Nidijo suavizou por um instante antes de voltar-se ao casal seguinte.

— Rainha Ariana e Rei Wiba, de Dugani?

Houve uma breve hesitação. Ariana pigarreou, os olhos verdes marcados por cansaço.

— Estamos... de acordo com o banimento.

O alívio atravessou o rosto de Nidijo.

— Rei Aeris e Rainha Yasu, do Reino das Rochas?

O casal se separou do afago lento que trocavam. 

— A favor. O que Ananda fez viola todas as leis entre os reinos. Se desejava o trono, deveria ter desafiado a irmã, não envenenado sua família — Aeris respondeu.

— Uma covardia fria — completou Yasu, sem vacilar. — Mantemos nossa decisão: banimento.

Nidijo então voltou-se para um grupo mais afastado.

— Rei Kiros e Rainha Bianka, das Terras do Norte?

Kiros ergueu a cabeça, os olhos vermelhos como brasas.

— A favor.

Poucas palavras e nenhuma dúvida. Seu filho, Shaju, observava tudo com um sorriso torto que não passou despercebido por Nidijo.

— Rei Mufasa, Rainha Sarabi e Príncipe Scar, das Terras do Reino?

— Sim — respondeu Mufasa. — Tal ato de covardia não pode ser ignorado.

— Se fizeram isso com o próprio sangue, poderiam fazer com qualquer um — acrescentou Scar, os olhos verdes estreitos. — Inclusive com a Princesa Endra.

Por fim, Nidijo voltou-se ao último casal.

— Rei Obasi e Rainha Eshe.

Obasi se levantou lentamente.

— Estamos a favor.

— Quem ataca a própria família não hesitará diante de filhotes inocentes — completou Eshe, a voz tomada de preocupação sincera.

O silêncio caiu.

Todos os olhares então se voltaram para Hasi.

O destino de Wishar agora repousava apenas em suas patas.


[...]


O mato alto se agitava sob a brisa quando o grito de Wami cortou o ar.

— Kisai já mandou nos deixar em paz, Amadi!

A filhote se colocou na frente da irmã, as patas abertas em proteção enquanto Wazi se encolhia atrás dela, cobrindo a cabeça com as patas dianteiras.

Amadi inclinou a cabeça, um sorriso torto se abrindo em seu focinho.

— É mesmo? Que curioso... — ela avançou um passo, usando a própria altura para pressioná-las. — Não estou vendo ele por aqui.

Wami e Wazi recuaram instintivamente. O tom, mais do que as palavras, as atingiu.

Amadi abriu a boca para continuar, mas o impacto veio primeiro.

Hasa surgiu como um raio e a empurrou com força. A filhote rolou alguns metros pelo chão, levantando-se logo em seguida, sacudindo a poeira e rosnando.

— Por que não enfrenta alguém do seu tamanho, sua fedelha? — Hasa avançou um passo, as garras à mostra.

Amadi respondeu com um rosnado baixo, prestes a atacar, quando os arbustos ao redor se moveram.

Walimu e Kami emergiram da vegetação, ambos com o olhar duro cravado nela.

— O quê? — Amadi zombou, o queixo erguido. — Trouxe sua cavalaria, Hasa? Mas que covarde...

— Se alguém é covarde aqui, é você — Kami rebateu, a testa franzida de desgosto. — Intimidando filhotes menores só por diversão? Eu esperava isso de Udadisi, não de você.

O focinho de Amadi se contraiu.

— Fique fora disso, sem orgulho — sibilou, recuando. — Ou sua irmã não vai ser a única a apanhar.

Ela virou-se para ir embora, mas lançou uma última farpa:

— Mais cedo ou mais tarde, Habi e Thadi vão cansar da sua família. E quando isso acontecer, vão voltar para o nada de onde vieram... para seus hábitos nômades. Vocês não passam de aberrações e mais bocas para alimentar.

O silêncio que ficou atrás dela era pesado.

As palavras tinham sido mais afiadas que qualquer garra.

Kami respirou fundo antes de se aproximar de Wami e Wazi, o sorriso que tentou oferecer era tenso e cuidadoso.

— Vocês estão bem?

Mais afastado, entre as sombras das árvores, Udadisi observava tudo.

A testa franzida, o nariz torto, os olhos presos nas gêmeas.

Dentro dele, algo se retorcia.

Um sentimento estranho.
Novo.
E impossível de ignorar.

Que sentimento estranho era esse?


[...]


Hasi engoliu em seco.

O peso do mundo parecia repousar inteiro sobre suas patas.

Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo... e então deu o passo que jamais poderia ser desfeito.

Eu, Príncipe Hasi, de Wishar — começou, a voz firme apesar da tensão que queimava em seu peito —, apoio a decisão do Conselho de banir meus pais.

Um rugido coletivo ecoou pela caverna.

A aprovação vibrava nas rochas, mas Hasi ergueu a pata, pedindo silêncio.

No entanto — continuou —, não posso assumir um trono banhado em sangue. Não seria correto. E meus tios jamais aceitariam isso.

— Hasi... o que você está fazendo? — a voz de Endra saiu trêmula.

Ele lhe lançou um sorriso suave, cheio de despedida, e voltou-se para Nadia e Nidijo.

Eu renuncio ao trono de Wishar. E quando Chaga tiver idade suficiente, o trono será dele.

O mundo pareceu parar.

Dhalimu avançou num ímpeto furioso, esbarrando em Thadi ao passar.

Mas não chegou até Endra.

Laken surgiu diante dela como uma muralha viva.

— Saia da frente, aberração — Dhalimu sibilou.

— Quero ver tentar, desgarrado invasor — Laken respondeu, baixo, mortal.

Rahim interveio antes que a explosão acontecesse.

Já chega! — A voz de Endra cortou o ar.

Ananda rugiu, os olhos em brasa.

— Seus pais teriam vergonha de você!

Não — Endra cuspiu. — Teriam vergonha de você!

— Eu teria feito tudo de novo! — Ananda gritou. — A morte deles é culpa sua!

O silêncio caiu como neve. Endra fecha os olhos e respira fundo. 

— Não é culpa minha, Ananda, e você não vai mudar a narrativa da história — a mais nova declara, se afastando da tia. 

(Dêem play no vídeo, se der erro podem avisar ^^)


— Sua culpa não encaixa mais em mim, o seu medo não funciona mais em mim — Endra encara Ananda com um olhar determinado. — Eu larguei esse conceito, agora enfim, eu vivo o paraíso.

Os leões ao redor batem suas patas no chão, acompanhando o ritmo da voz da princesa.

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — continuou —, eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim!

A voz de Endra carregava todas as emoções não ditas por ela: raiva, remorso, frustração, tristeza. Era um misto difícil de ignorar.

— Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' — Ela canta depois de uma pausa breve. — Mas eu entendo que isso não sou eu.

As leoas harmonizam com Endra, as vozes dela ecoando suavemente pelas rochas da caverna.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal — a pata de Endra passa pela juba dela, seus dedos dando um leve puxão na pelagem —, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar.

Com um olhar determinado, a princesa marcha até Ananda, parando na frente da mais velha.

— Esse medo que tu sente, eu não sinto — brandou, sorrindo determinada —, agora eu sei o que é mesmo o livre arbítrio. Fazer o bem porquê é certo, já que eu vou mesmo pro inferno!

Ananda rosna, mas Endra se afasta antes que a leoa possa tomar alguma atitude drástica. 

— Não adianta me falar que eu 'tô errada — a pata de Endra bate no chão e Nidijo faz um gesto leve com a cabeça, convidando Endra para subir a elevação. — Eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim — Endra sorri agradecida para Nidijo e sobe o amontoado de pedras, parando ao lado de Nadia. — Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' Mas eu entendo que isso não sou eu!

Os machos começam a bater as patas no chão, soltando rugidos guturais e graves.

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar — o cântico das leoas fica mais alto e os leões começam a harmonizar com elas. — Ah, ah. Ah, ah. Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?', mas eu entendo que isso não sou eu. 

A harmonização das leoas se cessa e elas batem as patas no chão. 

— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar. Ah, ah. Ah, ah — Nadia põe uma pata reconfortante no ombro de Endra, a voz da mais velha se misturando com a da mais nova enquanto fazem uma harmonização conjunta. — Oh, oh. Oh, oh.

Nadia dá um abraço breve em Endra. Um pequeno sorriso se forma nos lábios da leoa jubada e ela desce da elevação, parando na frente de Ananda novamente.

— Você é uma vergonha para o trono de Wishar, Ananda — Waganga sibila com os olhos estreitados. 

Ananda desvia o olhar e solta um rosnado.

— Não só para Wishar, como para todo e qualquer outro reino — Scar se intromete, dando um passo a frente. 

— O equilíbrio de Wishar foi perturbado com suas ações mesquinhas — Waganga continua —, e a Grande Mkuu vai puni-los grandemente por isso. Guarde minhas palavras, leoa olhos de cinábrio: você vai pagar um grande preço.

As palavras enigmáticas e crípticas de Waganga dão fim à reunião.

Dhalimu e Ananda são cercados pelos outros leões, que se aproximam com passos lentos e carrancas direcionadas a eles. 

Os dois, sem ver outra opção, recuam até a entrada da caverna, soltando rosnados e mostrando os dentes de forma defensiva. 

Isso não detém os outros leões, que continuam marchando para expulsá-los. 

Não demora para uma das leoas pular em Ananda, efetivamente fazendo a leoa alaranjada ser empurrada para fora da caverna junto de seu parceiro.

(Letra ligeiramente alterada. Espero que desfrutem ^^)

— Vergonhas, desgraças — A voz de Nidijo ecoa enquanto ele segue o grupo de leões.

— Humilhações para toda uma raça — Thadi e Hasi continuam.

— Vergonhas — o rei de Rivalon aumenta o tom de voz. 

— Ofensas — Nadia e Habi acrescentam.

— Desgraças — diz Thadi. 

— Atroz! — Endra se pronuncia.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — surge a voz grave de Obasi.

— Vergonhas — enfatiza Laken, franzindo o focinho. 

— Ofensas! — Tabia, outra leoa de Rivalon diz, aparecendo sob um rocha, e rosnando.

— Desgraças — Diz Askari bruscamente.

— Atroz! — Complementa Zura, o sentinela. 

— Ninguém mais vai confiar — Eshe estreita os olhos para Ananda e Dhalimu.

— Humilhações para toda uma raça — Hasi complementa. 

As vozes de Eshe e Bianka se harmonizam em uma só. — Vão embora agitadores!

Ananda e Dhalimu se vêem em um corredor de leões, olhando-os de cima a baixo, os seguindo com os olhos e rosnados, enquanto eles se distanciam.

— Nos deixem em paz! Ofensas! — Os leões da multidão se alternam para bradar — Desgraças, atroz!

— Traidores nunca mais! — Bianka bate sua pata contra o chão.

— Vieram trazer a discórdia entre nós — A voz grave de Obasi retorna, ainda mais decidida.

 — Vão embora agitadores! — Repetem Eshe e Bianka.

Os renegados são cercados pelas vozes de todos os leões, que seguem em constante marcha  — Trazem mal, trazem dor — harmonizam em alto e bom som. 

Belladonna, uma das aprendizes de Waganga, pula e tenta alcançar Ananda, que se encolhe.

— Cometeram traição — Kufuata, outro leão de Rivalon, tenta acertar Dhalimu, que recua para perto da parceira. 

— Pro seu lar fugirão — perto das bordas do reino, a multidão os acovarda cada vez mais —, mas não perdoaremos sem retribuição!

— Eles não são um de nós — os leões brandam em conjunto. — E jamais serão um de nós. Nunca foram um de nós, nem serão!

A marcha empurra Ananda e Dhalimu ainda mais para os limites do reino. Os dois sabiam que não poderiam se defender contra um grupo tão grande. — Quem matou um de nós, não mais voltará — continuam. — Pois, agora não há mais ninguém que vá acreditar que são um de nós.

— Pois, não são um de nós — Endra branda, a expressão da leoa mostrando decepção.

— Vergonhas — A mandíbula de Mufasa se cerra.

— Desgraças — Sarabi complementa, ao lado de Mufasa.

— Vergonhas — Scar sacode sua cabeça de um lado para o outro. 

— Desgraças — Kamilla continua, de sobrancelhas cerradas.

— Vergonhas — Hasi balança a cabeça negativamente, desviando o olhar enquanto assiste os pais fugirem.


[...]


As estrelas cobriam os céus de Anida como um véu de brasas frias, pintando a escuridão acima do reino com pontos brancos e cintilantes. A noite soprava uma brisa leve, carregando o cheiro das árvores e do rio distante.

Dentro da caverna, Udadisi se remexia sem conseguir encontrar descanso.

Desde o momento em que vira Amadi encurralar Wami e Wazi à beira dos arbustos, algo se retorcia em seu peito — um desconforto estranho, profundo, quase dolorido. Um sentimento que ele não reconhecia... e que não queria reconhecer.

Nunca se sentira assim antes.

Udadisi, pare quieto — Amadi resmungou, sonolenta, chutando o flanco do irmão enquanto se ajeitava sobre a pedra. — Preciso do meu sono da beleza.

O filhote soltou um grunhido baixo ao sentir o impacto e se levantou, estalando a língua, a paciência no limite. Marchou para fora da caverna sem dizer nada e se deitou sobre a rocha ainda morna, permitindo que a vastidão do céu o engolisse.

As estrelas observavam tudo.

Ele sempre defendera Amadi. Sempre rira junto. Sempre seguira o fluxo.

Então... por que agora aquilo parecia errado?

Você está estranho.

Udadisi virou a cabeça e encontrou Akili sentada à entrada da caverna, observando-o com atenção curiosa.

Pegou Febre da Girafa? — Ela provocou, aproximando-se e se sentando ao lado dele.

— Do que está falando? — Questionou, desviando o olhar para o céu.

— Você não está mais zombando de ninguém, nem fazendo piadas idiotas, nem usando o pronome errado com Kisai — Akili respondeu. — Não que eu esteja reclamando. Mas... o que houve?

Udadisi hesitou. Seus olhos se moveram até a boca da caverna, onde Wami e Wazi dormiam lado a lado, os corpos pequenos encostados um no outro.

Akili seguiu o olhar dele.

E então sorriu.

— Ah... entendi.

Ele não respondeu.

— Udadisi tem uma quedinha... — murmurou ela. — Mas por quem? Pela Wami?

Ele ficou em silêncio.

O sorriso de Akili cresceu, torto, como quem tivesse descoberto um segredo.

— Ou talvez... pela Wazi?

Udadisi virou-se de súbito.

— E daí que eu tenho uma quedinha por ela? — Bufou, cruzando as patas, o rosto quente sob o pelo. — Isso não é da sua conta!

Akili riu baixinho.

— É por isso que você anda tão quieto esses dias.

Ele não respondeu, apenas franziu a testa.

— Fique tranquilo — ela disse, se levantando. — Seu segredo está seguro comigo.

Akili voltou para dentro da caverna, deixando Udadisi sozinho sob o céu.