Após as palavras de Nadia, a tensão que pesava sobre a caverna começou, lentamente, a se dissipar.
O Conselho se fragmentou em pequenos núcleos: leões que não se viam havia luas se levantaram para se cumprimentar, trocar murmúrios, medir uns aos outros com olhares atentos. O peso da acusação ainda pairava no ar, mas agora dividido entre muitos.
Hasi foi rápido em se virar, atravessando o espaço até Endra e puxando a prima para um abraço firme, quase desesperado.
— Você perdeu o juízo de vir até aqui? — Sussurrou, num tom carregado de preocupação.
— Ora essa, Hasi — Endra retrucou, soltando um riso baixo. — Eu devia estar te perguntando o mesmo. O que veio fazer aqui?
— Tecnicamente... agora faço parte do Conselho — respondeu ele, com uma careta. — Depois que mamãe e papai te exilaram, passaram a encher meus ouvidos sobre o que eu devia ou não fazer.
Hasi suspirou, irritado, e fez um gesto breve com a cabeça.
— Mandaram o coitado do Rahim me escoltar até aqui.
Endra acompanhou o gesto e reconheceu o leão de pelagem escura, que observava tudo à distância, atento demais para alguém que supostamente só “acompanhava”. Ela assentiu em silêncio. Conhecia bem a teimosia de Ananda e Dhalimu.
Então seus olhos se iluminaram.
— Hasi, quero que conheça alguém.
Ela o puxou na direção de Habi e Thadi, que conversavam com um leão dourado de juba vermelha, sua parceira, e um leão alaranjado de juba negra, visivelmente carrancudo.
— Tia Habi — anunciou Endra —, esse é meu primo, príncipe Hasi.
Habi se virou ao ouvir a voz da princesa.
— Endra, querida — disse com um sorriso diplomático, inclinando a cabeça para Hasi, que retribuiu o gesto. — Juntem-se a nós. Sarabi e Mufasa estavam nos contando algumas peripécias de seu filho.
— Peripécias? — Endra arqueou uma sobrancelha, lançando um olhar divertido para Hasi. — Ele me lembra alguém...
— Nosso pequeno Simba — Sarabi riu com suavidade. — Está crescendo rápido demais.
— Está fazendo um bom trabalho — resmungou o leão de juba negra, entediado. — A bolinha peluda cresce como deveria.
— Você me dá crédito demais, Scar — Sarabi respondeu, revirando os olhos, mas sorrindo.
— Apenas onde é necessário — Scar replicou, levantando-se. — Com licença. Tenho assuntos a resolver.
Os seis o observaram se afastar.
— Que bicho mordeu ele? — Endra murmurou.
— Não se preocupe — Mufasa disse com um sorriso curto. — Tak- Scar sempre fica de mau humor sem comer. Nem sempre foi assim.
Hasi e Endra trocaram um olhar rápido com a correção quase imperceptível, mas nada comentaram.
[...]
Quando as primeiras estrelas começaram a surgir, Nadia rugiu, chamando o Conselho de volta à ordem. Os leões retornaram às suas posições, e ela se sentou ao lado de Nidijo na elevação rochosa.
— Habi. Endra. Prossigam.
Habi se levantou.
— O Conselho não foi reunido apenas para buscar justiça para a Princesa Endra — disse, com a testa franzida. — Há algo mais grave em jogo.
O murmúrio cresceu, inquieto.
— Duas mensageiras de Anida foram atacadas a caminho de Rivalon — continuou, cortando o som com a voz firme. — Duas adolescentes.
A caverna ferveu. Acusações cruzaram o ar, vozes se elevaram, palavras duras ecoaram nas paredes de pedra.
— Ordem! — Nadia exigiu.
Em resposta, um rugido profundo, poderoso, cortou o caos.
Todos os olhares se voltaram para uma leoa de pelagem negra como a noite e olhos vermelhos, ardentes.
O silêncio que se seguiu foi quase físico.
— A Rainha pediu silêncio — disse ela, a voz grave e ritmada. — E silêncio haverá.
Alguns leões se entreolharam, confusos com o sotaque.
— Façam o que a moça gigante diz — comentou uma voz envelhecida e divertida.
Uma leoa idosa entrou na caverna com passos lentos, seguida por duas mais jovens.
— Ela tem um rugido respeitável, não tem?
Os leões se curvaram em respeito.
— Vovó! — Kinga correu para abraçá-la.
— Vocês, jovens, sempre apressados — Waganga ralhou, sorrindo. — Começar Conselho sem os mais velhos... que ousadia.
Então o sorriso se apagou.
— A morte caminha entre os reinos — anunciou. — Uma sombra espessa, que apodrece o ar.
Dhalimu zombou.
— Outra visão de suas aprendizes?
Os olhos de Waganga se estreitaram.
— Ananda lhe dá voz demais para um rei consorte. Vocês fedem a sangue inocente.
O gelo caiu sobre Ananda e Dhalimu.
— Patéticos — Waganga prosseguiu. — Mal enterraram Fadhili e Heshima, e já expulsaram a herdeira legítima. Patéticos, eu digo!
— Ela está certa — Hasi declarou, avançando. — O que meus pais fizeram foi injusto.
Chaga se aventurara no exílio por conta própria naquele dia — ele mesmo confessara isso a Hasi mais tarde.
E, por pura negligência e incompetência de Ananda e Dhalimu, o filhote fora picado por uma aranha peçonhenta.
Quando Endra ouvira o grito agoniado do primo caçula, não pensara — apenas correra.
Carregara Chaga nas costas até as curandeiras, sentindo o veneno já endurecer seus músculos, a respiração dele falhando sob seu ouvido.
Se a princesa não estivesse ali, o destino do filhote teria sido fatal. Chaga sempre fora imprudente, sempre vagando sem rumo, e dessa vez isso quase lhe custara a vida.
— O garoto fala com sabedoria — disse Waganga, agora com a voz tomada por um peso mais profundo. — E temos, diante de nós, dois dilemas. Dois caminhos definitivos.
A anciã voltou-se para Endra e lhe ofereceu um sorriso suave, quase maternal.
— Minha querida, por mais brusca que tenha sido a decisão de teus tios, ainda te cabe escolher. Seu sangue é real.
Um coro de rugidos percorreu a caverna.
Nadia então se ergueu.
— Princesa Endra de Wishar, filha da finada Rainha Fadhili e do finado Rei Heshima — chamou, convidando-a a avançar. — Seu sangue lhe concede o direito de governar... ou de abdicar.
Endra assentiu. Já sabia o peso daquelas palavras.
— O Conselho lhe oferece duas escolhas — continuou Nadia, erguendo ambas as patas como quem pesa destinos. — Permanecer no trono de Wishar... ou passá-lo ao próximo na linha de sucessão: o Príncipe Hasi.
— O Conselho não tem esse direito! — Rosnou Dhalimu, avançando um passo.
— Tem, se a decisão de um reino for injusta — respondeu Endra, firme. — E se este Conselho me julga digna de escolha, então nem você, nem eu podemos negá-la.
Dhalimu rosnou e Ananda o puxou para trás.
Endra respirou fundo.
— Eu, Princesa Endra de Wishar — declarou, erguendo o queixo —, abdico do trono e o entrego ao Príncipe Hasi. Salve o Príncipe!
Sua pata bateu no chão com um rugido que ecoou pelas pedras.
O Conselho explodiu em aclamação.
Hasi, Ananda e Dhalimu apenas a encaravam — atônitos.
Ananda avançou.
— Você tem noção do que fez?!
— Você me queria fora de Wishar — sibilou Endra. — Hasi é o futuro do reino.
— Sua pirralha ingrata! — Gritou Ananda.
Pela primeira vez, Endra recuou um passo.
— Eu não envenenei minha irmã para isso! — Rugiu Ananda, as garras expostas. — Eu devia ser a sucessora!
O mundo silenciou.
Os olhos de Ananda se arregalaram tarde demais.
Rahim saltou, segurando-a pela nuca antes que ela alcançasse Endra. Dhalimu tentou avançar, mas Thadi bloqueou seu caminho.
— Mais um passo — rosnou o rei de Anida —, e você não sairá vivo daqui.
Endra não ouvia mais nada.
O passado colidia com o presente.
A doença súbita dos pais.
A agonia.
O cheiro das ervas.
Gloriosa Superba.
A verdade sempre estivera ali.
Endra rugiu — um som tão profundo que cortou o ar.
Avançou.
— O que você fez, Ananda?! — Endra gritou, ignorando o honorífico outrora respeitoso.
Rahim soltou a leoa, que caiu pesadamente no chão.
— É verdade, mãe? — A voz de Hasi quebrou. — Envenenou meus tios?
O silêncio pesava como pedra.
— Eu... sim — respondeu Ananda.
A caverna explodiu.
Endra pulou sobre ela.
— Assassina!
— Me matar não os trará de volta — zombou Ananda. — Ainda sou rainha.
— Não por muito tempo — disse Waganga.
Nadia ergueu-se.
— Ananda, seus crimes são puníveis com a morte. Mas por respeito a Hasi e Chaga, decretamos banimento do Conselho e dos reinos aliados até que Hasi assuma o trono.
Os outros reis murmuram em concordância.
— Esta decisão será tomada por votação. Se qualquer reino se opuser, Ananda e Dhalimu permanecerão no Conselho. Caso contrário, estarão banidos não apenas do Conselho, mas de todos os reinos que o compõem. Apenas o Príncipe Hasi poderá representar Wishar em futuras reuniões. — Nidijo ergueu a voz, firme, ocupando o espaço que sua mãe lhe concedia.
O olhar do leão então recaiu sobre Habi e Thadi.
— Rainha Habi e Rei Thadi, de Anida. Qual é a posição de seu reino?
Habi colocou a pata sobre o ombro de Endra, puxando-a suavemente para longe de Ananda, que ainda rosnava ao se erguer do chão.
— Anida vota a favor do banimento — declarou a rainha, a voz estável e carregada de convicção. — Fadhili e Heshima eram amigos queridos. Endra precisou atravessar terras perigosas para nos trazer a notícia de sua morte. Não podemos permitir que isso seja esquecido.
Thadi confirmou com a cabeça, mantendo-se firme entre Dhalimu e a assembleia.
Nidijo assentiu e voltou-se para os próximos.
— Rei Sahasí e Rainha Anaanda, da Árvore da Vida?
Os dois trocaram um breve olhar. A rainha pousou a pata sobre a do companheiro.
— A favor do banimento — respondeu Sahasí, com voz grave.
— Rainha Hadassah e Rei Mtawala, de Butsara?
Mtawala inclinou levemente a cabeça.
— Banimento. — E então, olhando para Habi e Endra: — Têm todo o nosso apoio, irmã. E você também, princesa.
Hadassah esfregou a face na do marido e confirmou em silêncio.
O semblante de Nidijo suavizou por um instante antes de voltar-se ao casal seguinte.
— Rainha Ariana e Rei Wiba, de Dugani?
Houve uma breve hesitação. Ariana pigarreou, os olhos verdes marcados por cansaço.
— Estamos... de acordo com o banimento.
O alívio atravessou o rosto de Nidijo.
— Rei Aeris e Rainha Yasu, do Reino das Rochas?
O casal se separou do afago lento que trocavam.
— A favor. O que Ananda fez viola todas as leis entre os reinos. Se desejava o trono, deveria ter desafiado a irmã, não envenenado sua família — Aeris respondeu.
— Uma covardia fria — completou Yasu, sem vacilar. — Mantemos nossa decisão: banimento.
Nidijo então voltou-se para um grupo mais afastado.
— Rei Kiros e Rainha Bianka, das Terras do Norte?
Kiros ergueu a cabeça, os olhos vermelhos como brasas.
— A favor.
Poucas palavras e nenhuma dúvida. Seu filho, Shaju, observava tudo com um sorriso torto que não passou despercebido por Nidijo.
— Rei Mufasa, Rainha Sarabi e Príncipe Scar, das Terras do Reino?
— Sim — respondeu Mufasa. — Tal ato de covardia não pode ser ignorado.
— Se fizeram isso com o próprio sangue, poderiam fazer com qualquer um — acrescentou Scar, os olhos verdes estreitos. — Inclusive com a Princesa Endra.
Por fim, Nidijo voltou-se ao último casal.
— Rei Obasi e Rainha Eshe.
Obasi se levantou lentamente.
— Estamos a favor.
— Quem ataca a própria família não hesitará diante de filhotes inocentes — completou Eshe, a voz tomada de preocupação sincera.
O silêncio caiu.
Todos os olhares então se voltaram para Hasi.
O destino de Wishar agora repousava apenas em suas patas.
[...]
O mato alto se agitava sob a brisa quando o grito de Wami cortou o ar.
— Kisai já mandou nos deixar em paz, Amadi!
A filhote se colocou na frente da irmã, as patas abertas em proteção enquanto Wazi se encolhia atrás dela, cobrindo a cabeça com as patas dianteiras.
Amadi inclinou a cabeça, um sorriso torto se abrindo em seu focinho.
— É mesmo? Que curioso... — ela avançou um passo, usando a própria altura para pressioná-las. — Não estou vendo ele por aqui.
Wami e Wazi recuaram instintivamente. O tom, mais do que as palavras, as atingiu.
Amadi abriu a boca para continuar, mas o impacto veio primeiro.
Hasa surgiu como um raio e a empurrou com força. A filhote rolou alguns metros pelo chão, levantando-se logo em seguida, sacudindo a poeira e rosnando.
— Por que não enfrenta alguém do seu tamanho, sua fedelha? — Hasa avançou um passo, as garras à mostra.
Amadi respondeu com um rosnado baixo, prestes a atacar, quando os arbustos ao redor se moveram.
Walimu e Kami emergiram da vegetação, ambos com o olhar duro cravado nela.
— O quê? — Amadi zombou, o queixo erguido. — Trouxe sua cavalaria, Hasa? Mas que covarde...
— Se alguém é covarde aqui, é você — Kami rebateu, a testa franzida de desgosto. — Intimidando filhotes menores só por diversão? Eu esperava isso de Udadisi, não de você.
O focinho de Amadi se contraiu.
— Fique fora disso, sem orgulho — sibilou, recuando. — Ou sua irmã não vai ser a única a apanhar.
Ela virou-se para ir embora, mas lançou uma última farpa:
— Mais cedo ou mais tarde, Habi e Thadi vão cansar da sua família. E quando isso acontecer, vão voltar para o nada de onde vieram... para seus hábitos nômades. Vocês não passam de aberrações e mais bocas para alimentar.
O silêncio que ficou atrás dela era pesado.
As palavras tinham sido mais afiadas que qualquer garra.
Kami respirou fundo antes de se aproximar de Wami e Wazi, o sorriso que tentou oferecer era tenso e cuidadoso.
— Vocês estão bem?
Mais afastado, entre as sombras das árvores, Udadisi observava tudo.
A testa franzida, o nariz torto, os olhos presos nas gêmeas.
Dentro dele, algo se retorcia.
Um sentimento estranho.
Novo.
E impossível de ignorar.
Que sentimento estranho era esse?
[...]
Hasi engoliu em seco.
O peso do mundo parecia repousar inteiro sobre suas patas.
Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo... e então deu o passo que jamais poderia ser desfeito.
— Eu, Príncipe Hasi, de Wishar — começou, a voz firme apesar da tensão que queimava em seu peito —, apoio a decisão do Conselho de banir meus pais.
Um rugido coletivo ecoou pela caverna.
A aprovação vibrava nas rochas, mas Hasi ergueu a pata, pedindo silêncio.
— No entanto — continuou —, não posso assumir um trono banhado em sangue. Não seria correto. E meus tios jamais aceitariam isso.
— Hasi... o que você está fazendo? — a voz de Endra saiu trêmula.
Ele lhe lançou um sorriso suave, cheio de despedida, e voltou-se para Nadia e Nidijo.
— Eu renuncio ao trono de Wishar. E quando Chaga tiver idade suficiente, o trono será dele.
O mundo pareceu parar.
Dhalimu avançou num ímpeto furioso, esbarrando em Thadi ao passar.
Mas não chegou até Endra.
Laken surgiu diante dela como uma muralha viva.
— Saia da frente, aberração — Dhalimu sibilou.
— Quero ver tentar, desgarrado invasor — Laken respondeu, baixo, mortal.
Rahim interveio antes que a explosão acontecesse.
— Já chega! — A voz de Endra cortou o ar.
Ananda rugiu, os olhos em brasa.
— Seus pais teriam vergonha de você!
— Não — Endra cuspiu. — Teriam vergonha de você!
— Eu teria feito tudo de novo! — Ananda gritou. — A morte deles é culpa sua!
O silêncio caiu como neve. Endra fecha os olhos e respira fundo.
— Não é culpa minha, Ananda, e você não vai mudar a narrativa da história — a mais nova declara, se afastando da tia.
(Dêem play no vídeo, se der erro podem avisar ^^)
— Sua culpa não encaixa mais em mim, o seu medo não funciona mais em mim — Endra encara Ananda com um olhar determinado. — Eu larguei esse conceito, agora enfim, eu vivo o paraíso.
Os leões ao redor batem suas patas no chão, acompanhando o ritmo da voz da princesa.
— Não adianta me falar que eu 'tô errada — continuou —, eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim!
A voz de Endra carregava todas as emoções não ditas por ela: raiva, remorso, frustração, tristeza. Era um misto difícil de ignorar.
— Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' — Ela canta depois de uma pausa breve. — Mas eu entendo que isso não sou eu.
As leoas harmonizam com Endra, as vozes dela ecoando suavemente pelas rochas da caverna.
— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal — a pata de Endra passa pela juba dela, seus dedos dando um leve puxão na pelagem —, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar.
Com um olhar determinado, a princesa marcha até Ananda, parando na frente da mais velha.
— Esse medo que tu sente, eu não sinto — brandou, sorrindo determinada —, agora eu sei o que é mesmo o livre arbítrio. Fazer o bem porquê é certo, já que eu vou mesmo pro inferno!
Ananda rosna, mas Endra se afasta antes que a leoa possa tomar alguma atitude drástica.
— Não adianta me falar que eu 'tô errada — a pata de Endra bate no chão e Nidijo faz um gesto leve com a cabeça, convidando Endra para subir a elevação. — Eu não vejo o que você vê e nada me faria desistir de ser livre assim — Endra sorri agradecida para Nidijo e sobe o amontoado de pedras, parando ao lado de Nadia. — Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?' Mas eu entendo que isso não sou eu!
Os machos começam a bater as patas no chão, soltando rugidos guturais e graves.
— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar — o cântico das leoas fica mais alto e os leões começam a harmonizar com elas. — Ah, ah. Ah, ah. Por tantas vezes eu me ajoelhei, pensando 'por que eu não posso ser como você?', mas eu entendo que isso não sou eu.
A harmonização das leoas se cessa e elas batem as patas no chão.
— Por tantas vezes eu pedi pra ser normal, mas isso seria tão banal. Eu não quero me encaixar. Ah, ah. Ah, ah — Nadia põe uma pata reconfortante no ombro de Endra, a voz da mais velha se misturando com a da mais nova enquanto fazem uma harmonização conjunta. — Oh, oh. Oh, oh.
Nadia dá um abraço breve em Endra. Um pequeno sorriso se forma nos lábios da leoa jubada e ela desce da elevação, parando na frente de Ananda novamente.
— Você é uma vergonha para o trono de Wishar, Ananda — Waganga sibila com os olhos estreitados.
Ananda desvia o olhar e solta um rosnado.
— Não só para Wishar, como para todo e qualquer outro reino — Scar se intromete, dando um passo a frente.
— O equilíbrio de Wishar foi perturbado com suas ações mesquinhas — Waganga continua —, e a Grande Mkuu vai puni-los grandemente por isso. Guarde minhas palavras, leoa olhos de cinábrio: você vai pagar um grande preço.
As palavras enigmáticas e crípticas de Waganga dão fim à reunião.
Dhalimu e Ananda são cercados pelos outros leões, que se aproximam com passos lentos e carrancas direcionadas a eles.
Os dois, sem ver outra opção, recuam até a entrada da caverna, soltando rosnados e mostrando os dentes de forma defensiva.
Isso não detém os outros leões, que continuam marchando para expulsá-los.
Não demora para uma das leoas pular em Ananda, efetivamente fazendo a leoa alaranjada ser empurrada para fora da caverna junto de seu parceiro.
(Letra ligeiramente alterada. Espero que desfrutem ^^)
— Vergonhas, desgraças — A voz de Nidijo ecoa enquanto ele segue o grupo de leões.
— Humilhações para toda uma raça — Thadi e Hasi continuam.
— Vergonhas — o rei de Rivalon aumenta o tom de voz.
— Ofensas — Nadia e Habi acrescentam.
— Desgraças — diz Thadi.
— Atroz! — Endra se pronuncia.
— Vieram trazer a discórdia entre nós — surge a voz grave de Obasi.
— Vergonhas — enfatiza Laken, franzindo o focinho.
— Ofensas! — Tabia, outra leoa de Rivalon diz, aparecendo sob um rocha, e rosnando.
— Desgraças — Diz Askari bruscamente.
— Atroz! — Complementa Zura, o sentinela.
— Ninguém mais vai confiar — Eshe estreita os olhos para Ananda e Dhalimu.
— Humilhações para toda uma raça — Hasi complementa.
As vozes de Eshe e Bianka se harmonizam em uma só. — Vão embora agitadores!
Ananda e Dhalimu se vêem em um corredor de leões, olhando-os de cima a baixo, os seguindo com os olhos e rosnados, enquanto eles se distanciam.
— Nos deixem em paz! Ofensas! — Os leões da multidão se alternam para bradar — Desgraças, atroz!
— Traidores nunca mais! — Bianka bate sua pata contra o chão.
— Vieram trazer a discórdia entre nós — A voz grave de Obasi retorna, ainda mais decidida.
— Vão embora agitadores! — Repetem Eshe e Bianka.
Os renegados são cercados pelas vozes de todos os leões, que seguem em constante marcha — Trazem mal, trazem dor — harmonizam em alto e bom som.
Belladonna, uma das aprendizes de Waganga, pula e tenta alcançar Ananda, que se encolhe.
— Cometeram traição — Kufuata, outro leão de Rivalon, tenta acertar Dhalimu, que recua para perto da parceira.
— Pro seu lar fugirão — perto das bordas do reino, a multidão os acovarda cada vez mais —, mas não perdoaremos sem retribuição!
— Eles não são um de nós — os leões brandam em conjunto. — E jamais serão um de nós. Nunca foram um de nós, nem serão!
A marcha empurra Ananda e Dhalimu ainda mais para os limites do reino. Os dois sabiam que não poderiam se defender contra um grupo tão grande. — Quem matou um de nós, não mais voltará — continuam. — Pois, agora não há mais ninguém que vá acreditar que são um de nós.
— Pois, não são um de nós — Endra branda, a expressão da leoa mostrando decepção.
— Vergonhas — A mandíbula de Mufasa se cerra.
— Desgraças — Sarabi complementa, ao lado de Mufasa.
— Vergonhas — Scar sacode sua cabeça de um lado para o outro.
— Desgraças — Kamilla continua, de sobrancelhas cerradas.
— Vergonhas — Hasi balança a cabeça negativamente, desviando o olhar enquanto assiste os pais fugirem.
[...]
As estrelas cobriam os céus de Anida como um véu de brasas frias, pintando a escuridão acima do reino com pontos brancos e cintilantes. A noite soprava uma brisa leve, carregando o cheiro das árvores e do rio distante.
Dentro da caverna, Udadisi se remexia sem conseguir encontrar descanso.
Desde o momento em que vira Amadi encurralar Wami e Wazi à beira dos arbustos, algo se retorcia em seu peito — um desconforto estranho, profundo, quase dolorido. Um sentimento que ele não reconhecia... e que não queria reconhecer.
Nunca se sentira assim antes.
— Udadisi, pare quieto — Amadi resmungou, sonolenta, chutando o flanco do irmão enquanto se ajeitava sobre a pedra. — Preciso do meu sono da beleza.
O filhote soltou um grunhido baixo ao sentir o impacto e se levantou, estalando a língua, a paciência no limite. Marchou para fora da caverna sem dizer nada e se deitou sobre a rocha ainda morna, permitindo que a vastidão do céu o engolisse.
As estrelas observavam tudo.
Ele sempre defendera Amadi. Sempre rira junto. Sempre seguira o fluxo.
Então... por que agora aquilo parecia errado?
— Você está estranho.
Udadisi virou a cabeça e encontrou Akili sentada à entrada da caverna, observando-o com atenção curiosa.
— Pegou Febre da Girafa? — Ela provocou, aproximando-se e se sentando ao lado dele.
— Do que está falando? — Questionou, desviando o olhar para o céu.
— Você não está mais zombando de ninguém, nem fazendo piadas idiotas, nem usando o pronome errado com Kisai — Akili respondeu. — Não que eu esteja reclamando. Mas... o que houve?
Udadisi hesitou. Seus olhos se moveram até a boca da caverna, onde Wami e Wazi dormiam lado a lado, os corpos pequenos encostados um no outro.
Akili seguiu o olhar dele.
E então sorriu.
— Ah... entendi.
Ele não respondeu.
— Udadisi tem uma quedinha... — murmurou ela. — Mas por quem? Pela Wami?
Ele ficou em silêncio.
O sorriso de Akili cresceu, torto, como quem tivesse descoberto um segredo.
— Ou talvez... pela Wazi?
Udadisi virou-se de súbito.
— E daí que eu tenho uma quedinha por ela? — Bufou, cruzando as patas, o rosto quente sob o pelo. — Isso não é da sua conta!
Akili riu baixinho.
— É por isso que você anda tão quieto esses dias.
Ele não respondeu, apenas franziu a testa.
— Fique tranquilo — ela disse, se levantando. — Seu segredo está seguro comigo.
Akili voltou para dentro da caverna, deixando Udadisi sozinho sob o céu.
