Os filhotes, atônitos com a revelação repentina de Amadi, trocam olhares confusos e curiosos.
Udadisi tinha uma queda por alguém?
As bochechas de Udadisi se enrubescem e o filhote desvia o olhar.
— Não é... uma quedinha — retrucou entredentes.
— Ah, por favor — Amadi revira os olhos. — Até os adultos comentam sobre sua afeição repentina pela...
— Madi, já chega! — Kiny se pronuncia finalmente, a pata do filhote menor batendo com força no chão.
O choque é evidente na face dos outros.
Kiny nunca batia de frente com Amadi, isso era território novo para ele.
— Que coisa mais chata! — O menor continuou, se pondo na frente da irmã mais velha. — Está ficando igualzinha a mamãe, sinceramente!
As orelhas de Amadi se achatam e um breve olhar de arrependimento aparece nas feições dela, rapidamente substituído por uma expressão brava.
— Para a caverna, Kiny — mandou, num rosnado gutural.
— Não! — O protesto de Kiny ecoa, ganhando a atenção dos poucos leões que descansavam na entrada da caverna.
— Eu mandei entrar! — Amadi grita, empurrando Kiny com o corpo dela.
Kiny solta um miado de desconforto e Wazi se põe entre os dois. A filhote tremia ligeiramente, mas tinha uma expressão determinada no rosto.
— Peça desculpas, Amadi — a filhote diz, encarando Amadi com braveza.
As pupilas de Amadi se estreitam e ela rosna. — Ou o quê? Hein?!
— Aguentamos quando você é uma valentona conosco porque você nos vê como sem orgulho — Wami se intromete, se pondo à esquerda da irmã e na frente de Kiny de forma protetora —, mas está sendo uma valentona com seu próprio irmão. Isso acaba agora.
Amadi solta um rosnado baixo. A pelagem de seu pescoço se eriça e suas garras ficam a mostra.
Udadisi se move, ficando à direita de Wazi com uma expressão determinada. Os outros filhotes se põe na frente de Kiny também, formando uma barreira improvisada.
— Amadi, eu não queria fazer isso de novo — Hakuwa se pronuncia, dando um passo a frente —, mas como príncipe de Anida e futuro rei, estou ordenando que você peça desculpas a seu irmão, Kisai, Akili, Mwezi, Jioni, Safi, Wami e Wazi por seu comportamento hostil nas últimas semanas. Agora!
As expressões nos rostos dos filhotes na frente de Amadi variam de raiva a determinação.
Quando Amadi não faz menção de se pronunciar, Hakuwa se aproxima mais, ficando cara a cara com a filhote teimosa.
— Agora, Amadi! — Repete em tom bravo, não deixando espaço para relutância.
Amadi solta um rosnado curto.
— Está bem, está bem! — Ela esbraveja, olhando por cima do ombro de Hakuwa com o cenho franzido. — Me desculpem.
O pedido sai entre dentes e forçado.
— Amadi... — Hakuwa rosna em forma de aviso. Era o primeiro sinal de agressividade que o filhote mostrara, geralmente Hakuwa era bem tolerante.
Amadi se encolhe levemente e solta um bufo frustrado.
— Me... desculpem — ela resmunga, desviando o olhar e relaxando a postura defensiva.
A postura de Hakuwa também relaxa e ele abre um pequeno sorriso satisfeito.
Um silêncio breve se instala.
Então, os lábios de Amadi se contraem em um sorriso perverso.
— E me desculpem por vocês serem meras aberrações, incapazes de entenderem que nunca serão bem-vindas aqui! — Os olhos da filhote brilham com raiva e ela se afasta com passos firmes, esbarrando propositalmente nos filhotes que se puseram em seu caminho, deixando os outros pequenos completamente atônitos.
[...]
O anoitecer em Rivalon sempre trazia consigo várias estrelas e constelações.
Os leões estavam reunidos ao redor de pequenas piras, apreciando o calor das chamas enquanto contavam histórias e conversavam.
Num canto mais afastado, Scar observava os casais e amigos com o focinho torcido.
— Tua Guarda não os acompanhou nesta jornada? — Waganga se aproxima do mais novo, sentando-se ao lado dele enquanto assistia os outros.
— Estávamos lidando com um invasor quando recebemos o pássaro mensageiro — ele explica, erguendo os olhos para a anciã. — Os deixei encarregados de cuidar da segurança do reino enquanto Mufasa e eu vínhamos para cá.
Um silêncio, salvo pelo burburinho dos outros leões, se instala entre os dois.
— Percorreu uma longa distância até aqui, velhota — ele comenta, suspirando. — Sua neta deve ser bem importante, hein?
Os olhos bicolores de Waganga vagam para Kinga, que conversava com algumas fêmeas. Scar segue o olhar dela e ele abre um sorriso de canto.
— Os machos a acham bonita — Scar nota, gesticulando para um grupo de leões que conversavam entre si enquanto olhavam na direção de Kinga e das outras leoas. — Mas creio que... ela não se sinta da mesma forma por eles, não é?
Waganga franze o cenho.
É claro que ela sabia o que o príncipe das Terras do Reino insinuava.
Kinga não gostava de machos.
Este fato era conhecimento de poucos, mas bastava somente uma observação mais precisa para se notar.
Waganga solta um rosnado baixo que parece divertir Scar.
— Curioso... — ele murmurou. — Talvez ela apenas esteja procurando alguém que ainda não encontrou.
Com um último sorriso de soslaio para Waganga, Scar desaparece na relva alta, seguindo em direção às planícies de Rivalon.
A anciã o observa partir com os olhos estreitos, balançando a cabeça antes de se aproximar de Nadia, que cuidava dos filhotes.
— Conte de novo, vovó! — Uma filhote de olhos azuis e pelo bege claro se pronuncia, se esfregando na lateral do corpo de Nadia. — Conte como a Guarda foi formada!
— Ora, essa, Ayana — Nadia solta uma risada calorosa, se deitando próxima dos filhotes. — Vocês estão tão enérgicos esta noite. Bem, vejamos...
— Tudo começou por causa dos Walioangamiza. — Waganga se intromete, deitando em um amontoado rochoso mais alto. — Os orgulhos viviam em constante conflito com eles. Um bando de egocêntricos, se queres minha opinião.
Os filhotes, surpresos com a intromissão, trocam olhares.
Eles já tinham visto Waganga em cerimônias antes, mas ouviram que a anciã não participava mais de reuniões do Conselho devido à idade avançada.
— Muitas vidas se perderam naquela época — Waganga suspira, gesticulando para as chamas de uma pira próxima.
Os filhotes assistem, de olhos arregalados, enquanto as chamas tomam forma. Era como se estivessem sendo levados ao passado.
Waganga, por sua vez, joga um pouco de grama seca no fogo, fazendo as chamas aumentarem em proporção.
A anciã observa o fogo crescer por um instante antes de continuar, a voz mais baixa, mais pesada.
— Naqueles dias, a savana ainda não conhecia reis. Apenas líderes temporários, orgulhos que surgiam e desapareciam, territórios conquistados e perdidos ao sabor da força — pausou, torcendo o focinho com repulsa. — E então... eles vieram.
— Eles? — perguntou Kamii, a filhote menor e uma das netas de Nadia, com seus olhos azuis refletindo as chamas.
Nadia assentiu lentamente.
— Makulu, Saren, Kadan, Orin, Naru e Kintar. Os Walioangamiza.
O nome pareceu alterar o ar ao redor do círculo.
— Não pediam passagem — disse Waganga. — Tomavam-na. Onde chegavam, orgulhos se desfaziam. Alguns fugiam. Outros corajosos lutavam e morriam.
— Eles eram maiores que os outros leões? — perguntou Woola, a filhote de olhos leitosos e neta mais nova de Nadia.
— Não, meu amor — respondeu Nadia, puxando a pequena para mais perto de forma acolhedora. — Mas eram mais determinados. Mais violentos.
Waganga inclinou a cabeça.
— No início, pareciam invencíveis. Mas até as montanhas cedem à passagem do tempo.
O fogo estalou, lançando fagulhas para o céu.
— O primeiro a tombar foi Kintar — continuou Waganga. — Ele e Kadan haviam se separado do grupo após uma disputa com Makulu. Um erro tão antigo quanto os próprios machos — a mais velha suspira enquanto revira os olhos, como se tal ato dos machos fosse idiota até para ela. — O bando dos Wapiganaji os encontrou. Kadan lutou ao lado de Kintar. Mataram um dos inimigos... mas eram muitos. Os Wapiganaji perseguiram Kadan. Depois voltaram para terminar o serviço com Kintar.
Os filhotes se entreolharam em silêncio.
— E Kadan? — perguntou o filhote de pelagem clara e um pequeno topete de juba preta. O pequeno Akin.
— Voltou mais tarde — disse Nadia. — Ferido no corpo e no espírito. Mas o que ele trouxe de volta foi pior que as feridas.
Waganga respirou fundo.
— Kadan desejava ser líder, queria as fêmeas e seguia a ordem antiga: matou filhotes, até os próprios sobrinhos. Makulu não tolerou. Quando descobriu que Kadan havia devorado seus filhotes e os de seus irmãos, o expulsou.
— Ele ficou sozinho? — indagou a filhote de pelagem dourada e olhos azuis acinzentados.
— Sozinho e isolado, Binah — respondeu Nadia.
— O segundo a desaparecer foi Orin — continuou Waganga. — Alguns dizem que os Wapiganaji o mataram, outros juram que ele abandonou a savana e nunca mais foi visto.
— E Naru? — perguntou o filhote marrom com plantas amarradas a sua pata dianteira esquerda.
— Morreu lutando contra os Wapiganaji — disse Nadia. — Sem recuar. Foi um ataque surpresa.
O vento soprou mais frio.
— Kadan vagou como nômade por muitas luas — disse Waganga. — Até que encontrou leões mais cruéis do que ele próprio. Não houve piedade.
— Restaram dois — murmurou o filhote branco de olhos azuis.
Nadia assentiu. — Saren envelheceu primeiro. A fome o levou antes da morte. Makulu permaneceu ao seu lado até o último suspiro. Não eram irmãos de sangue, mas tinham um carinho enorme um pelo outro, apesar de tudo.
Os filhotes ficaram imóveis.
— E Makulu? — Woola ergue a cabeça para a avó.
— Foi o último — respondeu Nadia. — Quando partiu, a era dos Walioangamiza terminou, mas o mundo já estava quebrado.
Waganga olhou para as estrelas.
— A savana estava em ruínas. Orgulhos sem líderes, territórios sem fronteiras. Medo sem nome. Foi aí que os primeiros reinos surgiram.
— Para impedir que isso acontecesse de novo? — a cabeça de Ayana se inclina.
— Para sobreviver — Nadia corrige gentilmente. — E para criar algo que pudesse enfrentar monstros antes que eles nascessem.
— A Guarda — murmurou o de pelagem preta.
Nadia o encarou com um sorriso pequeno.
— A Guarda nasceu porque os reinos aprenderam, tarde demais, que nenhum trono resiste sozinho à escuridão.
O fogo crepitou.
— E ela protege todos os reinos? — Akin indaga.
Nadia observou o horizonte escuro de Rivalon.
— Cada Guarda protege seu reino do que ele mesmo é capaz de se tornar.
O silêncio caiu pesado sobre o círculo, como se até as estrelas estivessem escutando.
Waganga permaneceu em silêncio por um momento, como se pesasse o que ainda podia ser dito naquela noite.
As chamas já não subiam tanto; agora dançavam baixas, como se também escutassem.
— Depois da queda dos Walioangamiza — ela continuou —, o mundo necessitava de pilares. E foi então que surgiram os Três Grandes.
— Mohatu — murmurou uma filhote de pelagem cinzenta e olhos ocre.
— Limber — completou o de olhos azuis e pelagem branca.
— E Askari — concluiu Nadia.
Ela ergueu o queixo, os olhos refletindo o fogo.
— Eram irmãos, filhos de uma linhagem antiga. Quando os reinos começaram a tomar forma, cada um carregou um destino diferente: Mohatu ergueu as Terras do Reino, Askari jurou proteger o mundo e Limber foi oferecida como paz.
— Oferecida? — perguntou a menor.
— Foi prometida a Kiruki — disse Waganga, sem suavizar a voz. — O antigo imperador daquilo que hoje conhecemos como Terras Sem Lei. As guerras entre territórios estavam devorando a savana. Unir Limber a Kiruki era a tentativa dos líderes de conter o sangue.
— Mas... — outra filhote começou, hesitante — Limber não queria, não é?
Nadia fechou os olhos por um instante.
— Limber amava outro.
— Makori — disse Waganga.
O nome caiu como uma pedra na água.
— Quando Kiruki descobriu a verdade — continuou a anciã —, não a matou. Quis algo pior. Atacou Limber diante de testemunhas e rasgou sua garganta. Ela sobreviveu, entretanto nunca mais falou.
Os filhotes se encolheram.
— Limber, antes de ser oferecida, era a líder da Guarda das Terras do Reino. E foi nessa época — disse Habi, se aproximando com um sorriso gentil e alarmando os filhotes com sua presença furtiva —, que Limber e Makori foram embora e ela abdicou de seu posto como líder da guarda. Juntos, fundaram Anida.
— E Kiruki deixou? — perguntou o menor.
Waganga soltou um som seco. — Já não lhe restava escolha. A savana inteira já se erguia contra ele. Para salvar sua imagem, concordou em unir os orgulhos por meio dos filhos.
— Mas... — o filhote de olhos azuis olhou para Nadia — Limber teve um filhote, não teve?
Nadia assentiu.
— A primeira cria de Limber nasceu sem vida.
O fogo estalou.
— Foi naquela noite — disse Habi —, que surgiu a Grande Mkuu. O espírito que Anida passou a venerar. A mãe, a guardiã. A que acolhe os que não respiraram o primeiro vento.
O silêncio se aprofundou.
— Depois — continuou Nadia —, Limber gerou Antora. E Kiruki teve um filho chamado Kamau.
— E então eles foram unidos... — murmurou Habi, olhando para as estrelas com um breve olhar distante.
— Unidos pelo sangue, pela dor e pelo destino — respondeu Waganga.
Nadia ergueu o olhar para as estrelas acima de Rivalon. — Enquanto isso, Mohatu erguia seu reino, Askari assumia a Guarda ao lado do irmão, e Limber carregava um mundo inteiro nos olhos.
Os filhotes ficaram quietos, como se a noite tivesse se tornado maior ao redor deles.
— Vovó — chamou Woola —, a Guarda nasceu para impedir monstros... mas os Três Grandes também nasceram de monstros, não nasceram?
Nadia não desviou o olhar do céu.
— Sim.
E naquela noite, nem o fogo ousou contradizê-la.
[...]
A fogueira crepitava baixo, como se também estivesse cansada de ouvir histórias antigas.
Os filhotes haviam se dispersado pouco a pouco, levados pelo sono ou pela vigilância dos mais velhos. O círculo agora era ocupado apenas por adultos — leões que não precisavam fingir atenção, mas que tampouco relaxavam por completo.
Habi permanecia sentada próxima a Nadia, o corpo alinhado, a postura serena demais para alguém que realmente estivesse em descanso. Os olhos vermelhos percorriam o espaço com discrição, registrando mais do que parecia.
Kamilla estava alguns passos atrás, deitada em uma pedra, observando sem se misturar. Uma pata repousava sobre a outra, mas a cauda dela se movia lentamente, denunciando inquietação.
Scar surgiu do escuro como quem nunca precisou ser convidado.
— Histórias antigas sempre deixam um gosto curioso — ele comentou, sentando-se do outro lado da fogueira. — Principalmente quando lembram a todos do que acontece quando ninguém vigia ninguém.
Nadia não respondeu de imediato. Apenas virou a cabeça na direção dele, mantendo o olhar firme.
— Ou quando se confunde vigilância com controle — rebateu, calma.
Scar sorriu de canto.
— Uma linha muito tênue — concordou ele, seus olhos esmeralda captando a luz da lua sutilmente. — E quase sempre atravessada por quem jura estar protegendo algo maior.
Habi inclinou levemente a cabeça.
— Fala como se isso fosse exclusivo de um reino.
— Não é — Scar respondeu prontamente. — Mas alguns insistem em fingir que são exceção.
O silêncio se estendeu por um instante, denso o suficiente para que até o estalar da lenha parecesse alto demais.
Mais afastado, Mufasa conversava em voz baixa com Sarabi. Os dois observavam o ambiente com atenção calculada — não como governantes em visita, mas como predadores em território neutro.
— Rivalon nunca esteve tão cheia — comentou Sarabi, quase casualmente. — Tantos reis, tantos interesses.
— Reinos instáveis atraem presença — Mufasa respondeu. — Ninguém quer ser pego de surpresa quando algo cai.
Askari estava sentado perto da borda do círculo, silencioso. O corpo grande parecia relaxado, mas os olhos turquesa vagavam sem se fixar em nada por muito tempo. Era observado — não por curiosidade, mas por cautela.
— Ele parece... diferente — murmurou uma das leoas de Butsara, baixa demais para ser ouvida por todos, enquanto olhava para Askari.
— Ele está diferente, Núria — corrigiu Waganga, a voz surgindo sem aviso.
A anciã permanecia sentada sobre uma rocha mais elevada, quase imóvel. A luz da fogueira refletia nos caninos de seu colar, projetando sombras irregulares sobre o peito.
— A memória molda mais do que o corpo — continuou a mais velha. — Quando ela falha, o equilíbrio também se altera.
Scar ergueu uma sobrancelha.
— Interessante ouvir isso de alguém que defende tradições tão rígidas.
Waganga voltou lentamente o olhar para ele.
— Tradição não é rigidez — explicou calmamente. — É lembrança. E recordar costuma doer menos do que repetir os mesmos erros.
Kamilla apertou a mandíbula.
Ela tinha percebido os olhares. Para Askari, para Thadi, para Habi... para si.
Rivalon não deixava de notar nada.
— Vocês falam como se o mundo estivesse à beira de algo — comentou Kamilla, finalmente, a voz firme —, mas o Conselho se reuniu e decisões foram tomadas. O equilíbrio foi mantido.
Scar a encarou. — Por enquanto.
O tom não era acusatório. Era factual, um tom bem comum para o príncipe das Terras do Reino.
— Equilíbrios mantidos à força costumam ceder primeiro — acrescentou ele. — Especialmente quando alguém sai da mesa antes da hora.
Habi estreitou levemente os olhos.
— Wishar escolheu seu caminho.
— Ou foi empurrado — Scar corrigiu, dando de ombros. — A diferença costuma ser definida pelos vencedores.
Waganga soltou um som baixo, quase um suspiro.
— Palavras são sementes — murmurou, coçando a bochecha com a pata dianteira. — Algumas germinam antes do tempo.
O vento soprou mais forte, fazendo a chama vacilar e, por um instante, ninguém falou.
Kamilla percebeu então que não era apenas cansaço no ar.
Era desconfiança.
Cada leão ali observava os outros como se calculasse quanto tempo levaria até que alguém errasse o passo.
Habi se levantou lentamente.
— Já está tarde — disse, o tom gentil demais para ser apenas cortesia. — Amanhã será um dia longo para todos.
Alguns assentiram. Outros apenas observaram.
Scar se ergueu também, alongando-se com preguiça calculada.
— Claro — disse, soltando um bocejo teatral. — Reinos cansados tomam decisões interessantes pela manhã.
Habi não respondeu. Mas, enquanto se afastava, sentiu o peso de Rivalon se fechar ao redor de todos eles — como uma caverna que escuta, guarda e cobra.
Thadi a observou enquanto ela se afastava, os olhos dele se desviando para Mtawala e Hadassah, gesticulando, em um pedido silencioso e discreto, que eles a seguissem de volta para a caverna.
Mtawala assentiu, seguindo atrás de Habi com passos silenciosos enquanto Hadassah o acompanhava.
— Você sempre fica assim quando acha que algo vai dar errado — comentou Mtawala, surgindo ao lado de Habi como quem não queria interromper, mas nunca soube ficar calado por muito tempo, quando já estavam mais afastados do grupo.
Ele trazia aquele meio sorriso conhecido, o mesmo que usava desde filhote quando tentava disfarçar preocupação com leveza.
Hadassah vinha logo atrás, o corpo elegante, a postura tranquila demais para alguém atenta a tudo. Seus olhos passaram rapidamente pelo círculo que se desfazia, por Kamilla ao longe, por Waganga ainda imóvel sobre a rocha, por Thadi os observando partir.
— Não é “achar” — Habi respondeu, sem olhar para o irmão. — É reconhecer padrões.
— Claro — Mtawala bufou baixo, revirando os olhos, mas mantendo o sorriso. — Porque quando eu reconheço padrões, sou paranoico. Quando você reconhece, é sabedoria ancestral.
Um canto da boca de Habi se ergueu.
— Você sempre foi dramático.
— Herdado de família — ele rebateu, aproximando-se um pouco mais.
Habi finalmente virou o rosto para ele, o olhar brilhando com aquele tipo específico de afeto que só irmãos compartilham.
— Fui eu quem te criou, inseto — disse, num tom claramente provocativo. — Você nem chegou a conhecer a mamãe.
Mtawala piscou uma vez, ligeiramente surpreso, e depois riu, um riso curto e genuíno.
— Ah, ótimo. Agora além de rei, sou obra sua?
— Exatamente — Habi respondeu, seca, mas sorrindo. — E convenhamos: ainda assim governo mil vezes melhor do que muito macho que se acha enviado pelos céus.
Hadassah reprimiu uma risada ao fundo, desviando o olhar como quem já ouvira aquela história antes — e concordava.
— Vou fingir que isso não foi um ataque direto à masculinidade real — Mtawala disse, teatral. — Por amor próprio.
— Faça isso — Habi respondeu. — Eu fiz por anos.
Mtawala soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Você realmente não perde uma chance de lembrar que governa melhor do que qualquer macho que já respirou.
— Porque é verdade — Habi retrucou, sem hesitar.
O silêncio que se seguiu entre os três não foi desconfortável. Pelo contrário, era familiar, cheio de histórias não ditas, de lutos compartilhados cedo demais e de responsabilidades assumidas antes da hora.
Foi então que Hadassah inclinou a cabeça, observando Habi com atenção silenciosa antes de falar.
— Você carrega Anida como se fosse uma extensão do próprio corpo — disse ela, a voz suave, mas firme. — Não como um trono, mas como um lar.
Habi desviou o olhar por um instante, surpresa pela precisão.
— Alguém precisava — respondeu. — E eu não confiava que o mundo fosse gentil o bastante com eles.
Mtawala acompanhou o olhar da esposa até a irmã.
— Ela sempre foi assim — comentou, sem sarcasmo desta vez. — Desde que éramos pequenos. Se algo ameaçava ceder, Habi se colocava na frente.
Hadassah sorriu de leve.
— Talvez seja por isso que os outros reinos escutam você — disse, voltando-se para Habi. — Mesmo quando discordam.
Habi respirou fundo, o peso do conselho ainda presente em seus ombros.
— Escutar não significa entender — murmurou. — E entender não significa agir a tempo.
Hadassah se aproximou um pouco mais.
— Ainda assim, hoje você foi clara — afirmou ela, com um sorriso reconfortante. — Wishar não caiu por fraqueza alheia. Caiu por escolha própria.
Mtawala ergueu o olhar para o céu estrelado.
— E escolhas sempre cobram seu preço — ele completou. — Só espero que o Conselho esteja preparado para pagar o dele.
Habi soltou um suspiro curto.
Por um momento, os três ficaram em silêncio, observando as luzes do reino ao longe, cada um consciente de que aquela reunião não tinha encerrado conflitos, apenas os havia deslocado no tempo.
— E vocês? — Habi perguntou. — Como estão lidando com... tudo?
Mtawala trocou um olhar rápido com Hadassah.
— Do jeito que dá — ele respondeu, dando de ombros. — Fingindo normalidade até não dar mais.
Hadassah pousou a pata dianteira de leve sobre a dele, um gesto pequeno, mas firme.
— Não estamos sozinhos — comentou ela com um brilho de certeza no olhar esverdeado. — Isso já é mais do que muitos reinos podem dizer agora.
Habi soltou um suspiro lento.
— É isso que me assusta.
Mtawala arqueou a sobrancelha.
— O quê? Ter gente ao redor?
— Ter tanto a perder — Habi corrigiu suavemente.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cúmplice.
— Seja lá o que venha — Mtawala disse por fim, tocando de leve o ombro da irmã com a pata dianteira —, você não vai enfrentar sozinha. Nem como rainha, nem como irmã.
Hadassah assentiu. — Nem como leoa.
Habi fechou os olhos por um instante.
— Obrigada — murmurou com sinceridade.
[...]
Depois da saída de Habi, Mtawala e Hadassah, enquanto alguns ficavam e conversavam mais, outros se recolhiam para a caverna.
Scar tinha desaparecido na relva alta, resmungando algo sobre fazer uma patrulha noturna. Thadi tinha decidido seguir o exemplo da esposa e cunhados e se afastou.
Waganga ainda resmungava sobre profecias, Kamilla ainda revirava os olhos, Kinga juntava algumas ervas que eram visíveis apenas de noite.
Mais afastados, fazendo uma caminhada pela planície, estavam Ariana e Wiba.
Ariana caminhava alguns passos à frente, não por pressa. Mas porque ficar lado a lado exigia mais do que ela tinha naquela noite.
Wiba a seguia em silêncio, o peso do corpo dele evidente a cada passo. Rivalon estava quieta, mas não adormecida; o eco distante de vozes e fogueiras ainda subia da planície, misturando-se ao vento frio que descia das pedras.
— Eles falam como se tudo ainda pudesse ser consertado — Ariana disse, sem olhar para trás.
Wiba demorou a responder.
— Talvez precise parecer assim — murmurou ele, quase parando. — Para que ninguém desmorone agora.
Ela parou, virando apenas a cabeça para encará-lo.
— Você acredita nisso?
Wiba hesitou. Um tempo curto demais para ser conforto e longo demais para ser negação.
— Não sei — admitiu em voz baixa. — Mas acredito que, se pararmos de fingir que estamos de pé — ele engoliu em seco —, ninguém mais ficará.
Ariana fechou os olhos por um instante.
— Eu sinto falta deles — disse, simples. Crua. — De abraça-los durante a noite, de ouvi-los miar... Quero meus bebês de volta, meu abrigo.
Wiba se aproximou então, parando ao lado dela, sem tocá-la.
— Eu também, minha flor do deserto — Wiba lambeu a bochecha da esposa numa tentativa fraca de consolo. Ainda tinha esperança de encontrar os filhos vivos nesta vida.
O silêncio voltou a se instalar entre os dois, pesado, mas compartilhado.
Ariana retomou a caminhada e Wiba a acompanhou.
Nenhum dos dois sabia se o dia seguinte traria respostas. Mas sabiam, com uma clareza dolorosa, que o mundo não os esperaria.
[...]
Algumas horas já tinham se passado desde a explosão de Amadi. A filhote estava marchando pelo reino, esbravejando em voz baixa.
— Bando de idiotas — resmungou, usando a pata para bater em uma pedrinha.
A pedrinha ricocheteou contra uma rocha maior e caiu na grama seca.
Amadi parou de andar por um instante, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido demais para alguém que dizia não se importar.
— Aberrações... — murmurou de novo, mas a palavra agora soava menos afiada, mais vazia.
Ela ergueu o olhar.
À frente, a trilha de terra se abria para uma área mais silenciosa do reino, onde o vento soprava entre arbustos baixos e as vozes da caverna principal já não alcançavam. Era ali que os pensamentos vinham quando não queriam ser ignorados.
Amadi afundou as garras no solo.
Por que eles sempre tinham que se meter?
Por que Kiny tinha que falar?
Por que Hakuwa sempre tinha que parecer tão certo?
O rosto de Wazi atravessou sua mente, firme apesar do tremor. Depois o de Wami, protetor.
O de Udadisi, corado e confuso.
E o de Kiny, sempre no lugar errado, na hora errada.
— Idiotas... — repetiu, mas dessa vez não parecia que estava falando deles.
Um farfalhar atrás dela a fez se virar de supetão.
— O que você quer? — rosnou, antes mesmo de ver quem era.
Udadisi parou a poucos passos, as orelhas baixas, claramente hesitante.
— Eu... — ele coçou a pata na terra, sem encará-la direito. — Você saiu sem sem terminar de falar.
Amadi franziu o cenho.
— Eu terminei de falar tudo o que tinha pra dizer.
— Não — Udadisi respondeu baixo. — Você terminou de gritar.
O comentário a atingiu mais forte do que ela gostaria de admitir.
— Veio me julgar também? — Ela rebateu, virando o corpo de lado, defensiva. — Já tem uma fila formada para isso.
— Eu só... — ele suspirou enquanto balançava a cabeça, reunindo coragem. — Queria saber por que está com tanta raiva.
Amadi abriu a boca para responder de forma automática, venenosa — mas nenhuma palavra saiu.
Ela desviou o olhar.
O vento passou entre os dois, carregando o cheiro distante da caverna, da família, do problema que ela tinha acabado de deixar para trás.
— Vá embora, Udadisi — disse, mais cansada do que furiosa.
— Não — ele respondeu, surpreendendo até a si mesmo.
Amadi o encarou.
— Eu só quero entender — ele engoliu em seco.
O silêncio se estendeu, pesado, quebrado apenas pelo som do vento nas folhas.
Amadi cerrou os dentes.
— Ninguém me escuta — ela acabou dizendo. — Porque todo mundo acha que eu sou só... isso. — Ela fez um gesto vago com a pata. — A leoa irritada. A que sempre exagera. A que nunca tem motivo.
Udadisi não disse nada, apenas se sentou.
Amadi percebeu, tarde demais, que tinha começado a falar de verdade.
— E porque às vezes — ela continuou, a voz mais baixa —, às vezes parece que eu sou a única tentando proteger essa família.
Udadisi ergueu os olhos para ela.
— De quê?
— De coisas que vocês ainda não entendem — ela fecha a cara, virando o rosto para o horizonte, onde o céu começava a se tingir de laranja. — E eu não sei como explicar sem machucar todo mundo.
O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas agora era diferente. Não hostil, carregado.
Udadisi respirou fundo.
— Não precisa explicar tudo agora... — ele disse. — Mas não precisa nos machucar para tentar nos proteger.
Amadi permaneceu imóvel.
O vento soprou mais forte, fazendo a filhote estremecer de leve.
Amadi manteve os olhos no horizonte por um tempo que pareceu maior do que realmente foi.
A brisa brincava com os pelos dela, e o silêncio entre os dois já não era de confronto, era de cansaço.
— Acha que gosto de ser assim? — Ela perguntou de repente, sem olhar para Udadisi.
Ele ergueu as orelhas, surpreso com a mudança de tom.
— Acho que você está machucada — respondeu com cuidado.
Amadi soltou um riso sem humor.
— Machucada? — ela repetiu. — Estou cansada.
Ela finalmente virou a cabeça para ele.
— Todo mundo acha que faço tudo isso porque quero ser a forte, a mandona, a briguenta... mas só estou tentando segurar tudo no lugar porque se eu não fizer isso, ninguém faz.
Udadisi franziu o cenho. — Hakuwa tenta...
— Hakuwa não vê — ela interrompeu. — Ele não mora na mesma toca que nós. Não acorda todo dia com Habi olhando para ele como se fosse um erro que respira.
A palavra escapou antes que ela pudesse conter.
Erro.
Udadisi sentiu o estômago apertar.
— Amadi... — ele murmura, se aproximando com passos hesitantes.
— Ela odeia que eu seja igual a ele — continuou, agora mais rápido, como se o silêncio fosse perigoso. — O jeito que falo, o jeito que ando, até o jeito que durmo. Tudo nela muda quando me olha. E eu sei por quê — ela respirou fundo. — Porque me pareço com o papai.
Udadisi permaneceu imóvel.
— E eu... eu ainda espero que ele volte — a voz dela falhou por um instante e suas garras riscaram o chão levemente num gesto quase acoado.
O vento trouxe o cheiro distante das acácias.
— Todo mundo diz que ele não vai — ela murmurou. — Mas ninguém entende. Se ele voltar, tudo muda. Ela muda. A gente muda. Eu mudo.
Udadisi deu um passo mais perto.
— E se ele não voltar?
Amadi fechou os olhos.
— Então eu não sei por quanto tempo eu consigo continuar fingindo que está tudo bem.
O silêncio voltou a envolver os dois, mas agora era frágil, como vidro fino.
Udadisi se sentou ao lado dela.
— Você não precisa carregar isso sozinha.
Amadi não respondeu.
Mas pela primeira vez naquela noite, ela não se afastou.
[...]
A lua se erguia lentamente sobre a planície aberta quando a caravana de Wishar atravessava a grama ondulante após sua expulsão formal do Conselho.
O vento frio deslizava pela terra, fazendo a grama da savana se curvar como um mar silencioso.
À frente caminhava Dhalimu.
Seus ombros largos sustentavam uma juba espessa que lhe descia pelo pescoço como uma armadura natural. O corpo trazia marcas antigas de batalhas — cicatrizes irregulares na lateral e no peito, lembranças visíveis de que sua autoridade sempre fora sustentada pela força.
Ao lado dele, movia-se Ananda. Sua expressão era dura, quase esculpida, os dentes levemente à mostra mesmo quando não falava, como se a fúria jamais se afastasse por completo de seu semblante.
Atrás deles, seis leões de escolta caminhavam em silêncio, a formação já menos rígida do que quando deixaram Rivalon — um reflexo da perda recente de prestígio e comando.
— Nos ofenderam publicamente — murmurou Dhalimu, a voz grave rompendo o silêncio da planície.
Ananda manteve o olhar à frente, os olhos dela se estreitando ligeiramente.
— Não nos ofenderam. Mostraram o quanto temem o que ainda podemos fazer — a resposta dela veio num tom de amargura.
Dhalimu soltou um som baixo, entre um rosnado e um suspiro.
— Cancelaram tratados. Fecharam fronteiras. Retiraram as Guardas. Isso não é medo. É punição.
Antes que ela respondesse, uma terceira voz surgiu da escuridão, calma demais para aquela noite.
— É consequência.
Ambos se viraram.
À margem da planície, parcialmente recostado contra uma formação rochosa, encontrava-se Scar.
Sua juba negra caía pesada ao redor do rosto, contrastando com a pelagem castanho-avermelhada do corpo. Um conjunto de cicatrizes profundas marcava-lhe o flanco e o pescoço, linhas irregulares que contavam histórias de dor e sobrevivência. Os olhos verdes, atentos e frios, observavam-nos com um interesse quase divertido.
— Príncipe das Terras do Reino — rosnou Dhalimu. — Não foi convidado.
Scar inclinou a cabeça, um sorriso torto surgindo lentamente.
— Depois do espetáculo que deram no Conselho, imaginei que convidados fossem exatamente o que vocês deixaram de ter — ele avançou alguns passos, o movimento lento e calculado, como quem se aproxima de uma presa que já não tem para onde correr.
— Dois dias — continuou —, dois dias de viagem árdua e vocês transformaram Wishar em um pária político. Confesso, é um feito raro. Poucos reinos conseguem se isolar de todo o continente tão rápido. E, devo admitir, vocês não são os mais espertos quando se trata de sumir sem deixar rastros.
Ananda estreitou os olhos rosados.
— Wishar não precisa da aprovação dos outros para existir.
Scar soltou um riso baixo.
— Nenhum reino precisa... até precisar. E vocês vão precisar muito em breve.
Ele começou a contorná-los, analisando-os como peças defeituosas de um tabuleiro antigo.
— Envenenaram a própria rainha — disse, sem alterar o tom —, exilaram a herdeira legítima, forçaram a saída do futuro líder da Guarda e agora caminham por terras neutras sem aliados nem reconhecimento.
Um silêncio pesado se instaura entre os leões.
— Diga-me, Ananda... por quanto tempo um trono roubado sobrevive quando ninguém mais o reconhece como trono? — Parou diante de Ananda, os olhos verdes fixos nos róseos dela.
O vento ficou mais forte, fazendo a juba de Dhalimu ondular e a pelagem de Ananda se arrepiar.
Ela sustentou o olhar de Scar, mas não respondeu.
Scar deu um passo atrás e inclinou a cabeça em um gesto que beirava a cortesia.
— Tenham uma boa noite, Majestades.
Virou-se então e se afastou pela planície enquanto a lua desenhava sua sombra longa sobre a terra.
Ananda permaneceu imóvel por longos instantes, Dhalimu respirava pesado.
Wishar tinha deixado oficialmente de ser um reino.
A planície já estava silenciosa quando a sombra de Scar desapareceu entre as colinas distantes. O vento ainda carregava o eco da voz dele, como se a própria noite se recusasse a esquecê-la.
Por um longo tempo, Ananda permaneceu parada. A lua refletia em seus olhos duros como brasas que se recusavam a apagar.
O maxilar dela estava travado, seus dentes, cerrados.
— Deveria ter rasgado o pescoço dele — Dhalimu foi o primeiro a falar, rosnando entredentes.
Ananda soltou uma risada curta, seca, sem humor.
— E teria feito exatamente o que ele queria.
Dhalimu virou o rosto para ela. — Ele nos humilhou.
— Não — corrigiu ela, finalmente se movendo. — Ele tentou.
Ananda caminhou alguns passos, afastando-se da comitiva, até a borda da planície onde a grama era mais alta. O vento fez sua pelagem alaranjada ondular como fogo vivo.
— Ele acha que nos derrotou porque fechou portas — continuou. — Como se portas fossem o que mantém um reino de pé.
Dhalimu se aproximou, a juba pesada projetando sombra sobre ela.
— Eles nos tiraram tudo.
Ananda virou-se de súbito.
— Não. Eles nos tiraram o banquete — ela sustentou o olhar dele, os olhos rosados brilhando. — Então iremos virar a mesa inteira.
O vento soprou mais forte, levantando poeira e folhas secas.
— Não vamos atacá-los — disse ela. — Não ainda. Guerra é barulhenta. Une inimigos. Dá heróis aos outros reinos.
Dhalimu franziu o cenho.
— Então o que faremos?
Ananda se aproximou, baixa a voz, cada palavra medida como lâmina.
— Racharemos o Conselho por dentro.
Ela começou a andar em círculos lentos, como quem traça um mapa invisível na terra.
— Os reinos menores primeiro. Semeamos dúvida sobre a Guarda — continuou, seus lábios se contorcendo em um sorriso perverso. — Criamos conflitos locais. Financiamos desordem.
Ela parou diante dele.
— Quando a estabilidade cair... vão olhar para Wishar e lembrar que um dia precisaram de nós.
Dhalimu respirou fundo.
— E Scar?
O sorriso de Ananda se alargou.
— Scar vai aprender o que acontece quando alguém transforma uma rainha em espetáculo — o silêncio se instalou pesado entre os dois.
Ao longe, a comitiva aguardava e Ananda voltou-se para o caminho.
— Prepare os mensageiros assim que chegarmos ao reino, Tandwe — ordenou a uma das leoas da comitiva. — Esta noite, Wishar começa a reconquistar o mundo.
Dhalimu observou enquanto ela se afastava, e pela primeira vez desde que chegaram em Rivalon, sorriu.
Aquela não era mais uma derrota para eles.
Era uma guerra que ainda não tinha nome.
